J-Lo, Meghan Markle, Charlize Theron e Ellen DeGeneres | Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
J-Lo, Meghan Markle, Charlize Theron e Ellen DeGeneres | Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock

A elite desmascarada

Claro que as celebridades não usam máscara — as regras sobre a covid-19 só se aplicam às pessoas comuns

A máscara caiu. Literal e metaforicamente. No último Super Bowl, em um estádio em Los Angeles lotado de pessoas, não havia uma máscara à vista entre o grupo de celebridades. Os fiscais moralistas que obtiveram um enorme prazer nos últimos dois anos mandando a plebe usar máscaras foram ao jogo desmascarados.

Talvez eles tenham prendido a respiração por três horas? Vimos a atriz Charlize Theron sem um fio de tecido no rosto, apesar de Los Angeles ter estabelecido o uso obrigatório de máscaras. Essa é a mesma Charlize Theron que certa vez postou uma foto de si mesma com uma máscara sofisticada com as palavras “Don’t be an ass #wearadamnmask” (Não seja um idiota #useumamalditamascara, em tradução livre). Sabe, é só você, um zé-ninguém, que precisa usar a porcaria da máscara, não pessoas tão lindas e importantes quanto Theron.

A flagrante hipocrisia das celebridades do Super Bowl deixou os usuários das redes sociais furiosos, e com razão. Parece que, no Novo Normal, só “os empregados” usam máscara. E havia a dama do descolado e do politicamente correto, Ellen DeGeneres, sorrindo para selfies sem máscara, enquanto os funcionários do estádio estavam com o rosto coberto. A plateia do talk show Ellen ainda precisa usar máscara. Claro que precisa. Não podemos deixar DeGeneres respirar o ar poluído dos não milionários.

Essa é a nova aristocracia da covid-19 — se você consegue pagar as dezenas de milhares de dólares que custa um camarote suntuoso no Super Bowl, você pode mostrar o rosto. Se não puder, e é uma daquelas pessoas que ganha a vida trabalhando no Super Bowl, então você precisa de uma focinheira. Tudo bem os ricos exporem a respiração — são só os perdigotos e os germes dos mais pobres que precisam ser abafados.

Os estudantes de Los Angeles ainda estão amordaçados nas salas de aula, enquanto milhares de fãs de esporte podem cantar e tagarelar quanto quiserem

Não foram só figuras como Charlize, Ellen, J-Lo e os demais que desconsideraram a obrigatoriedade da máscara em Los Angeles (que estipula que elas devem ser usadas em megaeventos). A maior parte dos 70 mil participantes dessa disputa entre o LA Rams e o Cincinnati Bengals também. Existe um elemento positivo nisso, claro: foram hordas de pessoas sensatamente se recusando a usar uma focinheira em um evento animado e enorme que envolve comer, beber, gritar e torcer. E, no entanto, a coisa toda ainda enfatiza a questão absurda dos “dois pesos, duas medidas” da máscara.

Regras para os servos

Os estudantes de Los Angeles ainda estão amordaçados nas salas de aula, enquanto milhares de fãs de esporte podem cantar e tagarelar quanto quiserem. Como disse um observador: “Aparentemente, a covid-19 não pega se você gastar US$ 5 mil em ingressos para o Super Bowl. Mas, amanhã de manhã, as crianças — para quem a covid-19 é 100% não letal — vão usar máscaras na escola durante oito horas. A ciência”.

O sentido sarcástico da palavra “ciência” toca o cerne do debate. O uso de máscaras na era da covid-19 há tempos deixou de ser uma questão “científica”. Em vez disso, ela se tornou algo totalmente ligado à cultura bélica — em especial à cultura bélica das elites woke contra as irritantes pessoas simples.

As máscaras não são valorizadas por suas qualidades protetoras, mas por seu poder simbólico. Não é a capacidade muito contestada das máscaras de impedir o contágio da covid-19 que as tornou uma peça tão central do Novo Normal. É seu significado cultural, sua função política, a mensagem que elas transmitem sobre quem é importante e quem não é, quem é virtuoso e quem não vale nada. Então, quando as celebridades sem máscara do Super Bowl são servidas por funcionários de máscara, isso revela algo importante sobre o poder na era da covid-19.

Foi como quando Meghan Markle, a Duquesa de Woke, fez uma aparição sem máscara do tapete vermelho em um evento de gala em Nova Iorque, em novembro, cercada por seu séquito mascarado de pessoas muito menos importantes. Isso diz: “Nossa vida e nossas atividades são muito mais importantes que as de vocês. E, portanto, não deveríamos ser submetidos aos mesmos complicadores que vocês. As regras existem para os servos, não para nós”.

Mas a questão é: máscaras são expressões tão flexíveis de superioridade cultural que, dependendo da situação, você pode sinalizar sua natureza neoaristocrática se recusando a usar máscara ou usando máscara. Isso explica a suposta hipocrisia de Charlize Theron, o fato de que ela pode dizer “coloque uma maldita máscara” num dado momento e, no outro, simplesmente se recusar a usar máscara durante um megaevento. No primeiro caso, ela está anunciando seu nível elevado de consciência social, o fato de que ela compreende melhor que um idiota médio que usar máscara pode ajudar a salvar vidas. No segundo caso, a atriz está nos fazendo lembrar que faz parte de uma nova classe, aquela casta muito bajulada e bem remunerada de influenciadores culturais, para quem as regras não valem. Tanto o post sobre vocês, idiotas, precisarem cobrir a boca quanto a diversão sem máscara no Super Bowl confirmam que Charlize Theron vive num plano moral diferente do nosso, reles mortais. Um plano no qual a virtude é abundante, e seguir as regras é opcional.

O uniforme das novas elites

No Reino Unido, os guerreiros da cultura tendem a preferir usar máscara, em vez deixar o rosto livre, como uma forma de demonstrar sua primazia moral. Assim é a tendência das selfies com máscara, em que membros da Turma Certa tiram fotos de si mesmos devidamente amordaçados, ainda que muitas vezes estejam em trens vazios ou ruas desertas. Ciência!

Para essas pessoas, a máscara se tornou um indicador de decência social. Então, Marina Hyde, do Guardian, critica “os antimáscaras” como uma espécie de “nacionalistas”. Um jornalista do Independent considera as máscaras uma forma de proteção não contra a covid-19, mas contra a fumaça tóxica de pessoas comuns. As máscaras “oferecem uma camada extra de defesa em relação à pessoa que está a 2 centímetros do seu rosto no metrô e que não escovou os dentes”, disse Rupert Hawsley. Ele considera que um dia vamos “olhar para trás e não vamos acreditar que no passado costumávamos respirar, bufar e tossir umas nas outras, deixando germes e outros micróbios correndo soltos”.

Garçons sofreram uma humilhação a mais: a necessidade de amordaçar o rosto enquanto servem drinques caros para os ricos sem máscara

Em outras palavras: o inferno são os outros. O impressionante é que as elites woke tanto usando quanto descartando as máscaras em certos ambientes são movidas pelo mesmo impulso fundamental: distinguir-se. E se proteger da respiração e da estupidez das pessoas comuns. Celebridades podem andar sem máscaras, contanto que os serviçais as usem.

Mas elas colocam máscaras — e deixam ostensivamente claro que estão de máscaras — quando estão fora e em meio a plebeus nacionalistas com dentes sujos e legiões de germes. Isso não tem quase nada a ver com a covid-19. Na verdade, a máscara se tornou uma parte central do uniforme das novas elites. Pode ser usada ostensivamente ou arrancada ostensivamente, dependendo de qual ação comunicar de forma mais bem-sucedida para o mundo que “Eu sou uma das pessoas especiais”.

A polêmica do Super Bowl e a questão mais ampla da máscara revelam algo que poucas pessoas, em especial as supostamente esquerdistas, querem confrontar: a forma como a crise da covid-19 exacerbou tensões de classe e empoderou uma nova elite de potências culturais e corporativas à custa dos direitos e do padrão de vida das pessoas comuns.

Durante o lockdown, as classes que trabalham num laptop puderam ficar em casa e fazer pão, contanto que entregadores, trabalhadores da limpeza e do varejo continuassem fazendo o que costumam fazer. Os bilionários ganharam mais bilhões enquanto a classe trabalhadora e as pessoas nos países em desenvolvimento perderam seu sustento. E garçons e atendentes sofreram uma humilhação a mais: a necessidade de amordaçar o rosto enquanto servem pratos chiques e drinques caros para os ricos sem máscara. Está na hora de desmascarar o terrível elitismo do Novo Normal.


Brendan O’Neill é o repórter-chefe de política da Spiked e apresentador do podcast The Brendan O’Neill Show. Ele está no Instagram: @burntoakboy

Leia também “A big tech contra a classe trabalhadora”

-Publicidade-
* O espaço para comentários é destinado ao debate saudável de ideias. Não serão aceitas postagens com expressões inapropriadas ou agressões pessoais.

7 comentários Ver comentários

  1. Texto perfeito. Parabéns. O melhor remédio para essas criaturas abjetas, asquerosas e repugnantes é o desprezo total. Enquanto existir pessoas idolatrando, seguindo, babando por esses idiotas, eles vão se achar especiais, acima dos outros.

  2. Excelente texto, desmascara (sem querer fazer trocadilho), esse grupelho que se acha superior aos pobres mortais. O pior é que, infelizmente, os pobres mortais continuarão a patrocinar essa horda hipócrita.

Envie um comentário

Conteúdo exclusivo para assinantes.

Seja nosso assinante!
Tenha acesso ilimitado a todo conteúdo por apenas R$ 19,90 mensais.

Revista OESTE, a primeira plataforma de conteúdo cem por cento
comprometida com a defesa do capitalismo e do livre mercado.

Meios de pagamento
Site seguro
Seja nosso assinante!

Reportagens e artigos exclusivos produzidos pela melhor equipe de jornalistas do Brasil.