publicidade
Política

Entre a verdade e a militância: a crise do jornalismo

Esculpir o fato é retirar dele a gordura da manipulação, o ataque gratuito e a militância que se fantasia de notícia

O jornalismo voltado à nação não sobreviverá em uma companhia que emprega jornalistas, mas, em essência, é uma agência de lobby | Foto: Shutterstock

Jeferson Scheibler*

No cenário político atual, onde a “imparcialidade” virou uma máscara para interesses ocultos, é preciso coragem para admitir de onde se fala e, acima de tudo, o que se pretende esculpir.

Receba nossas atualizações

Em uma formação recente, o jornalista Duda Teixeira resgatou uma metáfora que redefine o ato de escrever: Michelangelo diante do mármore. Para o mestre, o “Davi” já habitava o bloco; o trabalho era apenas remover o excesso para revelá-lo.

No jornalismo, a lógica deveria ser a mesma. Esculpir o fato é retirar dele a gordura da manipulação, o ataque gratuito e a militância que se fantasia de notícia. Quando retiramos esses excessos, o que resta é a verdade nua. E, como alguém envolvido na vida partidária, reconheço: essa verdade muitas vezes fala mais alto do que nós, autores filiados, gostaríamos que o público ouvisse. Mas é esse o preço da escultura.

O que vemos hoje na nossa cidade, porém, é o oposto. Em vez de escultura, recebemos entulho. Somos bombardeados por blocos brutos de informação que, sob o selo de uma “imparcialidade” de fachada, empilham camadas de viés político para soterrar a realidade. Se a arte é o que se retira, o que sobra de uma notícia quando o autor esconde quem é e para quem trabalha?

O grande truque dessas páginas é usar a palavra imparcialidade como escudo, e não como compromisso. No jornalismo sério, a isenção absoluta é um mito: todos carregamos bagagens e vivências. Por isso a transparência não é virtude, é obrigação. Assinar um texto com nome, histórico e, até mesmo, filiação partidária não é gesto de humildade. É o mínimo que se deve a quem lê. Ao contrário das páginas anônimas, essa postura não foge do ceticismo do leitor. O convida.

Quando uma página se recusa a dizer quem segura o cinzel, ela desarma o cidadão e retira dele sua ferramenta mais básica de defesa: o filtro. Digo isso de forma clara: se você sabe que eu tenho um lado, você tem o direito de ler minhas críticas com uma dose saudável de ceticismo. Afinal, sem essa clareza, o autor não está “esculpindo a verdade”, mas apenas tentando moldar a opinião pública para um fim eleitoral bem específico.

Criticar qualquer gestão pública não é apenas um direito. É o dever de qualquer imprensa livre e de qualquer cidadão comprometido com o bem comum. Mas há um abismo entre a crítica que aponta o erro para que seja corrigido e a munição que aponta o erro para que o adversário seja destruído. Sem rosto e sem vínculos declarados, a informação vira um cavalo de Tróia: veste a roupa do interesse público, mas carrega uma agenda que o leitor jamais consentiu em consumir.

O sucesso desses perfis revela um sintoma amargo: nossa sede por ataques diretos muitas vezes atropela nossa paciência para a verificação. Aceitamos o “mármore bruto” porque ele confirma nossos preconceitos. Mas o preço é alto. Ao aceitarmos militantes disfarçados de cronistas, aceitamos que a verdade seja negociada por conveniências partidárias. O “Davi” que sobra no final não é a realidade dos fatos, mas uma caricatura distorcida, esculpida para ganhar eleições e não para construir uma cidade melhor.

Leia também: “A fraude dos justiceiros”, artigo publicado na Edição 321 da Revista Oeste


*Jeferson Scheibler é acadêmico de engenharia de software, embaixador da ICSC e local lead do Nasa Space Apps. Jeferson é fellow do Instituto Amplifica

Confira ainda

Leia mais sobre:

3 comentários
  1. Manoel
    Manoel

    No dia que o jornalismo deixou de ser neutro, para mim ele acabou – ainda bem temos a internet – ha pelo menos 20 anos nao assisto mais tv

    1. Reynaldo Mendes de Carvalho Júnior
      Reynaldo Mendes de Carvalho Júnior

      ⁸acho que o articuliste “veste” a escrita em floreado pomposo enquanto a realidade pede clareza e objetividade

Canal Oeste
Nossos colunistas
Foto do autor J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
Foto do autor Augusto Nunes
Augusto Nunes
Foto do autor Ana Paula Henkel
Ana Paula Henkel
Foto do autor Guilherme Fiuza
Guilherme Fiuza
Foto do autor Rodrigo Constantino
Rodrigo Constantino
Foto do autor Alexandre Garcia
Alexandre Garcia
Foto do autor Antonio Cabrera
Antonio Cabrera
Foto do autor Eugênio Esber
Eugênio Esber
Foto do autor Evaristo de Miranda
Evaristo de Miranda
Foto do autor Flávio Gordon
Flávio Gordon
Foto do autor Roberto Motta
Roberto Motta
Foto do autor Miriam Sanger
Miriam Sanger
Foto do autor Adalberto Piotto
Adalberto Piotto
Foto do autor Frank Furedi, da Spiked
Frank Furedi, da Spiked
Foto do autor Jeffrey A. Tucker.
Jeffrey A. Tucker.
Foto do autor Theodore Dalrymple
Theodore Dalrymple
Foto do autor Flavio Morgenstern
Flavio Morgenstern
Foto do autor Ubiratan Jorge Iorio
Ubiratan Jorge Iorio
publicidade
publicidade