No Brasil contemporâneo, os escândalos institucionais parecem ter adquirido uma curiosa propriedade química: quanto mais graves são, menor tende a ser a reação das instituições encarregadas de investigá-los. O caso envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e as circunstâncias de sua prisão oferece um exemplo particularmente eloquente desse fenômeno.
Segundo a Polícia Federal, o advogado de Vorcaro, Walfrido Warde (petista e militante anti-Lava Jato) teria pressionado o juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, poucas horas antes da decretação da prisão do banqueiro, no dia 17 de novembro de 2025. O objetivo era impedir a medida e permitir que o investigado deixasse o país.
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É preciso pôr esse episódio ao lado de outras revelações já conhecidas do público. Entre os materiais apreendidos pela Polícia Federal no celular de Vorcaro, como se sabe, estão registros de contatos e mensagens trocadas com Alexandre de Moraes, o qual, também por conta do contrato firmado por sua mulher com o banco, passou desde então a ser conhecido popularmente como “Careca do Master”.
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Parte dessas conversas — que ocorreram no mesmo dia 17 de novembro, o da prisão — teria sido apagada ou enviada como mensagens de visualização única, o que impede sua recuperação integral. Mas as que já foram recuperadas mostram a famigerada pergunta, enviada por Vorcaro ao companheiro de uísque Macallan: “Conseguiu bloquear?”.
Em um Estado Democrático de Direito real — não o de faz-de-conta —, a simples existência de comunicações privadas entre um investigado e um magistrado da mais alta Corte do país já seria motivo suficiente para afastar o funcionário público e colocá-lo na condição de investigado. Afinal, não estamos falando de meras coincidências protocolares.
Walfrido, Vorcaro, Moraes e Gonet
Estamos diante da possibilidade de uma tentativa de obstrução de justiça com ramificações que alcançam o próprio Supremo Tribunal Federal. Mas sabem por que ela não será investigada? Porque o responsável por isso, o PGR Paulo Gonet, foi alçado ao seu cargo pelo próprio “Careca do Master”. E também divide a mesa do uísque com Vorcaro e a turma.
“Estamos infernizando o cara” — contou Walfrido Warde a Vorcaro, referindo-se ao juiz Ricardo Leite, responsável pela ordem de prisão. O verbo é usado na primeira pessoa do plural. “Nós” quem, Walfrido? Quem mais o teria ajudado a infernizar o juiz responsável pela prisão preventiva do cliente? Espera-se que o vazamento de mais mensagens trocadas pela “Turma” possa esclarecê-lo.
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