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Às vezes nem é TDHA, é só falta de vergonha na cara

A procrastinação, convenhamos, raramente é sobre preguiça crônica

Illustração: Revista Oeste/Shutterstock

Existe uma força mística no universo que torna a organização de uma gaveta de meias a tarefa mais urgente do mundo justamente quando temos um prazo crucial batendo à porta. Percebam como distrações se fazem urgentes quando há algo que, de fato, precisa ser realizado. É fascinante — e ligeiramente trágico — como a nossa mente se torna brilhantemente criativa na arte de evitar o que realmente precisa ser feito. “É preciso escrever a coluna da semana, Pedro”, acusa a minha consciência. Logo, checar o óleo do carro ou ver se o papel toalha acabou assume uma urgência indescritível.

Se você está lendo isto agora para adiar alguma outra coisa, bem-vindo ao clube. Mas vamos conversar sério, e sem rodeios.

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A procrastinação, convenhamos, raramente é sobre preguiça crônica. Ela é um mecanismo sofisticado de autodefesa contra o monstro do perfeccionismo ou o medo de não entregar algo perfeito. Pelo menos para mim é. Notem, a gente olha para o tamanho do desafio e pensa: “Tá, ok. Melhor tomar um café antes”. E nesse café, abrimos uma aba no navegador, que puxa um artigo aleatório, que nos leva a um vídeo sobre a arquitetura medieval… e, quando piscamos, o dia útil se transformou em migalhas sob os cortes inevitáveis de um podcast qualquer.

O grande problema de empurrar a vida com a barriga é que o peso do que não foi feito não desaparece; ele se acumula. A verdade é que a gente não descansa de verdade quando está procrastinando. Aquele episódio da série ou aquela rolagem infinita pelas redes sociais perdem o sabor, porque há uma voz no fundo da mente sussurrando, em looping, a lista de pendências. É um descanso falso, cobrado com juros altos de culpa e ansiedade. A ansiedade… E, cá entre nós — os procrastinadores —, às vezes nem é TDHA, não; é a pura falta de vergonha na cara mesmo, falta de brio e autocontrole. Coisas antigas e antiquadas que, por não serem inclusivas, não aparecem no DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), mas cutucam nossas consciências com unhas grandes. É tão real quanto quaisquer transtornos.

O “eu do futuro” não é um super-herói. Ele não vai ter mais energia, mais tempo ou superpoderes mágicos. Ele vai ser exatamente a mesma pessoa, só que mais cansada e com metade do prazo. Parar de transferir a responsabilidade para esse clone imaginário é o primeiro passo para retomar as rédeas. Notar que sua razão pode ser mais forte do que as suas justificativas para procrastinar, é o passo seguinte.

Lutar contra a procrastinação não é sobre se transformar em uma máquina hiperprodutiva, fria e robótica. É sobre fazer um pacto de paz com o próprio tempo. É entender que a parte mais difícil de qualquer tarefa são, invariavelmente, os primeiros cinco minutos. Depois que a inércia é quebrada e o movimento começa, o fantasma que parecia gigante diminui de tamanho. É no passo que a cura se dá.

Então, que comecemos pelo que está ao nosso alcance agora. Não na próxima segunda-feira, não no início do mês que vem, e certamente não “depois de checar as mensagens só mais uma vez”. O agora pode ser desconfortável e exigir esforço, mas ele tem uma vantagem imbatível sobre o amanhã que sequer existe. Que tal finalmente cortar a grama para a esposa, começar a escrever aquele romance há tanto adiado, levar o filho para brincar no parquinho ou parar de comer feito um porco que saiu do jejum. Não, não precisa comentar esta crônica, só vá.

Agora!

Leia também: “A toga e a lama”, artigo publicado na Edição 323 da Revista Oeste

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