Como voltar a produzir

As lições, os aprendizados e os equívocos com os quais o Brasil pode aprender para retomar a atividade econômica

Sim, é possível retomar a atividade econômica durante a pandemia de coronavírus. Não é fácil. Não é simples. Mas, com planejamento, tecnologia, dinheiro e determinação política, é realista a perspectiva do retorno da produção em poucas semanas. Esta é uma das pautas mais relevantes do momento em todo o mundo. Se a crise financeira de 2008 foi uma espécie de ataque cardíaco fulminante, a atual é um colapso sistêmico — este é o consenso que se forma entre corporações e governos. Ou seja: haverá muito sofrimento, mas o mundo não vai desabar.  Nos países emergentes, onde o baque tenderá a ser maior, a previsão é de que PIB e bolsas de valores retornem aos níveis do início de 2020 em dois anos.

No Brasil, compreensivelmente, o presidente Jair Bolsonaro demonstra preocupação com os impactos das medidas de isolamento social na economia. É uma questão legítima, embora tenha sido tratada num discurso com sérios problemas de comunicação. Este é o momento de avaliar caminhos, estudar a pertinência da adoção no país de algumas das experiências bem-sucedidas lá fora e permitir que os ministérios da Saúde e da Economia atuem de forma coordenada.

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New Taipei, Taiwan
A cidade de New Taipei, em Taiwan, é um modelo de como produzir nos tempos do coronavírus / Unsplash

A Coréia do Sul já voltou a produzir. Taiwan é um exemplo de manutenção da atividade econômica durante a pandemia. A Suécia testa modelos menos restritivos de isolamento social, ao, por exemplo, permitir a reabertura de restaurantes, desde que observadas certas regras. Mesmo a China, epicentro da peste, retomou vigorosamente a atividade fabril. Há, portanto, exemplos que merecem atenção. Nem todos, por óbvio, são aplicáveis ao Brasil. Por falta de recursos, deficiência de tecnologia, burocracia, ou ainda — e, talvez, sobretudo — porque o país não investiu em infra-estrutura, educação, pesquisa científica e saúde nos anos em que os emergentes estavam enchendo os cofres em razão da alta demanda chinesa por commodities; a escolha foi por criar estatais inúteis, aumentar o contingente de funcionários públicos e construir estádios para a Copa do Mundo de 2014. De todo modo, observar lições de outros países pode ser útil para o Brasil criar sua própria estratégia.

Planejamento

A Coréia do Sul enfrentou em 2015 uma epidemia de MERS, a Síndrome Respiratória do Oriente Médio, doença causada por uma variação genética do coronavírus. Trinta e oito pessoas morreram. Com o aprendizado, o país estabeleceu protocolos para a atuação rápida em situações semelhantes. Planejamento preventivo foi o comando. A Coréia não aumentou o número de servidores nem criou uma estatal nova para cuidar de doenças infecto-contagiosas. Preferiu investir em equipamentos e estrutura. Apenas para efeitos de comparação, o país tem 8% da sua força de trabalho ativa em carreiras públicas, ante 12% no Brasil e 17% na Itália.

O governo coreano liberou recursos para a ampla realização de testes, feitos sob rigoroso esquema de segurança, de modo a não expor profissionais de saúde a riscos de contágio.

Assim, as autoridades se anteciparam à disseminação da covid-19.

A liberação de testes já em fevereiro permitiu a identificação rápida de áreas onde a doença estava ocorrendo com mais frequência, o isolamento de bairros críticos, bem como a desinfecção dessas regiões.

Com ações como essas, o governo não precisou pedir que as empresas fechassem. Elas se reestruturaram rapidamente. Implementaram o home office e reduziram lentamente a produção, mas sem paralisar por completo. No setor de serviços, os restaurantes continuaram abertos, com os clientes acomodados a uma distância segura dos outros. E, talvez a mais alegre das notícias, as escolas deverão voltar a funcionar no dia 6 de abril.

Coreia do Sul
Dois soldados americanos e um coreano em uma área infectada pela covid-19

Tecnologia

Com o uso de ferramentas simples de tecnologia, é possível rastrear o percurso feito por um indivíduo infectado. Seu extrato do cartão de crédito indica em que lojas, supermercados e farmácias ele fez compras. O Waze informa por onde locomoveu-se na cidade. Com o uso de dados, o governo coreano refaz o trajeto das pessoas que contraíram o vírus para desinfectar aquela rota e os estabelecimentos em que o cidadão esteve. É complexo e exige, sem dúvida, muitos recursos. Mas o cruzamento de dados pode permitir que São Paulo, por exemplo, identifique bairros, ruas e estações de metrô com elevado índice de contágio, de modo a estabelecer medidas mais restritivas de isolamento social precisamente nessas áreas.

Dinheiro

O modelo coreano tem inspirado importantes líderes globais. Boris Johnson, do Reino Unido, e Emmanuel Macron, da França, solicitaram audiência com o presidente Moon Jae-in. O presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, também tem a Coréia do Sul como referência. Trump adotou a estratégia de investir na distribuição de testes rápidos que facilitassem a identificação e o rastro de pacientes com sintomas do coronavírus. Nos últimos oito dias, mais de 300 mil kits de testes foram espalhados pelos Estados Unidos. Ainda assim, é um número pequeno para um país com mais de 300 milhões de habitantes e proporções continentais — e a situação do sistema de saúde local não melhora muito com a deficiência de instrumentos básicos para enfrentar uma crise sanitária desse porte, como máscaras, coletes, aventais, cotonetes e outros itens de laboratório.

Para Trudy Rubin, do The Philadelphia Inquirer, essa falha sistêmica ocorre porque Trump hesita em usar a lei da Produção de Defesa, que mobilizaria as empresas americanas para produzir o que é necessário em situações emergenciais. Os políticos democratas argumentam que o melhor é insistir nos testes em grande escala e, dessa maneira, coletar informações necessárias para pedir aos não-infectados que voltem a trabalhar. Trump prefere uma abordagem mais flexível, monitorando criteriosamente os efeitos do relaxamento das medidas de reclusão domiciliar, sem insistir nos testes, até que a produtividade do país comece a se recuperar a partir da época da Páscoa.

Alguns especulam se o presidente dos Estados Unidos faz isso porque está imensamente preocupado com uma queda financeira com potencial de afetar o resultado das eleições deste ano. Outros analistas supõem que Trump estaria usando uma estratégia próxima à de um outro presidente americano, Calvin Coolidge. Em 1928, Coolidge, mesmo sabendo de antemão da inevitável crise na bolsa americana que ocorreria um ano depois, achou melhor deixar a economia tomar seu próprio curso e não praticar qualquer intervenção governamental no mercado.

Trump, no entanto, não está inerte, como alegam seus inimigos.

Pelo contrário: no início de março, chamou os CEOs das maiores empresas de serviço dos Estados Unidos — como Costco e Walmart, Amazon e UPS — para pedir ajuda na recuperação econômica do país em meio à pandemia. Como? No relato de Tyler Cowen, publicado no site da Bloomberg, justamente ajudando pequenas e médias empresas na infraestrutura básica para que continuem operantes — medida que a Itália, uma das maiores vítimas do vírus na Europa, não conseguiu praticar, deixando estabelecimentos de pequena escala, como quiosques, bares e sorveterias à míngua ou à beira da falência. No receituário americano de preservação dos negócios, é necessário não apenas dinheiro público, mas também privado.

Determinação política

No Reino Unido, o governo conservador do primeiro-ministro Boris Johnson, ele próprio vítima da covid-19, testou a manobra da “imunidade de rebanho” mas recuou rapidamente. A herd immunity é a tese de que a epidemia pararia se as pessoas ficassem expostas à covid-19, desenvolvendo os sintomas da doença. Assim, ganhariam imunidade. Uma vez que um grupo de jovens ficasse imune, logo um outro grupo da população — entre eles, os velhos e os que estão no estágio de risco — estaria protegido. Cientistas e médicos alertam o governo que muitos jovens desenvolveriam sintomas sérios da doença e teriam de ser internados. Além disso, os infectados poderiam contaminar grupos de velhos — o que acarretaria uma sobrecarga no sistema de saúde. A “imunidade de rebanho” acabou atrasando a mitigação da pandemia.

A medida rapidamente implementada na sequência foi proposta pelo conselho do Grupo Consultivo Científico para Emergências — Sage, na sigla em inglês. “Uma política de alternância entre períodos de medidas de distanciamento social mais e menos rigorosas pode ser plausivelmente eficaz para manter o número de casos de cuidados intensivos dentro da capacidade”, recomendou o Sage, conforme documento obtido pelo Financial Times. Nos períodos de “relaxamento”, o sistema de saúde reforça o monitoramento da evolução do contágio para estabelecer o próximo período de maior rigor. Tudo isso, permitindo o retorno da atividade econômica gradualmente.

Há lições também nos erros. É necessário determinação política para reconhecer equívocos e corrigir a estratégia o quanto antes.

Vitalidade econômica

Não será rápida a recuperação. Mas há notícias alvissareiras. A BMW informou esta semana que a produção de suas fábricas instaladas na China foi reiniciada na segunda semana de fevereiro. Outra gigante do setor também se recupera, a Fiat Chrysler. Além disso, o comércio chinês registra crescimento na venda de aparelhos eletrônicos em várias lojas do país e houve um aumento súbito no tráfego do metrô, com índices de mais de 20%.

A Coréia do Sul, embora seja o grande modelo global de controle da pandemia — comparável apenas a Taiwan —, é um mercado emergente e sofre imensa pressão monetária. Foi dramática a fuga de fundos estrangeiros, um dos motivos de instabilidade na região: US$ 58 bilhões sumiram de lá, o dobro da quantia que deixou o território na crise de 2008 ou na de 2013. O impacto dessa retirada pode ser sentido na ausência de investimentos das empresas coreanas nos países latino-americanos, como Brasil e México, que, com suas infraestruturas e finanças frágeis, sentirão um baque maior do que o previsto.

Gráfico de Amortização de caixa
Gráfico de Amortização de caixa

O presidente coreano Moon Jae-in disse ter plena noção de que a economia do seu país terá um crescimento negativo nos primeiros quatro meses deste ano. Jae-in enfatizou os esforços do seu governo para aquecer um mercado baseado em exportações, junto com o relaxamento da política fiscal.

O tamanho do investimento público será parrudo, da ordem de US$ 65,5 bilhões.

O plano contempla a preservação de atividades essenciais, recursos para reerguer pequenos e médios negócios, apoio a profissionais autônomos e ao setor de serviços. O pacote, segundo o presidente, permitirá que a economia coreana recupere vitalidade e — o mais importante — impedirá que permaneça num curso descendente em relação a outros mercados globais.

O plano de guerra

Esta é a preocupação que está na origem dos questionamentos do presidente Jair Bolsonaro em relação às medidas de confinamento domiciliar. Após a decretação do estado de calamidade pública, o presidente adotou várias ações para atenuar os danos econômicos relacionados à covid-19. Palácio do Planalto, Ministério da Economia, ala militar e principais aliados apostam exatamente nessas medidas para conter uma incipiente, embora perigosa, onda de insatisfação popular. O debate no governo agora é como combinar preservação de vidas e o retorno da atividade econômica.

Pronunciamento do Presidente Jair Bolsonaro em rede nacional de Rádio e Televisão
Presidente Jair Bolsonaro em pronunciamento nacional sobre a epidemia do coronavírus

Até o momento, os recursos já disponíveis por meio de medidas provisórias somam R$ 8 bilhões. Esse dinheiro será investido na melhoria da estrutura de hospitais em todo o país, no socorro a estados que enfrentam dificuldades fiscais, no aumento do Bolsa Família — com a inclusão de pelo menos 1,5 milhão de pessoas — e no reforço do Fundo Nacional da Saúde e da Fundação Oswaldo Cruz.

Mas tem mais dinheiro a caminho. O governo federal estima que a conta total será de algo em torno de R$ 750 bilhões. Deste valor, cerca de R$ 156 bilhões serão usados para socorrer empresas, de modo que possam pagar o salário de empregados em quarentena. Outros R$ 88,2 bilhões vão para investimentos diretos em saúde nos estados e municípios. O mega pacote leva em consideração ainda outras medidas, como a suspensão do pagamento de impostos federais por três meses, garantia do vale-transporte para os trabalhadores, subsídio para quem atrasar o pagamento das contas de água, luz e gás.

A orientação do Planalto é focar esforços máximos para assegurar as operações produtivas e de suprimentos.

No curto prazo, o Poder Executivo trata como prioridades a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 438/2018 e o Projeto de Lei Complementar (PLP) 149/2019 — também chamado de “Plano Mansueto”, numa referência a seu formulador, o economista Mansueto Almeida, secretário do Tesouro Nacional. Juntos, o PLP e a PEC são quase um plano de guerra. Propõem socorro a estados e municípios endividados, liberação de empréstimos com aval da União, com o devido impedimento de que esses recursos sejam utilizados na contratação de burocratas.

Para colocar o plano de guerra em prática, o líder do governo na Câmara, Vitor Hugo (PSL-GO), praticamente montou um bunker na pequena sala de 50 metros quadrados da liderança governista. Ele vai à Câmara todos os dias, mantém interlocução direta com os ministérios mais estratégicos e deixa uma equipe em esquema de plantão. Duas ou três pessoas ficam ao mesmo tempo no gabinete, enquanto o resto da equipe trabalha em home office. As que ficam na sala, respeitam as regras de distanciamento recomendadas pelo Ministério da Saúde. Hugo apoia a ideia de Bolsonaro do retorno das atividades produtivas. “Embora tenha a forma muito própria de falar, o presidente quer buscar um equilíbrio entre as medidas sanitárias, que são importantes e têm que ser adotadas, e a economia, para que o país não enfrente repercussões econômicas mais dramáticas do que o próprio vírus”, sustenta.

Até mesmo integrantes do Centrão passaram a admitir a necessidade de que o país tenha como meta de curto prazo a retomada da normalidade econômica. A demissão de aproximadamente três mil trabalhadores dos setores de bares e restaurantes em Brasília, assim como a dispensa de funcionários de empresas do setor rodoviário, em especial a Viação Cometa e a 1001, acenderam o sinal de alerta. Inclusive o governador do Distrito Federal, Ibanes Rocha (MDB), que rompeu com o presidente Bolsonaro, passou a considerar a flexibilização das medidas de confinamento domiciliar. “Acredito que, nos próximos dias, haverá um novo comando de como será essa quarentena”, pondera o líder do DEM no Senado, Rodrigo Pacheco (MG). “Cabe ao governo federal estudar e adotar medidas que não desestabilizem a economia. Mas é preciso haver equilíbrio entre os setores.” Ao menos quanto a isso há consenso.

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16 comentários Ver comentários

  1. O Brasil precisa retomar a normalidade das coisas. Não podemos simplesmente viver em lockdown por mais tempo. Não defendo uma volta abrupta, mas pelo menos gradual, pouco a pouco, até estarmos operando em 100% dos setores. Belíssimo artigo por parte da Revista Oeste. Muito bom mesmo.

  2. Revista q posso ler. Todos sao jornalistas sérios e comprometidos com a seriedade. Gosto. Espero que salvem nosso Governo. Esse Governo sendo injusticado por politicos da bandidagem. Como melhorar? Eis uma questao. Obrigada pelas boas informacoes.

  3. Fico muito satisfeito que tenhamos uma revista que trata os assuntos de forma objetiva, sem militância é compreensível. Parabéns a todos que fazem a Revista Oeste

    1. As medidas do governo, sem dúvida, estão no caminho certo, porém, nenhum banco que eu consultei, Bradesco, Itaú, Santander, disseram que o dinheiro está disponível.
      Perguntei: quem mente ?

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