Afinal, o feminismo é uma pauta cristã?

Tema tem sido tratado nos debates entre os candidatos à Presidência da República
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A candidata à Presidência Simone Tebet (MDB) durante o debate no SBT | Foto: Divulgação
A candidata à Presidência Simone Tebet (MDB) durante o debate no SBT | Foto: Divulgação

Durante o debate presidencial no sábado 24, a candidata à Presidência Simone Tebet (MDB) disse que o feminismo deveria ser uma pauta cristã. A fala da senadora foi em resposta ao questionamento do Padre Kelmon (PTB), candidato à Presidência, que relembrou que Simone se define como feminista. Desse modo, o padre afirmou que dentro da “agenda” feminista está o apoio incondicional ao aborto e perguntou se a senadora seria favorável a essa questão.

“O meu conceito de feminista é muito diferente do seu”, explicou Simone. “Para mim, ser feminista é defender os direitos das mulheres. Sou católica e lamento a sua visão seletiva. Sou contra o aborto, e isso não me faz menos feminista. O feminismo no Brasil deveria ser entendido não como uma pauta de esquerda, mas como uma pauta cristã.”

Em seguida, o padre reafirmou à candidata que só existe “um tipo de feminismo”, que seria oposição ao cristianismo. No momento do embate entre os dois, o diálogo até arrancou algumas risadas dos telespectadores. Contudo, a fala de ambos reascendeu um debate nas redes sociais que já era um pouco antigo: afinal, existe feminista cristã? Por que feminismo e cristianismo não combinam?

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A despeito da discussão durante o debate, fica a pergunta: afinal, o feminismo é uma pauta cristã? A pedagoga Cristiane Corrêa defende há mais de dez anos a linha de estudo de que não existe feminista cristã. Para ela, a separação entre o feminismo e o cristianismo está, justamente, nos princípios e nos valores.

“O cristianismo é uma religião católica no sentido de ser universal”, explicou. “Todos os cristãos compartilham de princípios fundamentais da fé. Por exemplo, ninguém pode dizer que é cristão se não crer na ressurreição de Cristo. Isso é base da nossa fé.”

O feminismo interpela, em sua base, as representações masculinas que existem no cristianismo, segundo Cristiane. “De forma resumida, essa representação é a encarnação de um Deus na figura de um homem”, observou. “O fato de uma divindade ter encarnado no sexo masculino e ser tratada como um Messias para todo o cristianismo é uma afronta àquilo que o feminismo defende.”

‘Todo feminismo é radical’

A premissa defendida pelo movimento, conforme a especialista, é que o sexo feminino precisa sempre aparecer no mesmo nível do sexo masculino. “Elas rejeitam a encarnação de Cristo, pois todos esses símbolos são uma construção patriarcal religiosa”, disse Cristiane. “Assim, Cristo não passa de uma representação patriarcal de símbolos religiosos.”

A pedagoga ainda explica que, popularmente, as pessoas identificam que não é possível ser feminista e cristã pela pauta do aborto, ainda que existam grupos religiosos que sejam favoráveis a essa pauta. “Por isso, chamo atenção para esse problema basilar, pois o feminismo tem o propósito de se rebelar contra todos os símbolos que o cristianismo representa”, disse. “Para elas, Cristo não é uma verdade. É uma construção de uma sociedade patriarcal.”

No livro A Criação do Patriarcado, a autora Gerda Lerner defende a ideia de que o surgimento do monoteísmo (religião de um Deus) hebraico ataca aos cultos difundidos a várias “deusas da fertilidade”. “Ao escrever o Gênesis [1° livro da Bíblia], a criação e a procriação são atribuídas ao Deus onipotente, cujos epitáfios ‘Senhor’ e ‘Rei’ o estabelecem como um deus masculino”, escreveu Gerda.

Feminismo ou feminismos?

Ainda no debate presidencial, Simone enfatiza que é adepta do próprio feminismo. Nesse sentido, a senadora diz ser feminista e contra o aborto. No entanto, para encontrar a espinha vertebral do movimento é necessário ir mais a fundo e buscar as autoras feministas que projetaram grande parte do feminismo contemporâneo.

No livro O Feminismo É para Todo Mundo, a escritora norte-americana bell hooks, feminista da segunda onda, defende: “Vejamos a questão do aborto. Se o feminismo é um movimento para acabar com a opressão sexista, e privar as mulheres de seus direitos reprodutivos [aborto] é uma forma de opressão sexista, então uma pessoa não pode ser contra o direito de escolha [para abortar] e ser feminista”.

bell hooks moldou boa parte do que se entende como feminismo atualmente nas universidades, e ela mesma estabelece um padrão mínimo para se considerar parte do movimento. Mais uma vez, em suas palavras, “Uma mulher não pode ser antiaborto e ser defensora do feminismo“, redigiu.

Ao levar em consideração as análises de bell, atitudes com as de Simone poderiam ser consideradas prejudiciais ao próprio movimento. “As políticas feministas estão perdendo a força porque o movimento feminista perdeu suas definições claras. Nós temos essas definições“, diz a autora.

Longe do país de bell hooks, nomes tradicionais do feminismo brasileiro, como a professora de filosofia Marcia Tiburi, declaram voto no petista. Débora Diniz, feminista e professora de Direito, também é eleitora de Lula.

“Esses são nomes fortes do feminismo no Brasil que entenderam que o Lula concorda com as pautas feministas muito mais que a Simone”, explicou Cristiane, especialista em feminismo. “A senadora está usando o feminismo como propaganda política, pois, popularmente, as pessoas aprenderam que o feminismo é o sinônimo de mulher. O que é uma falácia.”

Conforme a especialista, as pautas invioláveis do movimento feminista seriam: a legalização do aborto (a mulher deve ter o direito total sobre o próprio corpo), subversão dos símbolos (por exemplo, aos da igreja que não colocariam a mulher em igualdade de posições de poder), revolução sexual, ideologia de gênero, tirar o poder da família tradicional, e muitas outras. “O carro-chefe é o aborto”, explicou. “Depois, vêm as pautas que acompanham o feminismo.”

 

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2 comentários Ver comentários

  1. Em se tratando do feminismo original de até a década de 1950, talvez pudesse ser cristão ou poder ter uma versão cristã, mas os feminismos maioritários avacalhados da década de 1960 para frente não tem nada de cristãos, mas nesse caso também não tem nada de nada de bom, não tem nem decência, nem humanidade, nem humanitarismo…..E o pior é que em países como os islâmicos seriam necessários movimentos como os feminismos originais, mas os pseudo-feminismos avacalhados atuais até mesmo apoiam na sua maioria os países islâmicos! Boa mostra de como são uma avacalhação total, um imbencilidade total.

  2. A bíblia é clara e enfática em declarar a submissão da mulher em relação ao homem, e por isso, o movimento que torna o homem um objeto a ser odiado pelas mulheres, jamais será uma pauta cristã.

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