O Brasil vive um pesadelo imaginário

Nosso país é especialista em detectar problemas que não tem e, em consequência disso, deixa intactos os problemas que realmente tem
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O Brasil, como se sabe há muito tempo, é um grande especialista em detectar problemas que não tem
O Brasil, como se sabe há muito tempo, é um grande especialista em detectar problemas que não tem | Foto: Marcos Corrêa/PR

(J.R. Guzzo, publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 15 de maio de 2022)

É a velha história de sempre. Se o sujeito perdeu o relógio no jardim, e está procurando no quintal, uma coisa é absolutamente certa: ele pode encontrar qualquer coisa, menos o relógio. É o que acontece hoje com a economia brasileira. Há uma penca de problemas, mas quem se declara escandalizado com eles procura suas causas no lugar errado. Resultado: podem ficar denunciando os problemas pelo resto da vida, mas ninguém vai achar solução nenhuma para nada.

Um complicador a mais, no caso, é que os autores das acusações não querem, na verdade, procurar o real culpado; muitíssimo menos, ainda, querem ver resolvido algum problema, da economia ou de qualquer outra coisa. O que querem, mesmo, é dizer que todas as dificuldades econômicas do momento são causadas pelo governo, e só um presidente das “oposições” pode resolver a questão. Fica em circulação, assim, a fábula segundo a qual só existem inflação, juros altos, dificuldades de emprego, baixo crescimento econômico e outras desgraças por causa do governo e de decisões tomadas pessoalmente pelo presidente da República. É o tipo da procura no lugar errado.

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O Brasil, como se sabe há muito tempo, é um grande especialista em detectar problemas que não tem e, em consequência direta desse desvio, deixar intactos os problemas que realmente tem. É o caso atual. Toda a responsabilidade pelas dificuldades econômicas é do governo; basta colocar outro governo no lugar deste, portanto, e as coisas estarão resolvidas. Eis aí o erro: estão apontando um culpado que não tem culpa — pelo menos, não essa culpa. Podem colocar quantos governos quiserem no lugar desse que está aí. Os problemas continuarão exatamente do mesmo tamanho.

Qual a dificuldade concreta, entre todas as que temos hoje, que foi causada por alguma decisão de política econômica do governo? A inflação? Mas a inflação nos Estados Unidos está em 8,5%, e ninguém diz que essa inflação é “do Biden”. Por que, então, a inflação daqui é “do Bolsonaro?” Os juros altos? Mas não pode haver juro baixo com inflação alta; no fim do governo Dilma, a taxa bateu em 14,25%. Por que a taxa “do Bolsonaro” é uma calamidade e a taxa “da Dilma” uma ação de prudência econômica? O Brasil não cresce. Mas a economia do mundo inteiro, depois de dois anos de paralisia da produção por causa da covid-19, mais uma guerra na Europa, não cresce. Como o Brasil poderia crescer sozinho? Se há problemas de emprego em todos os países do mundo, de que jeito o Brasil poderia ficar de fora? Se o petróleo é caro no mundo inteiro, por que deveria ser barato no Brasil?

O Brasil vive um pesadelo imaginário. Não há solução para isso.

Leia também: “O retrato do atraso”, artigo de Ubiratan Jorge Iorio publicado na Edição 111 da Revista Oeste

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