Qual é o principal produto vendido por um marqueteiro? Ele próprio. Esse é o primeiro elemento a considerar antes de avaliar qualquer análise política produzida por profissionais desse tipo. Não que não possam surgir boas análises de marqueteiros; podem, e às vezes acontecem. Mas é preciso ter em mente que a prioridade do marqueteiro é vender-se, e a compreensão da realidade não é sua finalidade última, mas o meio primordial para a promoção da sua mercadoria.
Dito isso, detenho-me agora sobre uma análise compartilhada nas redes sociais por um profissional do marketing eleitoral, que tem gerado algum barulho. Não cito seu nome, não apenas por polidez, mas porque, apresentada como um insight fulgurante capaz de abrir portas da percepção, a tese carece de toda singularidade, sendo bastante típica da cultura digital coach hoje tão onipresente.
Receba nossas atualizações
Eis o que afirma o paracleto contemporâneo:
“Quem me acompanha sabe: o que está vindo é estrutura, não aposta de curto prazo. É o fim de um ciclo inaugurado em 1994 e o início de outro que pode guiar o próximo terço de século. Você tem duas escolhas: se preparar agora e se posicionar ou ignorar e ser arrastado pela maior mudança estrutural da sua vida adulta. Me cobre depois (…) Política é cobertor curto. Liberdade, igualdade e eficiência não coexistem no mesmo minuto. A sociedade puxa de um lado, descobre o frio do outro. Quando exagera na igualdade, nasce a demanda por eficiência. Quando sufoca a liberdade, o pêndulo retorna. Nos Estados Unidos, a alternância administra o atrito. Na Argentina, Milei foi resposta a excesso estatizante. O Brasil não é exceção. E o que vem aí vai muito além de campanha (…) O ciclo social ampliado se esgotou. O próximo ciclo exige outro arranjo. E o centrão entendeu. 2026 é ponto de virada. Não é só mais uma eleição. É fechamento de ciclo.”
Antes que inovadora, a tese de que a história política obedece a “ciclos” é recorrente no debate público nacional. Poder-se-ia quase dizer que é ela, a tese, e não seu objeto, que obedece a um padrão cíclico de manifestação. Trata-se de uma tentativa retardatária de filosofia da história, um eco pálido de Hegel e, mais recentemente, de Fukuyama, ambos convictos, como se sabe, de haver encontrado a lei inexorável do devir humano. Quem hoje repete a tese o faz como um hegeliano ou fukuyamista après la lettre, acreditando ter descoberto um padrão teleológico ali onde possivelmente só haja a sucessão de contingências.
+ Leia mais notícias de Política em Oeste
O primeiro requisito para sustentar semelhante hipótese seria demonstrar empiricamente a existência desses ciclos. Não se trata de missão impossível, mas exigiria séries históricas consistentes e abrangentes, capazes de indicar não apenas coincidências ocasionais, mas regularidades suficientemente precisas a ponto de justificar o uso da palavra “ciclo”. A simples observação de alternâncias políticas pontuais, porém, não basta para erigir uma lei.
Mesmo que alguém cumprisse essa etapa e apresentasse os dados de modo convincente, restaria ainda um segundo problema mais profundo: o salto da constatação de recorrências factuais para a formulação de uma necessidade histórica. Uma coisa é constatar a existência de ciclos históricos. Outra coisa é extrair dessa constatação a conclusão de que a história é cíclica. Aproximamo-nos aqui do famoso “paradoxo do cisne negro”, formulado por Nassim Taleb: a história parece obedecer a padrões repetitivos até o instante em que deixa de fazê-lo, desmentida por um acontecimento inédito e imprevisto que altera a trajetória.
Mais artigos de Flávio Gordon:
A raiz da incapacidade epistemológica de apreensão total da história reside, afinal, na natureza ontológica do próprio observador. O homem, por ser ele mesmo um ser histórico, não pode escapar de sua condição e contemplar a história de fora, como se possuísse um ponto de vista absoluto e privilegiado. Tanto quanto um personagem de romance não pode saltar para fora das páginas do livro para enxergar a totalidade da narrativa, o sujeito histórico não pode ocupar uma posição extra ou supra-histórica. Essa posição só existe como projeção ideal, na consciência do observador, não como traço do objeto empírico considerado.
“Lei histórica”

Em suma, a ideia de uma “lei histórica” é um mito, algo que já deveria ser de amplo conhecimento. A história não se comporta como um mecanismo, mas como um campo de possibilidades. O que chamamos de “ciclos” não passa da tentativa de organizar mental e narrativamente o passado, atribuindo-lhe uma forma compreensível. Nesse sentido, trata-se de um mito quase psicanalítico, oferecendo conforto intelectual diante da experiência de imprevisibilidade. É, portanto, menos uma lei objetiva da política (a doce ilusão positivista) e mais um recurso interpretativo, sujeito a limites claros.
Reconhecer isso não significa entregar-se ao relativismo, mas admitir a complexidade da realidade histórica. A história não se reduz a repetições necessárias, abrindo-se, em vez disso, a rupturas e surpresas – ao evento. O que virá, portanto, não será estrutura, mas novos eventos, pois eventos são tudo o que há. A estrutura, se existe, não está lá fora, no plano do objeto, mas no plano do sujeito – em sua mente. Está nas palavras, não nas coisas. E é nesse horizonte de incerteza que se inscreve a responsabilidade humana de agir, inclusive (ou sobretudo) politicamente.
Leia também: “A verdade sempre vaza”, reportagem de Augusto Nunes e Eliziário Goulart Rocha publicada na Edição 290 da Revista Oeste
A denúncia do deputado Filipe Barros e os soberanistas de ocasião
O Brasil à moda Hamas
A Juristocracia em Pleno Exercício
Sim começou com Fernando Henrique e a reeleição.Ganhou 4 anos caneta comendo.outrod 4 anos quebrado e desacreditado.Acabou esse ciclo começa o outro.Reeleicao para presidente governador e prefeito um só mandato.Senador deputado e vereador só uma reeleição.Basta de famílias de políticos profissionais.E proporcionalidade no senado e na Câmara Chega de rabo balançar o cachorro