Muitos foram os escritores que, ao longo do século 20, empenharam os melhores esforços para descrevê-lo: o rosto do burocrata totalitário. Esse era, afinal, o fenômeno inédito da era. Um fenômeno que, aos seus contemporâneos mais perspicazes, afigurava-se tão estranho quanto aterrador. Já não bastava, então, recorrer a comparações com as imagens tradicionais do perverso em séculos anteriores — o monarca sanguinário, o inquisidor fanático ou o niilista incendiário. Quem agora entrava em cena era o funcionário. O homem do carimbo. A criatura sem traço, sem paixão e sem culpa. Um espectro administrativo cuja expressão, ao mesmo tempo banal e impenetrável, tornou-se o verdadeiro emblema do mal moderno.
+ Leia mais notícias de Política em Oeste
Receba nossas atualizações
Sim, o século 20 nos ensinou que o mal não é um monstro, mas um homem pálido de terno cinza. Graças ao talento expressivo de gente como George Orwell, Hannah Arendt, Franz Kafka, Arthur Koestler, Robert Musil, Albert Camus, Czesław Miłosz, Vasili Grossman, Primo Levi, entre outros, aprendemos que o inferno pode ser administrado por protocolos. E que o rosto humano, quando renuncia à alma da qual é parte, converte-se numa tela em branco, na qual se projetam ordens destituídas de empatia, justiça ou verdade.
O mal moderno não tem feições demoníacas, mas neutras. Ele não grita, apenas carimba. Não se exalta, apenas executa. A anulação da fisionomia é o complemento corporal da anulação moral. O rosto vazio é o sacramento visível de uma apostasia invisível: a deserção da responsabilidade individual diante da máquina.
+ Flávio Bolsonaro a Gonet: ‘O senhor perseguiu, entrou no jogo sujo’ de Moraes
Do tribunal de Kafka à sala de audiência de Jerusalém, da cela de Rubashov ao campo de Primo Levi, o que vemos é sempre o mesmo semblante: o rosto impassível do servo perfeito, o olhar vazio do executor obediente. A fisionomia do totalitarismo é, em última instância, a caricatura do homem moderno — um rosto sem expressão, e portanto, sem remorso. Uma fisionomia inumana.
Pois foi esse mesmo rosto que vimos nesta quarta-feira, 12, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. Era o rosto de Paulo Gonet, lamentavelmente reconduzido ao cargo pela maioria dos senadores. Diante da contundente inquirição do senador Flávio Bolsonaro, quem assistia com o semblante anódino era o Procurador-Geral da República — mas bem poderia ser um dos burocratas de Kafka (todos com “a mesma expressão impenetrável, como se houvessem sido moldados na mesma massa”), ou o senhor Ulrich de Musil (cujo rosto “era apenas uma superfície onde nada permanecia por muito tempo”), o Eichmann de Arendt (cuja “incapacidade de falar estava intimamente ligada à incapacidade de pensar —de pensar do ponto de vista de outra pessoa”), ou ainda o juiz de Grossman (cuja “máscara impassível” sugeria um “desconhecimento da piedade”).
Quando o colegiado vota e o rosto técnico não vacila; quando o senador acusa e o executor preserva a serenidade; quando a mídia registra e a burocracia responde — o resultado é uma cena de civilização perdida. O rosto cômodo do burocrata substitui o rosto perturbado do cidadão. A função substitui a vida real.
A fisionomia de Paulo Gonet é a fisionomia do nada, a mais pura expressão da “banalidade do mal”. Gonet não ri, não se enfurece, não hesita. Apenas assina, formaliza, acumula decisões e cumpre ordens. E, mais do que tudo, como sói ocorrer com as criaturas do pântano do deep state brasiliense, Gonet permanece. E é justo essa permanência que responde pelo caráter aterrador do Estado moderno.





































Exatamente, caro Flávio Gordon. A perspicácia da sua análise é o retrato perfeito de uma espécie sem alma.
Esse texto é primoroso. Reflete o que sentimos e temos vivenciado em cada ato perverso do Senado porque omissão também é perversidade, em cada ato do ‘circo armado’ no STF e todos que os envolvem. Esse túnel que estamos atravessando está muito longo, a luz parece muito distante. #AnistiaJá
Não é crível que um regime se sustente conduzido por caneteiros.. Um dia a casa cai…
Bravo!