Canadenses na rodovia apoiando o Comboio da Liberdade e o protesto dos caminhoneiros contra a obrigação da vacina | Foto: Shutterstock
Canadenses na rodovia apoiando o Comboio da Liberdade e o protesto dos caminhoneiros contra a obrigação da vacina | Foto: Shutterstock

A big tech contra a classe trabalhadora

O confisco que a GoFundMe fez das doações para os caminhoneiros canadenses é um ataque vil e elitista à democracia

Precisamos falar do confisco que a GoFundMe fez de milhões de dólares dos caminhoneiros canadenses que estão protestando contra a obrigatoriedade da vacina. Isso é quebra de sindicato, estilo XXI. É uma empresa multimilionária usando seu poder corporativo para exaurir os fundos de ativistas da classe trabalhadora. Isso é um sinal, em alto e bom som, de que o Vale do Silício vai exercer seu poder para destruir qualquer forma de agitação política “das classes baixas” que for contra o consenso político. Qualquer um que pense que esse conflito, que opõe um site de captação de recursos com fins lucrativos aos motoristas que estão bravos por serem pressionados pelos autoritários da covid-19, é só mais uma disputa on-line precisa repensar as coisas. É muito mais que isso. Está no âmbito das linhas de batalha sobre liberdade e poder que provavelmente vão definir a era da internet.

O confisco pela GoFundMe dos fundos dos caminhoneiros que estão protestando contra as regras sobre a vacinação no Canadá é, a meu ver, um dos atos mais notórios e antidemocráticos já realizados pelas elites canadenses que controlam a World Wide Web. Esses caminhoneiros, trabalhadores tão essenciais, revoltaram-se contra uma nova regra criada pelo primeiro-ministro, Justin Trudeau, no começo do mês, estipulando que caminhoneiros que atravessarem a fronteira entre o Canadá e os Estados Unidos precisarão ser vacinados ou serão colocados em quarentena depois de cada viagem. É uma exigência absurda. E prejudicaria seriamente a possibilidade de alguns motoristas de ganhar a vida.

Então os caminhoneiros se revoltaram. Eles atravessaram o Canadá com caminhões enormes, no que passou a ser conhecido como o Freedom Convoy — ou Comboio da Liberdade — antes de parar na capital, Ottawa, onde estão bloqueando as estradas e provocando escândalos entre os liberais de classe média, que não conseguem entender por que esses brutos não continuam transportando sacos de couve para o supermercado do bairro e param de exigir seus irritantes direitos.

Houve uma enxurrada de apoio. Canadenses e americanos cansados do corona-autoritarismo estão aplaudindo os caminhoneiros por fazer um grande buzinaço coletivo contra o consenso elitista da covid-19. Apesar dos melhores esforços de políticos e colunistas descolados para retratar os caminhoneiros como membros do QAnon sobre rodas, como uma versão motorizada da Marcha sobre Roma de Mussolini. Muitas pessoas sabem que, na verdade, eles são trabalhadores decentes que apenas se opõem ao Estado dificultar um pouco mais suas vidas.

Um movimento revoltado e estranhamente pacífico

As pessoas também sabem que o conjunto de tentativas woke de deslegitimar o Freedom Convoy apontando comentários de “extrema direita” feitos por um pequeno punhado de caminhoneiros é uma tática tão antiga quanto o próprio capitalismo. Oponentes de elite da organização da classe trabalhadora sempre usaram difamação e insinuações para tentar neutralizar uma multidão. Ao enxergar essa campanha de difamação pelo que ela é, muita gente decidiu dar alguns dólares para os caminhoneiros. Mas o GoFundMe teve outra ideia. A empresa afirma que os 10 milhões de dólares canadenses arrecadados pelo site, em uma página chamada “Freedom Convoy 2022”, não serão entregues aos caminhoneiros. Ela cita relatórios da polícia sobre “violência” no comboio.

Que violência? Onde? Milhares e milhares de pessoas se juntaram aos protestos dos caminhoneiros e, no entanto, só houve três prisões. Uma pessoa foi detida por posse de arma, outra por “danos” e mais uma por fazer uma ameaça nas redes sociais. Em se tratando de protestos de massa, foi nível muito baixo de comportamentos supostamente criminosos.

O ataque woke ao Freedom Convoy é descaradamente elitista

Certa vez, visitei um acampamento do Occupy, na catedral de St Paul’s, em Londres, e vi pelo menos três delitos na uma hora que passei lá: urinar em público, ameaça e perturbação da paz por homem sob o efeito de heroína que ficava gritando “VÁ SE FODER”. Para um movimento de massa revoltado e furioso, o Freedom Convoy é estranhamente pacífico. A “violência” de que o GoFundMe fala é claramente um pretexto oportunista para uma decisão política de punir os caminhoneiros.

Na sexta-feira, a empresa publicou uma declaração afirmando que o Freedom Convoy era um movimento pacífico quando começou, mas que de lá para cá “se tornou uma ocupação”. E, por isso, “mais nenhum fundo será encaminhado diretamente aos organizadores do Freedom Convoy”. Em vez disso, os 9 milhões de dólares canadenses que continuam nos cofres do GoFundMe serão distribuídos para organizações beneficentes “confiáveis” ou devolvidas para os doadores que preencherem um formulário.

Dois pesos, duas medidas

Como que para deixar bastante claro que tudo isso é muito político, o Facebook removeu uma página que promovia um Freedom Convoy em Washington, DC e apagou a conta pessoal do caminhoneiro que a criou. “É censura na sua melhor forma”, disse o homem em questão. Ele não está errado. Parece um caso clássico de as novas oligarquias do capitalismo se alinhando ao establishment político — neste caso, o primeiro-ministro, Justin Trudeau — para diminuir e silenciar os gritos de pessoas simples que desafiam o consenso.

Quer venha dos guardiões assustadoramente poderosos da internet ou dos críticos dos caminhoneiros, o ataque woke ao Freedom Convoy é descaradamente elitista. As pessoas que condenam os bloqueios dos caminhoneiros em Ottawa são as mesmas pessoas que teriam aplaudido as marionetes chiques do movimento Insulate Britain quando elas tomaram a M25 e outras vias importantes do Reino Unido.

Os politicamente corretos preocupados que o Freedom Convoy tenha se tornado uma ocupação — o horror! — sem dúvida foram fãs do Occupy Wall Street e do Occupy St Paul’s. A razão para essa hipocrisia de “dois pesos, duas medidas” é totalmente clara. Os movimentos Insulate Britain e Occupy foram criados por pessoas eloquentes e de boa formação que, com todas as suas pretensões radicais, na verdade repetiram os consensos de autodesprezo do capitalismo do século 21. Ao passo que os caminhoneiros de boné e buzina do Freedom Convoy e da ocupação de Ottawa são pessoas da classe baixa que lutam contra os consensos políticos e morais das novas elites governantes. Então o primeiro grupo é considerado descolado e pode continuar existindo, enquanto o segundo precisa ser detido de todas as formas necessárias.

A nova classe dominante

A interferência anticlasse trabalhadora do GoFundMe na distribuição dos fundos faz parte da arrogância cada vez maior do Vale do Silício. Esses milionários e bilionários que não prestam contas e controlam setores-chave da internet deixaram escancaradamente clara sua disposição para interferir na vida democrática. Temos o Twitter e o Facebook censurando Donald Trump, presidente dos Estados Unidos na época. O Spotify está sofrendo pressão para silenciar ou pelo menos repreender vozes anti-woke, como Joe Rogan. Diversas redes sociais controlam rigidamente o que podemos dizer sobre sexo, gênero, raça, imigração e outras questões, e silenciam qualquer um que desvie da linha “correta”. Essas empresas exercem um enorme controle sobre a praça pública do século 21. Estão, unilateral e alegremente, punindo e excluindo qualquer um que desvie dos ditames morais na nova classe dominante.

A privação de fundos dos caminhoneiros revoltados leva tudo isso um passo além. Essa é uma empresa com fins lucrativos (o capitalismo) agindo contra os interesses dos motoristas de caminhão enfurecidos (a classe trabalhadora). No passado, as pessoas boicotavam empresas e corporações que quebravam sindicatos, em um esforço de mandar uma mensagem para os arrogantes reis do capital. Proponho fazermos o mesmo agora. De minha parte, eu não vou mais usar o GoFundMe, agora que descobri que a empresa está disposta a confiscar milhões de dólares dos trabalhadores cujo único crime é acreditar que suas informações médicas não deveriam ser uma barreira para o seu direito de ganhar a vida.


Brendan O’Neill é o repórter-chefe de política da Spiked e apresentador do podcast da SpikedThe Brendan O’Neill Show. Ele está no Instagram: @burntoakboy

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10 comentários Ver comentários

  1. Me desculpem mas, perdi até o interesse na leitura da materia por causa de ter ta logando cada vez que entro para fazer a leitura da revista. Isso ta enchendo. As vezes pede duas vezes na mesma reportagem (aconteceu hoje novamente).
    Por favor resolvam isso, antes que eu desista.

      1. Outra coisa… é bom dar uma olhada na revisão dos textos traduzidos, como esse. Mesmo que tenham que alterar um pouco as palavras. Revejam o primeiro parágrafo, por exemplo. Faltam algumas vírgulas, não está fluido.

  2. A forma como essa sitação está escalando, em várias partes do mundo, me faz pensar que isso só pode terminar em conflito armado. O povo não vai mais abaixar a cabeça para essa cartilha asqurosa de Trudeau, Macron, Biden, Doria, Eduardo Leite, etc, etc…

  3. Estamos em um novo dilema ético, sobre o poder digital das “BigTechs”, que hoje são o 4º Poder. Temos que lutar pela LIBERDADE de expressão em todos os meios digitais. Concordo em boicotarmos todas “BigTechs” que interfiram em nossa LIBERDADE.

  4. Excelente artigo. Parabéns. O ideal seria que as pessoas, como eu, não utilizassem nenhuma rede social ou qualquer coisa semelhante que é adepta desse movimento woke.

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