No dia do ataque do grupo terrorista Hamas, Guy Gilboa-Dalal, hoje com 24 anos, se preparava para viajar para o Japão. Ele é fascinado pelo país, aprendeu a língua local sozinho e havia comprado uma passagem para viajar depois do Festival Nova.
+ Leia mais notícias de Mundo em Oeste
Receba nossas atualizações
Então vieram os terroristas, o sequestraram e o torturaram durante mais de dois anos de cativeiro. No retorno, no último dia 13, ele teve a percepção de que acordava de um pesadelo. Era como se o tempo tivesse parado, ele tivesse adormecido em um sono turbulento e apavorante.
Quando viu sua família o esperando na base de Re’im, deu aquele abraço cujas imagens se espalharam pelas redes sociais. No helicóptero, que o levava para o hospital, não tinha ideia do seu verdadeiro destino. Em sua cabeça, ao ver mochilas no compartimento, ele iria para o Japão.
“Ele é fluente em japonês e tinha uma viagem marcada para o Japão”, conta a Oeste a ativista brasileira Márcia Kelner, 56 anos, vice-presidente da entidade Hillel Internacional e conselheira sênior do Hillel da América Latina. Ela, que mora em Israel há 16 anos, também é membro do conselho do Hillel Rio.
“Todos os jovens, quando terminam o exército, fazem uma viagem de mochila de seis meses a um ano. Então, ele estava com a mochila pronta para ir ao Japão. Na cabeça dele, ele estacionou nisso. Quando ele entrou no helicóptero, encontrou a família e viu as malas, com a certeza de que iniciaria a viagem.”
Márcia, que se tornou amiga da maioria das famílias dos reféns, atua no suporte às vítimas do ataque. Ela vai semanalmente à Praça dos Reféns, em Tel-Aviv, e participa intensamente da campanha Bring Them Home Now, que ainda não terminou porque a totalidade dos corpos não foi entregue.
Refém reagiu como criança
Ela prossegue na descrição de como os ataques afetaram o lado emocional dos reféns. Conta que, quando soube que iria para o hospital, Guy entrou em um estado de negação.
Leia também: “Espírito antidesportivo”, reportagem de Eugenio Goussinsky publicada na Edição 293 da Revista Oeste
“Aí a mãe disse: ‘Não, você está indo para o hospital, meu filho.’ Logo ele replicou: ‘Mas eu não estou doente. O que eu tenho que fazer no hospital?’ Então, ele “congelou” o Japão.”
Outro momento que demonstra a mudança de comportamento que essa situação provoca, foi quando a irmã de Guy lhe ofereceu, ainda no helicóptero, brigadeiros.
“No Instagram, há uma cena dele comendo no helicóptero”, prossegue Márcia. E aí ele começa a engolir todos. A mãe fala: “Meu filho, calma, você vai passar mal.” E ele diz que o gosto do brigadeiro é o gosto da casa, não é só o chocolate. Ele teve um déjà vu de um prazer gigante, depois de quase não comer no cativeiro. Ele faz uma cara muito de ‘eu quero engolir tudo’, sabe? Que nem uma criança.”
Ele foi levado para o Hospital Beilinson, em Petah Tikva, para onde foram também os reféns Alon Ohel, Eitan Mor, Avinatan Or e Evyatar David, amigo de infância de Guy. Assim que estiver recuperado, os pais, o irmão e a irmã dele já sabem exatamente quais são os planos. Viajar todos, com Guy, para o Japão. Desta vez, de verdade, para celebrar a vida.
Amigo o Lula