Varíola dos macacos: o que se sabe sobre a doença

Em meio ao surto de casos na Europa, especialistas explicam as causas e formas de contágio da infecção viral
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A doença é conhecida pela erupção cutânea aparente
A doença é conhecida pela erupção cutânea aparente | Foto: Reprodução: Irina Starikova/Shutterstock

O mundo ainda não recuperou por completo da pandemia de covid-19 e outras doenças já estão ganhando a atenção das autoridades de saúde. É o caso da varíola dos macacos, uma doença viral geralmente leve que ocorre principalmente na África Ocidental e Central, regiões onde o vírus é considerado endêmico em 11 países.

A doença não é nova e evoca lembranças dos tempos da varíola humana, uma das doenças mais mortais que já existiu. Conhecida como a primeira moléstia erradicada da história, a extinção da varíola aconteceu oficialmente em 1980, depois de uma campanha de vacinação em massa, orientada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Ao todo, foram registradas mais de 300 milhões de mortes no século passado em razão da doença, segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

varíola dos macacos
Bolhas subcutâneas causadas pela varíola dos macacos | Foto: Reprodução/OMS
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Felizmente, as infecções causadas pelo Orthopoxvirus variolae (monkeypox), o agente causador da varíola do macaco, são mais brandas do que a humana. Classificada como uma zoonose viral, ou seja, quando a doença passa de animais para humanos, a varíola do macaco ficou conhecida após a sua descoberta, em 1958, em colônias de macacos mantidos para pesquisa num laboratório na DinamarcaJá o primeiro caso em ser humano foi registrado pela primeira vez, em 1970, na República Democrática do Congo.

A doença, que estava mais restrita às regiões da África, acendeu a preocupação de especialistas ao aparecer na Europa e outros países — até agora, o surto já resultou em mais de 220 casos fora do continente de maior incidência. 

Ao menos 21 países confirmaram casos da doença até o momento, sendo eles: Reino Unido, Espanha, Portugal, Itália, Holanda, Suíça, Suécia, Áustria, França, Alemanha, Bélgica, Dinamarca, Eslovênia, Finlândia, República Tcheca, Austrália, Estados Unidos, Canadá, Argentina, Israel e Emirados Árabes. O Brasil, até o momento, não registra casos suspeitos da varíola do macaco.

Ainda não é possível explicar com certeza porque a Europa está enfrentando um surto da doença. “O que sabemos é que sempre houve um link epidemiológico com a África”, afirmou Giliane Trindade, professora e pesquisadora do Departamento de Microbiologia do ICB-UFMG. Vários casos no Reino Unido, por exemplo, não têm aparente conexão entre si, levantando a hipótese de que a infecção foi contraída por transmissão comunitária. Mas especialistas ouvidos por Oeste alertaram que as chances de uma transmissão descontrolada são baixas e que o mundo não está diante de uma nova covid-19 nem de novos lockdowns para conter a propagação da doença. 

Diferenças entre varíola humana e do macaco

Embora ambas sejam clinicamente muito parecidas, com uma infecção cutânea distribuída no corpo do paciente, o que as diferencia, no entanto, é a gravidade, a letalidade e o padrão de transmissão. As duas doenças são causadas por vírus que pertencem à mesma família de Orthopoxvirus.

Enquanto a varíola humana era uma doença que matava até 30% das pessoas infectadas, a taxa de mortalidade causada pelo vírus monkeypox é estimada entre 2% a 10%, a depender do tipo de agente.

Existem dois principais subtipos do monkeypox:

• O que acomete a África Central, com destaque para o Congo, tem uma letalidade de 10% – um índice elevado
• O mais comum no oeste africano, causador do surto atual, que possua uma letalidade de 2 a 3%, semelhante à covid-19.

“A varíola humana era mais facilmente transmissível porque era adaptada à espécie humana, enquanto o monkeypox é um vírus de roedores e de pequenos mamíferos. Tanto os macacos quanto nós somos hospedeiros acidentais. Portanto, ele transmite com uma menor taxa de eficiência”, explica a pesquisadora Giliane Trindade.

Sintomas

Os principais sintomas da varíola do macaco incluem febre, dor de cabeça, dores musculares, dores nas costas, linfonodos inchados (pequenos órgãos do sistema linfático), calafrios e exaustão.

Além disso, o paciente pode apresentar lesões na pele e coceira dolorida entre 7 a 14 dias após o contato com o vírus. Geralmente, o sintoma começa no rosto e se espalha pelo corpo, causando pequenas lesões que podem formar crostas. Lesões com pus ao redor da boca, olhos e/ou região genital também foram notificadas. 

 

Sintomas como febre, dor de cabeça e erupções cutâneas são sinais de infecção

 

Formas de contágio

O vírus é transmitido principalmente por meio de contato próximo e trocas de fluidos corporais. Segundo a OMS, o surto de varíola dos macacos na Europa pode ter sido causado por hábitos sexuais de risco em festas de música eletrônica, conhecidas como raves, na Espanha e na Bélgica. Os primeiros casos foram registrados em homens que se relacionaram sexualmente com outros homens. 

“No momento, temos poucas informações sobre como a varíola dos macacos surgiu”, explica Sylvia Kemos Hinrichsen, infectologista e consultora de biossegurança da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). “Existe hoje uma relação com pessoas que fizeram sexo entre o mesmo gênero, entre homossexuais ou bissexuais, e a hipótese levantada para isso é por conta do contato íntimo e próximo.”

O professor de medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro Edimilson Migowski também acredita que a relação sexual seja uma hipótese para a transmissão do vírus. “A forma de transmissão mais provável é o contato próximo das pessoas e o contato sexual acaba sendo um contato muito próximo. Contato com uma secreção, com a pele infectada, contato com roupas contaminadas com a varíola do macaco, assim como pelo espirro e tosse de pessoas muitos próximas”, disse o médico.

A infectologista explica que ainda não há consenso na comunidade médica se a varíola do macaco é uma infecção sexualmente transmissível. Porém, segundo ela, “o contato muito próximo ajuda na transmissão”, já que os órgãos genitais podem apresentar lesões causadas pela infecção do vírus. 

No geral, as formas de contágio mais comuns são através de gotículas exaladas por alguém que esteja com a doença, seja pelo contato direto com a pele ou por materiais contaminados. O período de incubação da varíola do macaco é geralmente de seis a 13 dias, com variações de cinco a 21 dias.

“Daí a importância da higienização das mãos e de evitar contato. E agora, a Anvisa está pedindo para que se também use as máscaras de proteção entre as pessoas”, afirma Sylvia Kemos Hinrichsen. 

Chegada do vírus ao Brasil 

Sobre uma possível chegada do monkeypox no Brasil e do surgimento de uma nova pandemia, a professora e pesquisadora Giliane Trindade explica que é preciso alertar a sociedade sobre a transmissão do vírus.

“Eles estão relacionados com o nosso estilo de vida. Provocamos muitas alterações no ambiente e, ao mesmo tempo, vivemos em um mundo globalizado. Então, os vírus que antes circulavam restritos aos seus locais de origem podem se deslocar muito mais facilmente no planeta”, afirma.  

Para Giliane, a possibilidade de surgir uma pandemia como a do novo coronavírus é baixa. “Estamos mais atentos do que estávamos antes”, explicou. “Esse é um vírus de uma transmissão muito mais difícil do que o Sars-Cov-2 e nós temos vacina para proteger. Particularmente, não acredito que vá se tornar um vírus pandêmico nos moldes como foi a covid-19.”

Vacinação contra varíola no Brasil

No Brasil, a vacina contra a varíola humana não está mais disponível desde a erradicação da doença no país há 50 anos. Em 1971, 19 moradores de uma comunidade de baixa renda no bairro da Penha, zona norte da cidade do Rio de Janeiro, foram notificados como os últimos brasileiros a contraírem a varíola. 

No entanto, estudiosos de diversos países estudam os efeitos do imunizante da varíola comum em pacientes infectados por monkeypox. No Reino Unido, a Inglaterra é um dos países que procurou testar a vacina original, na tentativa de controlar a doença que já infectou 16 cidadãos, segundo informou a Agência de Segurança da Saúde do Reino Unido.

“Mas ainda não sabemos porque é uma plataforma de vacina antiga e ainda é necessário observar o que vai acontecer na prática”, diz a infectologista Sylvia Kemos Hinrichsen. 

Para Flávio Fonseca, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, as pessoas que tomaram a vacina da varíola antes da década de 1980 não estão mais imunizadas.

“Estudos mostram que a imunidade dura cerca de 30 anos. Pode ter uma variação para mais ou para menos, dependendo da pessoa. O mais certo de se pensar é que ela não está mais protegida porque um componente importante de proteção é a reapresentação ao patógeno [agente causador da doença]. No Brasil, com a erradicação da varíola, não houve uma nova estimulação”, explica Fonseca, em entrevista ao jornal Valor Econômico.

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