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Política

Itamaraty: chancelaria em miniatura

'A diplomacia brasileira, que já foi referência, tornou-se motivo de vergonha'

Fachada do Itamaraty; Ministério das Relações Exteriores expressa preocupação com a situação na Síria
Facahada do Palácio Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília (DF); o prédio foi idealizado pelo arquiteto Oscar Niemeyer | Foto: Adriel Marcos/Wikimedia Commons

A etimologia da palavra Itamaraty remete ao tupi: “rio das pedras pequenas”. Nos dias atuais, contudo, não são as pedras que se apequenaram. O que encolheu foi a própria instituição, que, antes sinônimo de altivez e sofisticação, hoje se arrasta como chancelaria menor, comprometendo o relacionamento do Brasil com a comunidade internacional no longo prazo.

O Itamaraty abandonou alianças históricas com democracias e parceiros culturais próximos para cortejar regimes proto-autoritários ou ditatoriais — China, Venezuela, Irã. O resultado? Uma queda brutal na credibilidade e a renúncia a qualquer protagonismo sério no cenário global.

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Nossa diplomacia apequena-se ainda mais ao apoiar nações belicistas como a Rússia em sua agressão à Ucrânia, ao defender terroristas como Hamas e Hezbollah e ao acusar Israel de genocídio em uma guerra que só existe porque Israel foi atacado primeiro e de forma vil, com assassinatos, sequestros e torturas.

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O nanismo diplomático também se expressa no asilo oferecido à ex-primeira-dama do Peru Nadine Heredia e na defesa explícita da ex-presidente argentina, Cristina Kirchner, condenada por corrupção. Para o Itamaraty, a soberania virou princípio de conveniência.

A cena beira a farsa quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chama o líder da maior potência mundial de “nazista” e, há poucos dias, a delegação brasileira abandona o plenário da Organização das Nações Unidas (ONU) durante o discurso de Benjamin Netanyahu. É a política externa transformada em birra ideológica.

Um espectador sem brilho no comando do Itamaraty

Em todos esses episódios, o ministro Mauro Vieira, diplomata de carreira, porta-se como um espectador sem brilho. Ex-embaixador nos Estados Unidos, na Argentina e na ONU, deveria ser capaz de construir pontes. Em vez disso, quando age, é como um burocrata incompetente, ao ser superado por um deputado federal e uns poucos jornalistas exilados, que tiveram mais influência no governo Trump do que todo o corpo diplomático brasileiro.

“O nanismo diplomático de Lula é contagioso, pois contaminou até um diplomata tarimbado” (André Burger)

O episódio dos asilados na Embaixada da Argentina em Caracas — resgatados por forças dos EUA sob o nariz do Brasil — foi a consagração da incompetência. Um vexame que confirma o diagnóstico de que o nanismo diplomático de Lula é contagioso, pois contaminou até um diplomata tarimbado.

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante encontro com Cristina Kirchner. Buenos Aires, Argentina
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante encontro com Cristina Kirchner. Buenos Aires, Argentina | Foto: Ricardo Stuckert/PR

O que já foi uma instituição admirada, capaz de produzir intelectuais como Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Raul Bopp e Vinícius de Moraes, hoje parece reduzido a repartição de funcionários interessados em contracheques gordos e no acúmulo de regalias, exatamente como descreve Javier Milei ao falar da “casta”.

É verdade que o desastre não começou agora. O fundamentalismo ideológico de Ernesto Araújo, no governo Bolsonaro, e a militância partidária de Celso Amorim, desde o primeiro governo Lula, já vinham erodindo a credibilidade do Itamaraty. Entretanto, o governo atual conseguiu dar sequência e escala à degradação.

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Motivo de vergonha

O resultado é simples e triste: a diplomacia brasileira, que já foi referência, tornou-se motivo de vergonha. Vergonha para os cidadãos, vergonha para a história — e certamente uma bofetada na memória do Barão do Rio Branco, patrono da nossa política externa.

Se resta algum consolo, talvez seja este: apesar de sua incompetência crônica como chancelaria, o Itamaraty já prestou serviço inestimável à cultura nacional. Foi dele que saíram alguns de nossos maiores literatos e poetas. No fim das contas, é possível que o Itamaraty tenha sido mais relevante para a literatura brasileira do que para a diplomacia.

Leia também: “Pigmeu diplomático”, artigo de Augusto Nunes e Uiliam Grizafis publicado na Edição 285 da Revista Oeste


Por André Burger. Economista e conselheiro do Instituto Liberal.

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