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Momento de exceção

"Com a Lava Jato, pela primeira vez na história, a Justiça e o Estado consideraram que roubar dinheiro público era ilegal", disse J.R. Guzzo
DF - BOLSONARO/PF/MORO/DEMISSÃO/ANÚNCIO - POLÍTICA - O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, durante coletiva para anunciar   sua saída do governo em pronunciamento realizado na sede do Ministério, em Brasília,   nesta sexta-feira, 24 de abril de 2020. Moro acusou o presidente Jair Bolsonaro de tentar   interferir politicamente no comando da Polícia Federal para obter acesso a informações   sigilosas e relatórios de inteligência. "O presidente me quer fora do cargo", disse Moro,   ao deixar claro que a saída foi motivada por decisão do presidente.   24/04/2020 - Foto: EDU ANDRADE/FATOPRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
DF - BOLSONARO/PF/MORO/DEMISSÃO/ANÚNCIO - POLÍTICA - O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, durante coletiva para anunciar sua saída do governo em pronunciamento realizado na sede do Ministério, em Brasília, nesta sexta-feira, 24 de abril de 2020. Moro acusou o presidente Jair Bolsonaro de tentar interferir politicamente no comando da Polícia Federal para obter acesso a informações sigilosas e relatórios de inteligência. "O presidente me quer fora do cargo", disse Moro, ao deixar claro que a saída foi motivada por decisão do presidente. 24/04/2020 - Foto: EDU ANDRADE/FATOPRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
momento de exceção
Do jeito que vão as coisas, o ex-juiz e ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, será um homem de sorte se não acabar preso
Foto: Edu Andrade/Estadão Conteúdo

(J.R. Guzzo, publicado no jornal Gazeta do Povo em 4 de fevereiro 2021)

Durante sete anos, o Brasil não foi o Brasil. Esteve em operação, ao longo desse tempo, a Lava Jato — e a Operação Lava Jato era exatamente o contrário da política brasileira como ela sempre foi. No Brasil da Lava Jato, os políticos e os demais corruptos, de todo porte e espécie, se arriscavam a ir para a cadeia. Foram presos um ex-presidente da República, o dono da maior empresa de obras públicas do país, governadores de Estado, um ex-presidente da Câmara dos Deputados e por aí afora. Os próprios ladrões se comprometeram a devolver aos cofres públicos R$ 15 bilhões da montanha de dinheiro que tinham roubado.

Em qualquer país sério é precisamente assim que as coisas se passam; lei é lei, e tem de ser aplicada para todos. Só que o Brasil não é assim. A vida pública, na verdade, é o contrário disso. A Lava Jato, enquanto durou, refletiu um país que não existe. Nada mais natural, assim, que ele voltasse à sua verdadeira natureza. É o que acaba de acontecer, oficialmente, com a dissolução formal da operação toda, por ordem de ninguém menos que o próprio procurador-geral da República. Aí sim. Eis, enfim, o Brasil de novo sendo como o Brasil realmente é: o chefe dos investigadores decide que é proibido investigar.

A Lava Jato sempre foi a principal inimiga dos que mandam no Brasil: gente da política e do governo, seus parentes e amigos, empreiteiros de obras, fornecedores do Estado, donos de empresas estatais, altos barões do Judiciário e empresários que vivem do Tesouro Nacional. Seu grande objetivo na vida, nesses sete anos, foi acabar com a Lava Jato; todos, nesse bonde, têm um sistema natural de rejeição à honestidade.

No começo, com medo do imenso apoio popular às novas regras, o mundo oficial fingiu que apoiava a operação. Depois, com o tempo, passaram a aparecer queixas de que estaria havendo “exageros” nas investigações e sentenças contra os corruptos. Mais um pouco, as reclamações viraram uma guerra aberta e sem quartel; a Lava Jato, no fim, estava sendo acusada em pleno Supremo Tribunal Federal de criar “um regime de exceção” no país, a “República de Curitiba”.

Foi um momento de exceção, de fato: pela primeira vez em sua história, possivelmente, a Justiça e o aparelho de Estado brasileiros consideraram que roubar dinheiro público era ilegal. Assim que foi possível voltar à vida de sempre, naturalmente, eles voltaram: enterrar a Lava Jato sempre foi o objetivo número 1 das elites brasileiras, seja no governo Lula-Dilma, seja no governo Temer, seja no governo Bolsonaro — a cujo procurador-geral, no fim, coube a grande honra de dar o tiro de misericórdia.

Do jeito que vão as coisas, o ex-juiz e ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, será um homem de sorte se não acabar preso.

Leia também: “A operação que mostrou que todos são iguais perante a lei”, reportagem publicada na Edição 21 da Revista Oeste

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5 comentários

  1. Mestre Guzzo, confesso que não gosto quando você com alguma frequência equipara os governos Lula/Dima ao governo Bolsonaro. Será que você acreditou na versão Moro de acusação a Bolsonaro? Será que você acreditou que o rei da rachadinha no Brasil é o filho Flavio de Bolsonaro? Será que você não considera que “dizimo” não religioso é uma forma mais grave de rachadinha muito presente no PT em cargos em comissão e diretorias em estatais? Será que você viu corrupção no governo Bolsonaro que eu não vi?
    Neste anos gloriosos e elogiáveis da Lava Jato, você acha que todas as formas de corrupção foram combatidas?. Quando o PGR Aras que você diz ser do Bolsonaro pediu compartilhamento dos mais de 30 mil registros da Força tarefa de Curitiba e eles alegaram sigilo ao chefe superior, por que será? Você não acha que nesses registros tem muita movimentação atípica de corruptos de estimação?
    Então Guzzo, combato todos os tipos de corrupção, inclusive aquela praticada por procuradores terceirizados que ajudaram a JBS a montar aquela fajuta e forjada delação premiadíssima dos piores criminosos financeiros do pais, tão urgentemente homologada por Fachin e espetacularmente divulgada pela Globo?. Tão fajuta delação que o próprio PGR Janot pediu sua anulação, mas que conseguiu em Maio/2017 derrubar a aprovação da reforma da previdência.
    Guzzo, fui tucano desde a fundação do partido até o mau caráter Dória iniciar os ataques a Bolsonaro. Quando tucano votei em Bolsonaro no primeiro turno em 2018, e confesso, apesar do desastrado comportamento, não conheço candidato de melhor caráter para 2022. E é disso que precisamos, Técnicos tem que ser seus ministros que nem preciso nominar.
    Portanto Guzzo, compreendo tua indignação com a classe de políticos, juristas, empresários e até com a imprensa tradicional tucano-ideológica, mas entenda meu comentário porque esta insuportável verificar o massacre a este governo, e peço, faça uma avaliação da importância do VOTO IMPRESSO, que não é um retrocesso, não é mais cara sua implantação que os penduricalhos das Cortes Superiores, não engasga na maquina impressora, e não “viola o sigilo e a liberdade do voto”, como assim falaciosamente interpretou o STF ao declarar inconstitucional. Afinal, quem teme o voto impresso se é única forma de AUDITAR e se necessários RECONTAR os resultados das urnas eletrônicas? Melhor ainda, evitará argumentos de perdedores para provocar graves conflitos sociais.
    Abraços Guzzo

  2. Como eu gostaria de ter sua genialidade, pra foi ela e a equipe montada pela Oeste q me fez assinar a revista! Até agora o nível dela só me surpreende, mas eu acho q posso deixar uma opinião minha; pq na hora de pegar tucanos Moro deu ré? Pq Moro se aliou com pessoas dá elite tucana? Pq Moro trabalha para pessoas ligadas a Odebrecht?
    Enfim, a lava jato fez sua parte, prendeu muitos intocáveis, mas mostrou q existe gente mais intocável q Moro não se atreveu a prender.

  3. Algo que deve ser feito com urgência: pedir o impedimento e suspeição de ministros do STF que já declararam seu voto contra a lava-jato e contra Moro de Deltan. Passamos décadas lendo, ouvindo e adotando o ‘pré-julgamento” como herança republicana e democrática. Gilmar Mendes, que entende de tudo, menos de Direito, juntamente com 3 ou 4 colegas já apresentaram seu voto, e com desenvoltura. Portanto, está na hora de alguém arguir o instrumento legal para evitar injustiça e atropelo de princípios centenários do Direito e da Justiça. Parece camanga de futebol onde já se sabe o resultado da partida. Assim, nem o Var resolve.

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