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Política

Medicações citadas por Bolsonaro podem causar alucinações e confusão mental

Interação entre pregabalina e sertralina ampliam risco de desorientação, delírios e alterações de humor

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O ex-presidente Jair Bolsonaro foi levado para a Superintendência da Polícia Federal em Brasília, depois de ter a prisão preventiva decretada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

As substâncias mencionadas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em sua audiência de custódia que teriam causado “paranoia” e “alucinação” possuem, em suas bulas oficiais, registro de eventos neuropsiquiátricos capazes de comprometer a consciência, a orientação e a percepção do paciente.

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As medicações citadas por Bolsonaro são pregabalina e sertralina. Os efeitos colaterais dos fármacos podem ser ampliados, conforme boletim médico, se foram administrados em associação com outros depressores ou moduladores do sistema nervoso central, como gabapentina e clorpromazina, que estavam em uso contínuo pelo ex-presidente.

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O ex-presidente Jair Bolsonaro foi encaminhado na manhã deste sábado, 22, à sede da Polícia Federal em Brasília; a mando do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, ele passa a cumprir prisão preventiva | Foto: Reprodução/Site oficial do Partido Liberal

De acordo com o boletim médico de Cláudio Birolini e Leandro Echenique, Bolsonaro apresentou “quadro de confusão mental e alucinações”, possivelmente induzidos pela pregabalina, prescrita sem o conhecimento da equipe que o acompanhava. 

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O documento ressalta que o fármaco mantém “importante interação com os medicamentos utilizados para crises de soluço (clorpromazina e gabapentina)”, podendo causar “confusão mental, desorientação, coordenação anormal, sedação, transtorno de equilíbrio, alucinações e transtornos cognitivos”.

Michelle Bolsonaro visita ex-presidente, preso em Brasília
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, ao chegar à Superintendência da Polícia Federal para visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está preso de forma preventiva a mando do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal — Brasília (DF), 23/11/2025 | Foto: Wilton Junior/Estadão Conteúdo

Pregabalina: potencial para distorções perceptivas e prejuízo cognitivo

A bula da pregabalina registra efeitos neuropsiquiátricos que incluem alucinações, mudanças de humor, agitação psicomotora, desorientação, prejuízo psíquico e perda de consciência, classificados como reações incomuns (0,1% a 1%). Os efeitos são agravados em uso concomitante com outros depressores do sistema nervoso central.

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O mecanismo de ação do medicamento — modulando a liberação de neurotransmissores excitatórios — explica a possibilidade de impacto direto na capacidade cognitiva e perceptiva, com risco de comportamento desorganizado. 

Bolsonaro disse aos agentes que queimou o dispositivo com ferro de solda | Foto: Divulgação/PF
Bolsonaro disse aos agentes que queimou o equipamento com ferro de solda | Foto: Divulgação/PF

As principais reações adversas são:

Muito comuns (>10%)

  • Dor de cabeça.

Comuns (1%–10%)

  • Euforia, confusão, irritabilidade, depressão, desorientação.
  • Insônia, redução da libido, ataxia, tremores, amnésia, déficit de atenção.
  • Sedação, letargia, tontura, visão turva, diplopia.
  • Náusea, vômito, constipação, diarreia.
  • Espasmos musculares, artralgia, dor lombar.
  • Marcha anormal, sensação de embriaguez, fadiga, aumento de peso.

Incomuns (0,1%–1%) 

  • Alucinações, mudanças de humor, agitação psicomotora, despersonalização, agressividade, perda de consciência.
  • Sonhos anormais, aumento/redução da libido, mioclonia.
  • Transtornos cognitivos e de fala, nistagmo, alteração visual.
  • Taquicardia, hipotensão, sudorese, incontinência urinária.

Raras (0,01%–0,1%)

  • Crise de pânico, estupor, hipocinesia, midríase.
  • Pancreatite, insuficiência renal, síndrome de Stevens-Johnson.
  • Ideação ou comportamento suicida.

Sertralina: risco de episódios de euforia, confusão e alucinações

A sertralina, antidepressivo da classe dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina, também apresenta em bula efeitos como alucinação, confusão mental, agressividade, euforia e episódios de hipomania ou mania, além do risco de síndrome serotoninérgica, quadro caracterizado por agitação, delírios e alteração grave do estado mental.

Embora não tenha sido apontada como causa principal, sua associação com pregabalina, gabapentina e clorpromazina intensifica a instabilidade neuroquímica e aumenta a probabilidade de sintomas agudos.

As principais reações adversas são:

Muito comuns (>10%)

  • Insônia, tontura, cefaleia, diarreia, náuseas.

Comuns (1%–10%)

  • Ansiedade, agitação, pesadelos, bruxismo, diminuição da libido.
  • Tremores, sonolência, zumbido, palpitações.
  • Dor abdominal, boca seca, alteração de peso, hiperidrose.
  • Disfunções sexuais.

Incomuns (0,1%–1%)

  • Alucinação, agressividade, confusão mental, euforia, síncope.
  • Distúrbios extrapiramidais, movimentos involuntários.
  • Midríase, taquicardia, hemorragias, elevação de enzimas hepáticas.
  • Distúrbios da marcha e edema periférico.

Raras (0,01%–0,1%)

  • Distúrbio psicótico, convulsões, coma.
  • Síndrome serotoninérgica, vasoconstrição cerebral reversível.
  • Pancreatite, reações cutâneas graves.
Ex-presidente Jair Bolsonaro foi preso neste sábado, 22 | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
Ex-presidente Jair Bolsonaro foi preso neste sábado, 22 | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Bolsonaro admite “alucinação”

Durante o depoimento em audiência de custódia, realizado por videoconferência na tarde deste domingo, 23, Bolsonaro relatou à juíza auxiliar Luciana Sorrentino que decidiu tentar abrir a tornozeleira porque acreditou estar sendo monitorado por uma “escuta”. Segundo ele, a sensação de perseguição ocorreu devido à combinação de dois medicamentos receitados por médicos diferentes: pregabalina e sertralina.

+ Bia Kicis: ‘Bolsonaro achou que havia uma escuta naquela tornozeleira’

“O depoente afirmou que estava com ‘alucinação’ de que tinha alguma escuta na tornozeleira, tentando então abrir a tampa”, registrou a magistrada na ata da audiência. Ela também, que integra o gabinete do ministro Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal, anotou a explicação de que Bolsonaro teve “uma certa paranoia (…) em razão de medicamentos que interagiram de forma inadequada”.

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Moraes determinou a prisão de Bolsonaro na madrugada de sábado 22 | Reprodução/Rosinei Coutinho/SCO/STF/Flickr

Bolsonaro afirmou ter usado um ferro de solda para tentar abrir o equipamento entre a noite de sexta-feira 21 e a madrugada de sábado 22. Disse que manipulou a tornozeleira “tarde da noite e parou por volta de meia-noite”, e que nenhum dos presentes na casa — sua filha, o irmão mais velho e um assessor — presenciou a ação.

O ex-presidente negou intenção de fuga e insistiu que “não houve rompimento da cinta”, parte que mantém a tornozeleira presa ao tornozelo. Também confirmou que ainda possui em casa o ferro de solda utilizado na tentativa.

Ao final da audiência, a juíza decidiu manter a prisão preventiva, afirmando que Bolsonaro não relatou qualquer abuso policial durante o cumprimento da ordem judicial.

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