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Política

A ilusão das métricas e o abismo de valor no ensino superior

O marketing de impulso e as distorções regulatórias na precificação transformaram a jornada acadêmica em sistema prisional

'Há uma precarização severa na gestão das unidades acadêmicas', escreve Danilo Dupas | Foto: Divulgação/Oeste | Imagem criada com o auxílio de inteligência artificial
'Há uma precarização severa na gestão das unidades acadêmicas', escreve Danilo Dupas | Foto: Divulgação/Oeste | Imagem criada com o auxílio de inteligência artificial

Em meu artigo anterior nesta Revista Oeste, intitulado “O Descompasso do Ensino Superior”, diagnostiquei a saturação estrutural do sistema educacional brasileiro. Demonstrei que o país vive uma hiperinflação de oferta — uma “fábrica de vagas vazias” —, em que o diploma perdeu o poder automático de sinalizar ascensão social e produtividade. Contudo, o abismo entre o que as Instituições de Ensino Superior (IES) privadas prometem e o que efetivamente entregam esconde uma disfunção ainda mais severa na raiz de suas estratégias corporativas: a precificação por meio de uma ilusão contábil e o apego cego a métricas de balcão.

Uma matéria publicada no jornal Valor Econômico em 7/7/2026, com o título “Diferença de preço entre curso on-line e híbrido cai a R$ 42”, lançou luz sobre uma anomalia gritante do setor. Dados do Instituto Semesp revelam que as mensalidades efetivamente praticadas pelas faculdades privadas chegam a ser 30% a 45% inferiores aos valores oficialmente reportados ao Ministério da Educação (MEC). Em modalidades como o Ensino a Distância (EAD) e o semipresencial, os abatimentos cobrados na ponta beiram 65% e 50%, respectivamente. Essa disparidade monumental não é um mero subproduto da livre concorrência; é o sintoma visível de uma maquiagem mercadológica que corrói a sustentabilidade de longo prazo e compromete a transparência informacional.

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Embora o artigo 1º da Lei nº 9.870/1999 e o Decreto nº 9.235/2017 exijam estritamente a fidedignidade informacional e a publicidade de planilhas de custos reais para garantir previsibilidade ao aluno e lisura estatística ao Estado, a prática de descontos maquiados transforma a base de dados do MEC em uma ficção burocrática. Essa desconexão impede qualquer avaliação séria da eficiência econômica pelo poder regulador.

O fracasso da educação no país

Essa distorção esconde um erro metodológico fatal: a precificação das IES privadas baseia-se, prioritariamente, no número de matriculados no início da safra, e não no número real de concluintes. Trata-se de uma contabilidade ilusória. Com uma taxa de evasão média que supera os alarmantes 60% no setor, qualquer planejamento financeiro ancorado na captação inicial desmorona ao longo do ciclo. O setor financeiro dessas corporações comemora relatórios trimestrais inflados por matrículas obtidas via marketing de varejo agressivo, focado no impulso e no “primeiro mês grátis”. Mas ignora um detalhe: esse aluno, capturado sem análise de aderência ou perfil, evade em poucos meses. Essa captação puramente comercial gera giro de caixa imediato, mas destrói o indicador de compatibilidade — a afinidade real entre o perfil do estudante e a complexidade do curso —, transformando instituições em portas giratórias de clientes frustrados.

Diante do colapso da retenção, os comitês financeiros das IES privadas cunharam o termo corporativo “permanência”, alegando, de forma conveniente, que o aluno abandona as salas exclusivamente por incapacidade de pagar as parcelas. Essa narrativa caiu por terra. A própria matéria do Valor Econômico expõe que, no vestibular recente, as instituições tentaram reajustar os preços dos cursos híbridos para absorver os custos de infraestrutura do novo marco regulatório do EAD, mas enfrentaram rejeição absoluta da demanda. O valor mediano das mensalidades do semipresencial despencou 14,3%, deixando a diferença de preço entre o curso totalmente on-line e o híbrido em irrisórios R$ 42.

O problema real não é o preço nominal; é a falência da percepção de valor. O estudante percebe a precarização estrutural e se recusa a pagar por um produto pasteurizado. Chamar a retenção de “permanência” reflete a arrogância burocrática de um setor que se nega a ouvir o mercado. “Permanência” evoca o vocabulário prisional, transmitindo um tom de obrigatoriedade e confinamento contratual. O correto é analisar a jornada do aluno e sua experiência de aprendizagem. O estudante deve permanecer pelo prazer do desenvolvimento intelectual e pela utilidade prática do conhecimento, e não como um presidiário de um modelo falido.

A desvalorização dos professores

Infelizmente, a guerra fratricida de preços corroeu as margens operacionais a ponto de asfixiar o capital humano. Há uma precarização severa na gestão das unidades acadêmicas. Vemos hoje reitores e diretores de filiais com remunerações aviltadas, equivalentes às de coordenação. Muitos nem têm o mestrado mínimo exigido para liderar com peso acadêmico e empresarial. Professores sofreram reduções brutais em seus salários reais. O ensino superior passou a comercializar educação como mercadoria de gôndola de supermercado — um produto acabado, com o óbvio já definido —, esquecendo-se de que a educação é um serviço de altíssima complexidade, construído ao longo de uma jornada viva.

Se as lideranças das IES acreditam que o mercado continuará tolerando cursos focados exclusivamente na escala de baixo custo, o choque de realidade será terminal. A nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC) está gestando um novo perfil de egresso. Ela torna obrigatórias disciplinas de matemática financeira desde o ensino fundamental, além do desenvolvimento socioemocional e do empreendedorismo no ensino médio. As próximas safras de estudantes chegarão ao mercado com autonomia financeira e capacidade analítica muito mais refinadas, sabendo calcular perfeitamente o retorno sobre o investimento (ROI) de seu tempo e dinheiro. Diante da obsolescência veloz provocada pelas novas tecnologias, esses jovens críticos simplesmente boicotarão os currículos tradicionais de baixa qualidade.

Para estancar essa sangria, urge uma profunda revisão regulatória e gerencial. Defendo, como premissa de Estado, uma simplificação radical dos atos autorizativos: em vez de engessar a criatividade institucional delimitando rigidamente formatos presenciais, semipresenciais e EAD em caixas estanques, o MEC deveria estabelecer um único teto porcentual de carga horária a distância permitida por área de conhecimento.

Paralelamente, o poder regulador deve focar na fiscalização implacável da verdade estatística: garantir que o número de alunos divulgado e os valores das mensalidades informados correspondam exatamente aos praticados pelas tesourarias. A avaliação nacional deve migrar de carimbos burocráticos para indicadores qualitativos de maturidade institucional, aferindo a capacidade real da IES de interagir com o ecossistema produtivo e preparar o aluno para empreender ou atuar com visão de dono.

O Brasil possui uma diversidade regional riquíssima que é menosprezada por cursos unificados nacionalmente para atender à escala financeira de baixo custo. A educação se desenvolve em ciclos; precisa de sinergia plena com o ambiente local. Tenho frequentado os principais congressos do setor, e o diagnóstico é deprimente: o microfone está permanentemente aberto apenas para quem oferta o curso e para os engenheiros financeiros de planilhas de curto prazo. Quase nunca se ouve quem contrata a mão de obra. A vaidade corporativa precisa sair de cena para dar lugar à humildade de escutar o mercado produtivo. Se isso não mudar com urgência, a nova geração de alunos críticos vai enterrar de vez o modelo de ensino superior privado de balcão.

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Danilo Dupas é economista, professor e executivo do setor educacional. Foi presidente do Inep e secretário da Seres/MEC. É mestre em administração, com ênfase em finanças

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2 comentários
  1. Marco Polo Gerard Bondim
    Marco Polo Gerard Bondim

    Salvo melhor juízo, me parece que o autor reclama mais regulamentação do estado sobre as escolas de nível superior, mais realidade nos indicadores financeiros, de modo que a burocracia governamental possua uma base estatística mais confiável.
    A meu ver, vai na contramão de uma das razões do baixíssimo nível instrucional do brasileiro que, segundo o INAF de 2024, 88% dos brasileiros, não possui proficiência em português e matemática – não consegue interpretar textos longos e fazer contas aritméticas mais complexas, sendo que, 29% dos adultos, entre 15 e 64 anos, são analfabetos funcionais. 
    Os dados brutos do próprio Ministério da Educação (MEC) e de exames internacionais como o PISA demonstram que o Brasil figura historicamente nas últimas posições globais em proficiência matemática, atestando que a situação já chega ao terceiro grau absolutamente perdida.
    O que se vê e o que não se vê, de acordo com Frédéric Bastiat:
    Se vê uma turma absolutamente despreparada, sem a formação necessária em matérias duras (matemática, física, química, ciências naturais e lógica), a ponto de sequer ter a possibilidade de discernir entre narrativas e realidade.
    O que não se vê: O empenho em dar ao indivíduo, em sua melhor idade de expansão neurológica (5 anos de idade), oportunidade real de desenvolvimento intelectual para fazer frente às suas demandas e emancipação.
    Continuamos, portanto, replicando a mesma metodologia que nos fez feitoria de Portugal em 1500. Aos da elite, boas escolas desde cedo, ao povão, atualmente, apenas “jogo de cena”.

  2. Luiz Antônio Alves
    Luiz Antônio Alves

    Sou professor de uma época em que já havia preocupações. Imagina o professo de economia do último semestre e ter alunos que não sabiam quanto era 17% de 100. Reprovei. Foi um problemão na reunião de professores. O nome dos alunos já estavam no convite de formatura…

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