O papiro adquirido em 1862 num mercado de antiguidades em Luxor, no Egito, guarda a primeira menção escrita da palavra “cérebro” em qualquer idioma. O colecionador americano Edwin Smith não imaginava que o documento descrevia técnicas cirúrgicas que a medicina ocidental levaria mais de mil anos para alcançar.
O que é o papiro Edwin Smith e como ele foi datado?
A cópia que chegou até nós foi redigida em escrita hierática por volta de 1550 a.C., mas o egiptólogo James Henry Breasted, do Instituto Oriental de Chicago, demonstrou que ela é a transcrição de um texto original composto provavelmente entre 3000 e 2500 a.C., durante o Antigo Império Egípcio.
O documento tem 4,68 metros de comprimento e descreve 48 casos clínicos em formato rigorosamente sistemático, com título, exame físico, diagnóstico e tratamento. Segundo a Wikipedia, ele é considerado o mais importante documento da história da medicina antiga. O papiro termina abruptamente no meio de uma frase no Caso 48, indicando que a cópia sobrevivente está incompleta.

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As primeiras descobertas anatômicas registradas no papiro
Segundo pesquisa publicada no PubMed Central, o papiro contém as primeiras descrições escritas de estruturas anatômicas que a ciência ocidental só formalizaria séculos depois. Entre os registros mais relevantes estão:
- Primeira menção escrita da palavra “cérebro” em qualquer idioma
- Primeira descrição das meninges, membranas que envolvem o cérebro
- Primeira descrição do líquido cefalorraquidiano
- Primeira descrição das pulsações intracranianas e das suturas cranianas
- Descrição de que lesões cerebrais causam paralisia contralateral, conceito que a neurologia só estabeleceria formalmente séculos depois
O documento também registra o coração como centro do sistema vascular, com vasos sanguíneos conectados a ele, além do fígado, baço, rins, ureteres e bexiga.
As técnicas cirúrgicas do papiro que a medicina moderna ainda usa
Conforme a Universidade de Washington, entre os procedimentos documentados estão o fechamento de feridas com suturas, técnica idêntica à cirurgia moderna, e a prevenção de infecções com mel e pão mofado, que contém fungos do gênero Penicillium, precursor empírico do antibiótico.
O caso mais citado é o Caso 25: o tratamento de uma luxação mandibular descrito no papiro é idêntico ao procedimento registrado por Apolônio de Chipre no século I a.C., sugerindo que a medicina grega preservou conhecimentos egípcios sem citar a origem.
Por que o papiro é considerado o primeiro documento científico da história?
A medicina egípcia, em geral, misturava diagnósticos com invocações a deuses e fórmulas mágicas. O Papiro Ebers, por exemplo, combina prescrições válidas com encantamentos religiosos. Segundo a Egyptian Orthopaedic Association, o Edwin Smith baseia-se quase exclusivamente em observação clínica, exame físico e raciocínio empírico.
Os oito encantamentos mágicos que aparecem no verso foram identificados por Breasted como adições posteriores de outro escriba, um recurso de último caso quando os tratamentos racionais falharam. Essa separação entre ciência e magia distingue o Edwin Smith de qualquer outro documento da medicina antiga. Os elementos que o diferenciam:
- Estrutura de caso clínico com título, exame, diagnóstico e tratamento
- Ausência de encantamentos no corpo principal dos 48 casos
- Raciocínio baseado em observação direta das lesões
- Linguagem objetiva, sem referências a divindades nos casos principais

Quem teria escrito o documento mais antigo da cirurgia?
Vários indícios apontam para Imhotep, arquiteto da pirâmide de degraus de Djoser, médico lendário do Antigo Império e o único personagem não-real da história egípcia a ser deificado após a morte. Nenhuma prova direta liga seu nome ao papiro, e a hipótese permanece especulativa.
O que os pesquisadores concordam é que o texto reflete a obra de um cirurgião de raciocínio excepcionalmente rigoroso, provavelmente formado em décadas de observação de feridas de guerra.
Onde o documento está guardado hoje e como ele chegou até lá?
Após a morte de Edwin Smith em 1906, sua filha Leonora doou o papiro à New York Historical Society. Em 1948, o documento foi transferido para a New York Academy of Medicine, em Nova York, onde permanece conservado.
Três mil e quinhentos anos separam o escriba que copiou esse texto do médico que hoje fecha uma ferida com sutura. O papiro de Luxor é a prova de que parte do que chamamos de ciência moderna foi descoberta às margens do Nilo, muito antes de qualquer escola grega existir.









