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Política

A Juristocracia em Pleno Exercício

Em depoimento à Câmara, o ex-assessor Eduardo Tagliaferro demonstrou que há um regime de exceção no Brasil

O ministro Alexandre de Moraes, STF, durante a segunda sessão do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro — 3/9/2025 | Foto: Wilton Junior/Estadão Conteúdo
O ministro Alexandre de Moraes, STF, durante a segunda sessão do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro - 3/9/2025 | Foto: Wilton Junior/Estadão Conteúdo

O novo depoimento de Eduardo Tagliaferro, dessa vez na Subcomissão Especial sobre o Combate à Censura da Câmara dos Deputados, é mais uma dissecação do regime de exceção no Brasil. Por meio dele, o ex-assessor do TSE expôs com mais detalhes a forma como Alexandre de Moraes converteu a Corte Eleitoral em bunker ideológico, promovendo, nas palavras do depoente, “um mutirão de perseguição à direita”. Nesse aparelho paraestatal e clandestino, ordens internas demandavam o monitoramento sistemático de cidadãos por conta de seu posicionamento político-partidário, e os servidores chegavam a ser intimidados para executá-las. Definitivamente, o Estado de Direito virou Estado de Polícia, tendo a toga e o latinório por disfarce.

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Carl Schmitt dizia que soberano é quem decide sobre o estado de exceção. Daí que os arquitetos de regimes de força precisem criar um estado de exceção permanente, justificado por conta de uma ameaça interna constante. No Brasil a exceção virou rotina por meio da estigmatização e ulterior criminalização do assim chamado “bolsonarismo”, rótulo flexível e ilimitadamente ampliado para caber em qualquer opositor ao regime STF-PT. Desse modo, os magistrados camaradas decidem quem pode falar, o que pode ser publicado, quem pode disputar eleições. Suspende-se o devido processo, tudo em nome da “defesa da democracia”. É o paradoxo perfeito: todas as bases fundamentais de uma democracia são solapadas em nome da sua proteção. O poder cujos limites são expressamente definidos na Carta Magna agiganta-se irrefreado, passando a vigiar, punir, orientar e, quando necessário, sacrificar os indivíduos indisciplinados em nome de um bem coletivo definido pelos próprios luminares de toga.

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Mas o ponto mais sensível da denúncia de Tagliaferro é outro: se o tribunal eleitoral atuou para perseguir e silenciar um dos lados do debate público às vésperas do pleito, a própria legitimidade do resultado de 2022 está sob suspeita. É essa percepção a origem da revolta que culminou no 8 de janeiro, e que foi instrumentalizada pelo regime para, justamente, a consolidação de um estado permanente de exceção. Numa democracia representativa, a eleição pressupõe igualdade de condições no debate público e pressupõe, por óbvio, uma arbitragem imparcial ao longo de todo o processo. Quando a arena é arbitrariamente inclinada por quem deveria apenas apitar o jogo, o que temos não é uma competição justa, mas um campeonato manipulado. Essa manipulação foi simbolizada por frases como “derrotamos o bolsonarismo”, “perdeu, mané” e “missão dada é missão cumprida” — todas ditas por autoridades eleitorais que tinham por dever legal, e imperativo ético, o exercício da isonomia.

O STF corrompido

A denúncia de Tagliaferro apenas dá forma documental ao que já era intuição generalizada: o tribunal eleitoral não é mais uma Corte, mas um comitê central. A lei, que deveria ser escudo contra o arbítrio, virou espada para cortar cabeças dissidentes. Quando o juiz entra em campo para jogar, a partida já está obviamente viciada. E quando a exceção se torna regra, já não há democracia para salvar, mas apenas o espetáculo melancólico de sua encenação.

7 comentários
  1. Marcos Antônio de Carvalho
    Marcos Antônio de Carvalho

    Infelizmente, não há o qaue fazer. Não agora! Todas as autoridades a quem caberia averiguar as denúncias, tomar providências honestas para sanar o que foi denunciado, estão cooptadas pelo regime de exceção que foi imposto. Governo – o principal beneficiado pelos absurdos políticos e jurídicos -, o STF/TSE, as forças armadas, o Senado Federal, a Câmara dos Deputados, a imprensa ( Grupo Globo, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, Veja, /tvs e Rádios, Universidades Públicas, enfim., todos venderam-se ao desatino. E o povo, ou pelo menos a grande maioria do povo brasileiro, vendeu-se em troca do Bolsa família, do vale gás, do pé-de-meia e dos bilhões decorrentes da Lei Rouanet. O país sendo entregue aos chineses em troca de bugingangas, aquelas de plástico barato (made in china)…. Não há perspectiva de mudança, pelo menos pelos próximos 20 anos!!!!!!!!!

  2. Raul Bley Maia Filho
    Raul Bley Maia Filho

    Texto perfeito sobre a ditadura togada que literalmente colocou um condenado em 3 instâncias na cadeira de presidente. O próprio Gilmar Mendes admitiu isso.

  3. Helder Rodrigues de Oliveira
    Helder Rodrigues de Oliveira

    Excelente texto. Parabéns ao escritor, um retrato histórico da nossa triste realidade. Essa reportagem deveria colocar na testa do Presidente do Senado que é um dos MANTENEDORES desse REGIME DE EXCEÇÃO. Passou da hora de denunciá-lo por prevaricação – provas estão mais que consolidadas – a começar do pedido da maioria – não ser respeitado e com inúmeras provas e inclusive condenação na Justiça americana e aqui recusa a DESPACHAR inúmeros pedidos de impeachment.

  4. Perecles Antônio Gonçalves Pacheco
    Perecles Antônio Gonçalves Pacheco

    Esse STF não é um tribunal. É um grupo de revolucionários de extrema esquerda adrede colocado na corte para implementar a revolução norcobolivariana. Essas Forças Armadas estão comprometidas com isso. Conquanto essas Forças Armadas sejam um zero à esquerda em termos de força de guerra, para prender o povo mediante métodos pérfidos elas são eméritas.

  5. Irlando Oliveira
    Irlando Oliveira

    Triste página da justiça brasileira! É de dá náusea!

  6. Antonio Carlos Cavalieri DOro
    Antonio Carlos Cavalieri DOro

    Apesar de tudo, nada muda, nada acontece!

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