Mistura grossa

O problema não é o que a Lava Jato fez. É o que o procurador-geral está fazendo
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O procurador-geral da República, Augusto Aras | Foto: MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL
O procurador-geral da República, Augusto Aras | Foto: MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL | O procurador-geral da República, Augusto Aras | Foto: MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL

J. R. Guzzo

Publicado no Estado de S. Paulo, em 2 de agosto de 2020

zambelli não cometeu tráfico
O procurador-geral da República, Augusto Aras | Foto: MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL
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O Ministério Público, pelo que está escrito na lei brasileira, é pago para agir na acusação contra delinquentes e para representar o interesse público quando entender que ele esteja sendo contrariado; seu papel é ficar contra os criminosos. Da mesma maneira, cabe aos advogados agir na defesa de quem é acusado pelo MP; seu papel é ficar a favor dos clientes. O primeiro tem de procurar a condenação. Os segundos têm de procurar a absolvição. Mas isso aqui é o Brasil, e no sistema de Justiça do Brasil quase nada funciona como determinam a lógica, a decência e as próprias leis. Temos, assim, que o MP, segundo a postura pública de seu funcionário mais alto, o procurador-geral da República, se coloca contra quem faz as denúncias e a favor de quem é denunciado — ou, pelo menos, é assim quando se trata de combate à corrupção. Na sua visão de justiça, exposta pela última vez numa palestra eletrônica que fez nesta semana, o dr. Augusto Aras nos informou que o grande problema da corrupção no Brasil não são os corruptos que durante anos a fio transformaram a administração pública em sua propriedade privada. O problema, diz ele, é a Lava Jato.

É realmente um espanto, mesmo para um país em que os marechais de campo da Justiça são esses que há por aí. Acredite se quiser, o PGR lançou o seu manifesto contra a maior e mais bem-sucedida operação de combate à corrupção jamais feita nos 520 anos de história do Brasil numa emissão fechada de imagem e som para cerca de 300 advogados criminalistas — em grande parte sócios de bancas milionárias e com clientes, ainda mais milionários, atolados na Lava Jato sob acusações de ladroagem em primeiro grau. Como assim? Numa de suas mais conhecidas lições de ética, um antigo e afamado criminoso do Rio de Janeiro já ensinava: “Bandido é bandido, polícia é polícia”. Então: procurador é procurador, advogado é advogado. O lugar onde eles têm de se falar é no fórum, diante do juiz — só lá. Se não for assim, e durante o tempo todo, vira uma mistura grossa com a pior cara possível.

A Lava Jato foi, possivelmente, o mais precioso momento já vivido pela Justiça deste país na execução do que deve ser a sua tarefa superior — fazer justiça. Num país classicamente desgraçado pela corrupção sem limite e pela impunidade quase absoluta dos ladrões, a operação colocou na cadeia 300 dos mais perigosos, bilionários e influentes corruptos que já atuaram entre o Oiapoque e o Chuí ao longo da história nacional. Fez os criminosos devolverem bilhões ao erário. Liquidou uma praga que se imaginava invencível — as empreiteiras de obras públicas, que desde então pararam de governar o Brasil. (Querem voltar, é claro; mas aí já são outros quinhentos.) Levou para a prisão um ex-presidente da República, tido como homem mais poderoso e intocável do país. Pois é: o PGR acha que tudo isso está errado.

Aras acusa os procuradores do seu próprio MP das piores coisas — insinua, inclusive, chantagem e extorsão —, mas não foi capaz de apontar, objetivamente e com o apoio de fatos, um único delito cometido por eles. Fica escandalizado por haver na Lava Jato informações sobre “38 mil” pessoas, que “ninguém sabe como foram colhidas”. E daí? Com a quantidade de ladrão que há neste país, poderiam ser 380 mil. E, se não sabe, deveria saber; problema dele. É um despropósito. Os atos do MP e os do juiz Sergio Moro — que, como magistrado, vale uns 150 Aras — estiveram o tempo todo sujeitos ao exame dos tribunais superiores. E, se houve erros, por que diabo a Corregedoria do próprio MP jamais foi atrás deles?

O problema não é o que a Lava Jato fez. É o que o PGR está fazendo.

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17 comentários

  1. A Lava Jato estava se tornando um poder politico, ate fundacao eles queriam criam com os Bilhoes recuperados, sendo que esse $$ é do povo e não deles, (iriam ter direito na adm destes recursos). O Aras quer combater o excesso que tanto lutamos contra (veja o caso do STF). Se queremos justiça e não justiceiros, teremos que apoiar os que agem segundo a letra da lei. Se eles podem agir acima a pretexto de ser contra a corrupção, então o STF pode a pretexto de uma causa qualquer. Que se faça justiça como manda a lei. A lei não é boa, que se altere a lei pelos modos legais.

    1. Seus argumentos o credenciam a ser o próximo ministro do STF. Mesmo nível de Toffoli e Alexandre de Moraes. Ou, se Aras for para o STF, você assume a PGR.

      1. A lava jato esta muito longe de ser a maior e mais bem sucedida operação contra a corrupção. Moro e Dalangnol a transformaram em uma quadrilha com fins políticos e de promoção pessoal (aliás os dois deveriam estar na cadeia), e que os apoia também. A lava jato se transformou numa vergonha, uma farsa jurídica, onde os fins justificam os meios. Deus nos livre de uma “justica” dessas!

    2. E detalhe: por que o advogado do PT, Dias Toffoli quer que juízes e membros do MP não se candidatem? Advinha???!
      Ele deve enxergar um projeto político advinda da Lava-Jato, denunciada pelo PT, e a justificativa deles era porque só prendia quem era do PT e quando havia denúncias sobre PSDB, nada.
      Eu a apoio, mas se mostra evidente que há-se certos abusos. Mas havemos de esperar.
      Foi só Moro sair e duas semanas depois Aécio (PSDB) foi indiciado, etc., Fora o tanto de drogas apreendidas.

      E outra, e o caso BeneEstado? Fica a pergunta a todos.

    3. Meu Deus! Fico abismado como um site tão bom não consegue fazer uma análise do que está acontecendo.
      O PGR é a favor a lava-jato (operação), o que ele está tentando combater é o lavajatismo (uso político), informações de mais de 38 mil pessoas que ninguém sabe quem, a não ser os integrantes do lavajatismo. Há uma diferença que vocês ignoram. Eu torço para que a lava-jato continue, mas esconder informações e relatórios do PGR é como seu chefe te pedir um relatório do seu trabalho e você dizer que não, porque isso fere sua independência no trabalho. Há coelho nesse mato e pelo visto, tem muita gente com medo de o PGR descobrir o uso político, chantagens e etc que possam ter sido ou ainda estejam sendo feitas com informações de mais de 38 mil pessoas.

    4. Mas isso tem que ser feito com muito cuidado, pois os corruptos já estão montando um cavalo de batalha pra colocar toda a lava jato como um excesso, já estão propondo até CPI.

  2. Aras cita “excessos”, seria esses “excessos a prisão coercitiva do Lula, seu eterno amigo e de Dirceu? Fala em poder paralelo, mas quando ocorreu isso na prática?.. Foi quando as seis da manhã batia à porta de personalidades, dantes nunca imaginado? A irritação da lava jato nele é a mesma que encontro em membros do STF..nos olhos

  3. Aras bolas!!! KARINA KUFA deu de presente a Bolsonaro um cavalo de Troia, garantindo que era o exímio defensor da justiça e das Leis, mas antes mesmo de assumir o cargo já discursava diferente para cada público.
    Aras defendeu o “inquérito do fim do mundo” das fake news contra bolsonaristas.
    Aras abriu inquérito contra o presidente, por causa das “denúncias” de Moro.
    Aras autorizou investigações contra bolsonaristas com o inquérito das “manifestações antidemocráticas”.
    Ainda tem gente que o defende, a própria Karina. Lógico!
    Ainda tem gente que diz que Bolsonaro, indicou Aras pra acabar com a Lava Jato. Esquecem que nem Bolsonaro o conhecia.
    Parabéns, Karina! Todos confiaram em você!

    1. Quase esqueci! O partido Aliança pelo Brasil, segundo o TSE, não conseguiu assinaturas suficientes pra ser criado. Mesmo com mais de 1 milhão de assinaturas enviadas.
      Bolsonaristas acusaram Karina Kufa pelo mal feito.
      Hum… só pensando alto.

  4. Decepção, Guzzo. Estude o assunto a fundo. Aras quer retirar, da lava-jato, os procuradores políticos que atuam em favor dos tucanos ou daqueles de quem almejam apoio político para seus obscuros planos de poder. Haverá uma enxurrada de procuradores candidatos esse ano, todos vinculados ao lava-jatismo vergastado pelo PGR, que está purgando a instituição.

  5. Tudo que Aras falou sobre problemas na lavajato ele tem provas. Já as apresentou à corregedoria do Ministério Público Federal. Agora é aguardar os desdobramentos. A lavajato continua, agora chegou nos tucanos.

  6. Pode até ter ocorrido alguma falha nos desdobramento das operações da Lava Jato, o que acho bem difícil, já que o na época Juiz Sérgio Moro era bastante criterioso, muitas vezes até aconselhando procuradores a não entrar com a ação! Enfim … De qualquer forma, Augusto Aras não tem credencial e nem mostrou provas para atacar a Lava Jato da forma indecente que fez! E logo diante de advogados que defendem criminosos envolvidos na própria LJ! Ele que fizesse isso dentro do MPF, com os procuradores que ele julga suspeitos! Esse Aras nunca me passou confiança, pra mim um esquerdista porcamente disfarçado! Não entendi o Presidente ter escolhido ele ?‍♀️

  7. Só o fato de fazer aquele discurso na presença de “criminalistas” defensores de corruptos, já demonstra de que lado o Sr Aras está. Ficou puxando o saco do PR para o cargo e este escolheu muito mal. Não emplaca um segundo mandato.

  8. Precisamos de uma lava jato pra cada cidade do Brasil, porque aqui só tem corruptos, aliás deviam mudar o nome ao invés de partido,para quadrilha político.

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