As costas de Coquimbo, no norte do Chile, guardam nas suas rochas marinhas uma espécie de arquivo natural sobre a história do oceano Pacífico naquela região, permitindo entender como o ambiente marinho local deixou de ser predominantemente quente para adquirir as características mais frias e produtivas atuais, um período de transição climática ocorrido no Plioceno que hoje serve como referência para compreender cenários de aquecimento global projetados até o fim do século XXI.
Quando o mar de Coquimbo ganhou sua fauna moderna?
A pesquisa publicada na revista científica Journal of South American Earth Sciences usou técnicas de datação de alta precisão e comparação de fósseis para reconstituir a fauna marinha antiga da região. Com isso, foi possível identificar quais grupos de animais marinhos desapareceram com o resfriamento e quais linhagens se estabeleceram nas novas condições.
As evidências apontam que, aproximadamente 3 milhões de anos atrás, teve início um resfriamento contínuo que modificou de forma profunda a composição das espécies que habitavam o litoral de Coquimbo e de outras áreas do norte chileno. Essa transformação marca o momento em que o sistema costeiro começou a se aproximar do cenário atual.

Como o Plioceno ajuda a entender o aquecimento global?
O Plioceno é uma época geológica do Neogeno compreendida entre cerca de 5,33 e 2,58 milhões de anos atrás, caracterizada por temperaturas médias globais mais altas que as atuais e concentrações elevadas de gases de efeito estufa. Essas condições são comparáveis às projetadas para as próximas décadas caso não haja forte redução das emissões.
Por isso, esse intervalo de tempo é visto como um análogo climático valioso para entender como oceanos, faunas marinhas e ecossistemas costeiros podem responder ao aquecimento em curso. Ao estudar o Plioceno, cientistas avaliam padrões de extinção, migração e surgimento de novas comunidades para antecipar possíveis impactos futuros.
Qual o papel da Corrente de Humboldt no resfriamento do Pacífico chileno?
Antes de cerca de 3 milhões de anos, o mar ao largo de Coquimbo era mais quente e lembrava, em termos de temperatura superficial, a costa do Peru, com valores em torno de 17 °C. Esse cenário mais morno sustentava uma fauna distinta da atual, com presença de espécies típicas de águas quentes que hoje não são encontradas nessas latitudes.
Os dados paleontológicos mostram que, ao longo do resfriamento, parte importante da chamada fauna de águas quentes foi sendo substituída por organismos adaptados a águas frias e ricas em nutrientes. Em depósitos como os de Lomas del Sauce, foram encontrados restos de tubarões serra e tubarões cornudos, grupos hoje ausentes na costa chilena moderna, mas presentes em regiões como o Caribe e o litoral peruano.
- Redução das espécies típicas de águas quentes.
- Expansão de moluscos e peixes adaptados ao frio.
- Maior disponibilidade de nutrientes na coluna d’água.
- Estabelecimento de aves e mamíferos marinhos dependentes de alta produtividade.
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Como a Corrente de Humboldt mudou a fauna marinha de Coquimbo?
O estudo ressalta que o estabelecimento da Corrente de Humboldt com características semelhantes às atuais foi um dos motores principais do resfriamento das águas do Pacífico junto à costa chilena. O fechamento do istmo do Panamá, cerca de 4 milhões de anos atrás, alterou a circulação oceânica global e fortaleceu essa corrente fria.
Mesmo antes dessa configuração moderna, já existiam zonas de surgência costeira, em que ventos empurram a água superficial e permitem a subida de água fria do fundo, rica em nutrientes. Durante o Plioceno, a intensidade desse processo aumentou, consolidando um ambiente temperado frio na costa chilena e favorecendo um profundo recâmbio ecológico nas comunidades marinhas.
- Aves marinhas e mamíferos filtradores se tornaram mais abundantes.
- Moluscos de águas frias, como machas e grandes mexilhões, passaram a dominar.
- Megalodonte e outras grandes espécies desapareceram da região.
- Baleias filtradoras cresceram em tamanho com a alta oferta de krill.

O que o passado de Coquimbo revela sobre o clima futuro?
Os cientistas aplicaram métodos de datação baseados em isótopos de estrôncio em conchas fósseis, o que permitiu calibrar com precisão a idade dos depósitos e montar um calendário das mudanças. Os resultados indicam que, aproximadamente 300 mil anos atrás, o sistema oceanográfico moderno já estava essencialmente instalado em Coquimbo, com fauna e condições ambientais comparáveis às atuais.
Ao analisar como o oceano respondeu no Plioceno, com extinção de algumas espécies, migração de outras e formação de novas comunidades, os pesquisadores buscam pistas sobre cenários possíveis para o final do século XXI. A principal mensagem é que mudanças na temperatura do mar tendem a provocar fortes reconfigurações na fauna costeira, sem eliminar toda a vida marinha, e que compreender o passado ajuda a planejar respostas mais eficazes no presente.









