publicidade
Mundo

Primavera de 2023 em Dubai

A cidade continua sua trajetória exuberante de crescimento alicerçado na visão do Sheik Mohammed Al Maktoum no binômio fé e felicidade

Primavera em Dubai
Downtown Burk Khalifa, em Dubai | Foto: Francisco Anzola/Flickr

Voltei recentemente de Dubai. Avizinha-se o fim da primavera no Hemisfério Norte e as elevadas temperaturas do verão do Golfo se anunciam. A cidade continua sua trajetória exuberante de crescimento alicerçado na visão do Sheik Mohammed Al Maktoum no binômio fé e felicidade. Exuberância não somente na infraestrutura social, cultural e financeira. Percebe-se uma consistente estratégica em participar das mudanças na geopolítica mundial.

Em todos os setores observados há pujante crescimento. A companhia aérea local registrou o maior lucro em seus 39 anos. A aviação é um excelente termômetro econômico: é o primeiro nas crises e também o primeiro na retomada. Dubai é hoje o maior “hub” aéreo internacional, especula-se uma encomenda de 300 “wide bodies”. Palavras como covid, máscaras ou atestados parecem parte de um passado distante. Shoppings, museus, restaurantes e hotéis estão repletos. O mercado imobiliário valorizou 3 vezes.

Receba nossas atualizações

Na vizinha Arábia Saudita o otimismo não é diferente. O país dedica-se à construção da cidade de NEOM (do latim NEO e M de futuro em árabe). Na fronteira com Jordânia e Egito deverá surgir um centro de turismo e negócios às margens do Golfo de Ácaba e do Mar Vermelho, por onde passa 10% do comércio mundial. Toda energia será eólica ou solar. Uma nova companhia aérea vem de ser criada com encomenda de 450 jatos para o plano virar realidade.

Leia também: “Dubai pode ter ‘bairro aéreo’ a 500 metros do chão”

É um desafio buscar explicações para tamanha confiança quando o mundo vê a guerra da Rússia contra a Ucrânia arrastar consigo a Europa e os EUA. Um atento observador diplomático percebe, todavia, alguns sinais. A presença russa é visível em Dubai. O aeroporto executivo, as casas de câmbio, o Centro Financeiro Internacional (DIFC) e os hotéis luxuosos da Palmeira recepcionam aqueles que frequentaram a City de Londres e a Suíça. A expressiva maioria estrangeira na cidade e a habilidade emirati em transformar desafios em oportunidades aportam explicações. A Rússia aprofundou suas relações comerciais e estratégicas com China e Índia, as economias que mais crescem. O bloqueio econômico que o Ocidente lhe impôs flopou, e os “negócios da China” necessitam de porto seguro.

Por sua vez, a Guerra entre a Rússia e a Ucrânia não dá sinais de uma solução no curto prazo. O gasoduto russo que atravessa a Ucrânia e abastece Alemanha, Suíça, França e outros países dificulta qualquer armistício. Assegura a Putin moeda forte com pontualidade germânica. A sua destruição colocaria a indústria alemã de joelhos com quebradeira e desemprego alarmantes, além de numerosas vítimas de um inverno sem aquecimento. No passado inverno, o racionamento pela crise energética na Europa matou mais que a covid. Zelensky sabe disso e faz suas apostas. Assegura suprimentos e armamentos para batalhas que se desenrolam na planície, entre exércitos. Dezenas de milhares de mortos tempestivamente substituídos sem que sejam atacadas as estruturas de energia, transporte e suprimentos de cada lado. Relembra a carnificina das trincheiras alemães e inglesas da Primeira Guerra. Não faltavam armas, nem homens, nem alimentos e durou uma eternidade. Fez 6 milhões de mortos. No caso atual, com as fontes de suprimentos em países que não podem ser atacados, a indústria bélica encontra oportunidades que muitas vezes fomentam negócios escusos. Isso só perdura o conflito e traz consequências desastrosas e imprevisíveis.

Leia mais: “Alemanha elege Rússia como a maior ameaça ao mundo”

Talvez a maior delas seja a perda de protagonismo dos EUA em questões internacionais. Sempre o Secretário de Estado Norte-Americano tem sido reconhecido por sua atuação proativa e empoderada. Mike Pompeo com Trump, Hillary Clinton com Obama, Condolezza Rice e Collin Powell com Bush, Madeleine Albright com Bill Clinton, Donald Rumsfeld com Ford, ou mesmo Henry Kissinger, que completou 100 anos. Pasmos, vemos uma Guerra que envolve os EUA e o Secretário de Estado do Biden é ofuscado por políticos europeus em rotação à frente da OTAN. Até o Chanceler russo Serguei Lavrov parece mais atuante.

Para agravar a situação, o presidente dos EUA tropeça e cai sozinho, usa palavras incoerentes com o raciocínio desejado e movimenta-se com sinais de fragilidade. Em meio a conflito de risco elevado para populações inteiras de seus maiores aliados, prioriza agendas de minorias asseguradas pela Constituição dos EUA e de seus aliados. Rússia e China parecem não acreditar.

A derrocada geopolítica atingiu aliados históricos no Oriente Médio. Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos foram levados a fortalecer seus vínculos com Rússia, Índia e China. Israel, por sua vez, que sempre teve nos EUA um aliado histórico influente, viu-se relegado por políticas sem eco no judaísmo e pela perda de interesse estratégico no Oriente Médio. Parece um caminho sem volta. Qualquer eventual mudança futura constatará que o espaço perdido foi ocupado por uma sólida realidade comercial, financeira e estratégica. “O mundo gira e a Lusitana roda”, dizia uma publicidade dos anos 60 no Rio de Janeiro.  

Leia também: “Florestas no Canadá estão queimando”

Foi uma primavera de muito aprendizado. Certamente no segundo semestre a COP 28 dos Emirados Árabes irá movimentar ainda mais o país. Na volta ao outono frio de São Paulo, deparei-me com o infrutífero esforço em entender o carro popular brasileiro que irá beneficiar ônibus e caminhões…Tristes Trópicos!

Leia mais sobre:

2 comentários
  1. Gustavo Amaral
    Gustavo Amaral

    Texto gostoso de ler. Em poucos parágrafos, atualiza questões que levariam dias de leitura. Uma escrita fina para um tema tão denso. Parabéns ao autor e a revista oeste pela divulgação!

    1. Sergio Vieira
      Sergio Vieira

      Ele so esquceu de mostrar o lado negro de Dubai, trabalhadores asiaticos que trabalham como semi escravos sem direitos trabalhistas e que tem seus passaportes retidos para que nao possam regressar a seus paises de origem. Procure saber, talvez o texto nao seja tao gostoso mas mostra muita hipocrisia.

Canal Oeste
Nossos colunistas
J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
Augusto Nunes
Ana Paula Henkel
Guilherme Fiuza
Rodrigo Constantino
Alexandre Garcia
Antonio Cabrera
Eugênio Esber
Eugênio Esber
Evaristo de Miranda
Flávio Gordon
Roberto Motta
Miriam Sanger
Adalberto Piotto
Frank Furedi, da Spiked
Jeffrey A. Tucker.
Theodore Dalrymple
Flavio Morgenstern
Ubiratan Jorge Iorio
publicidade
Background
NEWSLETTER
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
Background
TELEGRAM
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
publicidade
Background
Assine a Revista Oeste
Seja um dos brasileiros que acreditam que o bom jornalismo transforma um país.