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A América do Sul enfrenta uma reconfiguração política significativa, com uma crescente polarização ideológica e a ascensão de forças de direita em vários países, como Argentina, Chile, Colômbia e Peru, em resposta a crises econômicas e sociais. A Argentina elegeu Javier Milei, que implementou um ajuste fiscal rigoroso, enquanto o Chile viu a ascensão de José Antonio Kast, focado em segurança e reformas econômicas.
Marcelo Tostes*
A América do Sul vive, neste momento, uma das suas mais intensas reconfigurações políticas desde o início do ciclo de redemocratização. Vemos um continente cada vez mais fragmentado ideologicamente, em que a antiga alternância entre centro-esquerda e centro-direita dá lugar a uma polarização mais dura, marcada pela ascensão de forças de direita em diversos países. Esse movimento não ocorre isoladamente: ele se conecta a uma tendência regional mais ampla, em que o eleitorado demonstra crescente insatisfação com inflação, violência urbana, lentidão econômica e desgaste das instituições tradicionais.
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A Argentina talvez seja hoje o exemplo mais emblemático. Os governos kirchneristas de esquerda, liderados por Cristina Kirchner e posteriormente influentes na gestão de Alberto Fernández, foram marcados pela ampliação dos gastos públicos, subsídios, controles cambiais e sucessivos déficits fiscais. Essas políticas contribuíram para o agravamento dos desequilíbrios econômicos, levando o país a conviver com inflação superior a 200% ao ano, aumento da pobreza, perda do poder de compra da população e crescente desconfiança dos investidores. Foi nesse cenário de forte deterioração econômica que o eleitorado argentino optou por uma guinada liberal, elegendo Javier Milei. A aposta deu certo: ele promoveu um duro ajuste fiscal, reduziu o tamanho do Estado e recuperou a estabilidade econômica com maestria.
No Chile, a chegada ao poder de um governo de esquerda liderado por Gabriel Boric coincidiu com um período de desaceleração econômica, aumento da percepção de insegurança e deterioração das contas públicas em comparação com o histórico de forte disciplina fiscal do país. Hoje ele está sob o governo do presidente José Antonio Kast, que representa uma guinada à direita com uma agenda de forte ênfase em segurança pública, controle da imigração e reformas econômicas liberais, com propostas de redução do Estado, corte de gastos e estímulo ao investimento privado.
O caso da Colômbia também é bastante significativo. Após a experiência histórica do governo de Gustavo Petro, primeiro presidente de esquerda do país, Abelardo de la Espriella foi eleito neste mês e traz consigo uma agenda mais dura em segurança pública, Estado mínimo e alinhamento mais próximo aos Estados Unidos. Abelardo é um advogado, empresário e influenciador político colombiano conhecido por seu discurso fortemente conservador e combativo no debate público. Ele ganhou notoriedade como jurista atuando em casos de grande visibilidade na Colômbia e por sua presença constante na mídia, onde defende posições de direita, com ênfase em segurança pública, fortalecimento das Forças Armadas, crítica a governos de esquerda e oposição a movimentos insurgentes.
O Peru também elegeu um candidato de direita. A conservadora Keiko Fujimori, filha de Alberto Fujimori que governou o Peru de 1990 a 2000, é a primeira mulher eleita presidente do país através do voto direto. Ela disputou as três últimas eleições presidenciais e foi eleita agora no pleito de 2026.
Nesse contexto, o Brasil surge como uma “ilha de esquerda” em meio a um mapa mais conservador. Essa assimetria ajuda a explicar parte das tensões diplomáticas e estratégicas recentes no continente. A mudança de orientação política em países-chave altera não apenas relações bilaterais, mas também o funcionamento de blocos regionais e iniciativas de cooperação. A integração sul-americana, historicamente frágil e intermitente, torna-se ainda mais complexa quando governos de perfis ideológicos opostos precisam negociar pautas comuns em temas como meio ambiente, segurança de fronteiras, comércio e combate ao crime organizado.
O avanço de lideranças de direita também não pode ser interpretado apenas como um fenômeno ideológico abstrato. Em grande medida, ele reflete respostas diretas a problemas concretos vividos pela população. Em diversos países da região, a percepção de insegurança, a desconfiança em relação ao Estado e o cansaço com promessas econômicas não cumpridas criam um ambiente fértil para discursos de ruptura.
O Brasil encontra-se diante de uma bifurcação decisiva. De um lado, a continuidade do projeto de esquerda, cujo histórico na região tem demonstrado resultados críticos, podendo ser associado a um cenário de instabilidade econômica e social; de outro, as candidaturas de direita, que, independentemente da sigla, convergem em torno de teses fundamentais como o rigor na segurança pública, a previsibilidade econômica e a responsabilidade fiscal.
Ademais, cabe notar uma estratégia política peculiar adotada pela candidatura da esquerda. O protagonista do atual governo centraliza o poder de tal forma que neutraliza potenciais sucessores ou alternativas dentro do seu próprio espectro ideológico. Ao integrar ao seu governo figuras que seriam nomes naturais para a disputa presidencial como Guilherme Boulos, Marina Silva, Simone Tebet e Geraldo Alckmin, o atual presidente suprime a renovação de lideranças e inviabiliza o surgimento de qualquer alternativa viável à sua hegemonia dentro da esquerda.
Leia também: “A onda conservadora”, artigo publicado na Edição 328 da Revista Oeste
*Marcelo Tostes é advogado, conselheiro federal da Ordem dos Advogados do Brasil e CEO do Marcelo Tostes Advogados. Atua há décadas na advocacia empresarial, com experiência em temas relacionados ao direito corporativo, governança e resolução de conflitos. Também participa de debates e iniciativas voltadas ao aprimoramento do ambiente jurídico e empresarial no país. É reconhecido por sua atuação institucional junto à advocacia brasileira e ao setor produtivo
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