publicidade
Política

Governo do RJ suspende compra de Black Hawk, depois de suspeitas sobre licitação

Contrato de mais de R$ 70 milhões previa aquisição de um helicóptero para operações da PM em favelas

Com cerca de quatro toneladas, o helicóptero exige áreas maiores para pouso e manobra | Foto: Gertrud Zach/Exército dos EUA
Com cerca de quatro toneladas, o helicóptero exige áreas maiores para pouso e manobra | Foto: Gertrud Zach/Exército dos EUA

O governo em exercício do Rio de Janeiro suspendeu a compra de um helicóptero militar Black Hawk avaliado em mais de R$ 70 milhões. Isso ocorreu depois de a alta cúpula do Palácio Guanabara identificar suspeitas sobre a procedência da aeronave, possíveis vínculos entre empresas que participaram da licitação e dúvidas sobre a utilidade operacional do equipamento em áreas urbanas densas do Estado.

A revisão do contrato entrou na lista de auditorias determinadas pelo governador interino, o desembargador Ricardo Couto, que assumiu o comando do Palácio Guanabara em meio a uma reavaliação de contratos firmados na gestão de Cláudio Castro (PL).

Receba nossas atualizações

O modelo escolhido para a Polícia Militar (PM) era um Sikorsky UH-60L Black Hawk, aeronave de uso militar empregada pelas Forças Armadas dos Estados Unidos e por corporações de segurança de diversos países.

Contrato milionário

O contrato previa pagamento de cerca de US$ 12,5 milhões à empresa Blue Air Táxi Aéreo. A negociação passou a ser questionada internamente depois de integrantes do governo concluírem que o valor estava muito abaixo do praticado em compras recentes feitas pela Aeronáutica. Em 2025, a Força Aérea Brasileira adquiriu unidades do mesmo modelo por mais de US$ 20 milhões cada. A diferença de preço levantou a hipótese de que a aeronave negociada para o Rio de Janeiro pudesse ser usada ou conter peças reaproveitadas.

O processo licitatório começou em 2024, quando a PM abriu concorrência internacional para comprar uma aeronave blindada destinada ao Grupamento Aeromóvel (GAM). O argumento da corporação era o aumento de ataques a helicópteros durante operações em comunidades.

Em 2025, a Força Aérea Brasileira adquiriu unidades do mesmo modelo por mais de US$ 20 milhões cada | Foto: Divulgação/Oeste
Em 2025, a Força Aérea Brasileira adquiriu unidades do mesmo modelo por mais de US$ 20 milhões cada | Foto: Divulgação/Oeste

De acordo com documentos da licitação, a PM registrou crescimento de 66,6% nas avarias provocadas por tiros contra aeronaves do grupamento entre 2022 e 2025. Todas as ocorrências atingiram o helicóptero blindado Huey II de matrícula PR-COE, conhecido como “Caveirão do Ar”.

A corporação sustentou no edital que criminosos passaram a mirar os helicópteros para tentar derrubar as aeronaves durante operações policiais. A equipe técnica da licitação analisou 15 modelos de helicópteros blindados disponíveis no mercado. Apenas um deles era o Black Hawk.

O que levou o governo interino a suspender o processo

A concorrência também passou a ser alvo de questionamentos de empresas do setor aeronáutico. Em audiência pública realizada em agosto de 2025, participantes levantaram suspeitas de que as exigências do edital poderiam restringir a concorrência e favorecer um modelo específico.

A discussão ganhou peso porque a própria Aeronáutica havia dispensado licitação para comprar Black Hawks, sob o argumento de que apenas uma fornecedora norte-americana teria capacidade técnica para vender o equipamento.

Durante a audiência organizada pela PM, um dos participantes foi Fernando Carlos da Silva Telles, conhecido no setor de táxi aéreo como “Tico-Tico”. Ele apareceu como representante da empresa Flyone. Meses depois, a Flyone deixou de apresentar proposta final, enquanto a Blue Air surgiu na fase decisiva da concorrência e acabou declarada vencedora.

A relação entre empresas envolvidas no processo passou a chamar atenção, depois de documentos da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) mostrarem que Daniel de Sousa Freitas da Silva Telles, sobrinho de Fernando Telles, ocupa o cargo de diretor de operações da Blue Air. Daniel trabalhou anteriormente na Flyone entre 2013 e 2016. Em 2019, ingressou na Polícia Rodoviária Federal e passou a atuar como piloto em 2021. Desde 2024, está licenciado da corporação para tratar de interesses particulares. Em nota, a PRF confirmou que o policial possui habilitação como comandante de helicópteros e está afastado desde o ano passado.

Outro personagem citado na investigação é Renato Carriço dos Santos, representante da Blue Air. Ele apareceu ao lado de Cláudio Castro e do secretário da Polícia Militar, coronel Marcelo Menezes, no anúncio oficial da compra do Black Hawk, feito em janeiro deste ano. Carriço trabalhou durante mais de duas décadas na empresa Ancoratek Manutenção de Aeronaves, companhia que pertenceu a Fernando Telles. A Ancoratek foi investigada pela Marinha depois de um acidente com um helicóptero na Base Naval de São Pedro da Aldeia, em 2023. O nome de Fernando Telles também aparece ligado a investigações conduzidas pelo Ministério Público Federal (MPF) no Acre. O MPF apura acidentes envolvendo aeronaves da Flyone em contratos de transporte de alimentos e medicamentos destinados a comunidades indígenas. A Ambipar comprou a Flyone em meio ao processo licitatório do Rio e demitiu Fernando Telles em novembro de 2025.

A relação entre empresas envolvidas no processo passou a chamar atenção da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac)  | Foto: Divulgação/Oeste
A relação entre empresas envolvidas no processo passou a chamar atenção da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) | Foto: Divulgação/Oeste

As possíveis falhas do Black Hawk

Além das suspeitas envolvendo empresas participantes da concorrência, integrantes do governo interino passaram a questionar a utilidade prática do Black Hawk em operações urbanas.

Com cerca de quatro toneladas, o helicóptero exige áreas maiores para pouso e manobra. Técnicos consultados pela gestão estadual apontaram preocupação com o deslocamento de ar provocado pelas hélices em voos rasantes sobre comunidades. O efeito, conhecido no setor aeronáutico como “rotor wash”, pode deslocar telhados e estruturas leves em regiões densamente povoadas. O Black Hawk ultrapassa os 350 km/h.

STF estabeleceu limites para operações policiais em comunidades do Rio de Janeiro | Foto: Divulgação/Oeste
STF estabeleceu limites para operações policiais em comunidades do Rio de Janeiro | Foto: Divulgação/Oeste

Há ainda outro fator jurídico considerado pelo governo: as restrições impostas pelo Supremo Tribunal Federal no âmbito da ADPF das Favelas, ação que estabeleceu limites para operações policiais em comunidades do Rio de Janeiro e criou protocolos específicos para uso de aeronaves.

Apesar do anúncio oficial da compra e do envio de policiais militares ao Alabama, nos Estados Unidos, para treinamento operacional, o contrato segue paralisado. A capacitação previa gasto de mais de US$ 1 milhão.

Em nota, o governo estadual afirmou que a compra do helicóptero Sikorsky UH-60L Black Hawk está sob análise técnica e jurídica e permanecerá suspensa enquanto durar a auditoria conduzida pela gestão interina.

+ Entenda notícias de Política em Oeste

Leia mais sobre:

0 comentários
Nenhum comentário para este artigo, seja o primeiro.
Canal Oeste
Nossos colunistas
J. R. Guzzo (diretor perpétuo)
Augusto Nunes
Ana Paula Henkel
Guilherme Fiuza
Rodrigo Constantino
Alexandre Garcia
Antonio Cabrera
Eugênio Esber
Eugênio Esber
Evaristo de Miranda
Flávio Gordon
Roberto Motta
Miriam Sanger
Adalberto Piotto
Frank Furedi, da Spiked
Jeffrey A. Tucker.
Theodore Dalrymple
Flavio Morgenstern
Ubiratan Jorge Iorio
publicidade
Background
NEWSLETTER
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
Background
TELEGRAM
Cadastre-se e receba nossas newsletter com matérias exclusivas toda semana
publicidade
Background
Assine a Revista Oeste
Seja um dos brasileiros que acreditam que o bom jornalismo transforma um país.