A água, símbolo dos Estados Unidos, e o dragão chinês | Ilustração: Shutterstock
A água, símbolo dos Estados Unidos, e o dragão chinês | Ilustração: Shutterstock

O Ocidente já perdeu?

Supostamente, os EUA estão em declínio e a civilização ocidental, em ruínas. Será mesmo?

É desolador o panorama que se apresenta quando o objeto da análise é a civilização ocidental. Vladimir Putin não teria tentado ressuscitar a Grande Mãe Rússia e iniciado sua estripulia militar sanguinária na Ucrânia se o Ocidente tivesse líderes fortes. A ordem liberal que preconiza o Estado de Direito, a garantia da propriedade privada e as liberdades individuais está em declínio, e o mundo está ficando menos democrático — de acordo com a Edição 2021 do Global Democracy Index, da revista britânica The Economist, apenas 6,4% da população mundial vive em democracias plenas; é o pior resultado desde o início do levantamento, em 2006. Tem mais. Xi Jinping já declarou que o plano do Partido Comunista Chinês é estabelecer “um novo modelo de governança global”, seu país investe pesadamente na Nova Rota da Seda, um ambicioso projeto de infraestrutura que implementará um conjunto de novos itinerários comerciais por terra e mar, e a economia chinesa deve ultrapassar a norte-americana em 2033.

A propalada débâcle ocidental não se expressa apenas na política e na economia. Numerosos analistas dão conta de que a guerra cultural já está perdida. Do TikTok ao Fórum de Davos, da Netflix aos comitês de ESG das grandes corporações, das ONGs às big techs, é só chibata. O Oeste entrou num piro dramático de autoflagelação para expiar os pecados capitais denunciados pelos cavaleiros woke identitários, pela turma de movimentos como Antifa e Black Lives Matter. Nas universidades e na imprensa, a civilização ocidental é frequentemente apontada como produtora de exploração impiedosa e desigualdade social, berço de impérios colonialistas carniceiros, racista e criadora de estruturas que subjugam as mulheres e as minorias.

Em 2050, China e Rússia terão uma redução de nada menos que 20% no número de pessoas com capacidade produtiva

Dado o contexto, parece elementar presumir que o farol do Ocidente está com os dias contados. O Império Americano vai ruir em breve. Os Estados Unidos se tornarão apenas uma sombra do que já foram. E, com os Estados Unidos definhando, todo o ideário ocidental fica à míngua, o Oeste vira História, sem futuro.

Podemos encomendar o mausoléu, certo? Calma. Respire fundo. Conte até dez.

Em primeiro lugar, convém considerar que são os jovens e os imigrantes que têm potencial, energia e disposição ao risco para construir um futuro próspero, com inovação, dinamismo e capacidade de atração de talentos. Em 2050, China e Rússia terão uma redução de nada menos que 20% no número de pessoas com capacidade produtiva, segundo projeções da ONU. Em contraste, os Estados Unidos, de acordo com o mesmo estudo, verão sua população em idade ativa crescer 12% — sem o fator imigração, o país teria uma redução de 4,5% no número de indivíduos economicamente ativos.

Diz o escritor indiano-norte-americano Fareed Zakaria, em artigo para o jornal The Washington Post: “Imigração significa uma economia mais robusta. Os Estados Unidos têm administrado a imigração melhor do que a maioria dos outros países. Recebe pessoas de todos os lugares, elas são assimiladas e integradas ao tecido da sociedade, e os novos imigrantes sentem-se tão motivados quanto os velhos”.

Times Square, em Nova Iorque | Foto: Luciano Mortula/Shutterstock

Hoje, cerca de 15,5% da população norte-americana é composta de imigrantes — são mais de 50 milhões de pessoas. A China tem pouco mais de 1 milhão de imigrantes, o equivalente a 0,07% da população. O passaporte azul continua tendo um valor infinitamente superior ao do passaporte vermelho. E isso se reflete no interesse pelo aprendizado do idioma. No mundo, mais de 700 milhões de cidadãos têm inglês como segunda língua. No caso do mandarim, são 180 milhões.

Além dos dados relacionados à imigração, a conta do PIB per capita também precisa ser considerada. Embora a economia chinesa, como um todo, vá superar a norte-americana na próxima década, a geração de riqueza por indivíduo continuará muito maior nos Estados Unidos: em 2050, vai transpor a faixa dos US$ 80 mil por ano, ante pouco mais de US$ 20 mil na China.

Tian’anmen Rostrum, em Pequim (China) | Foto: Shutterstock

No campo da disputa por corações e mentes, os US$ 10 bilhões que o Partido Comunista Chinês gasta por ano na difusão da cultura do país não têm sido suficientes. Aulas de kung fu para jovens africanos e conferências sobre a sabedoria confucionista em universidades ocidentais geram interesse, óbvio, mas não parecem ter o poder de mudar o tal do mindset. Ou você imagina que em Buenos Aires ou Kampala, em Johannesburgo ou Jacarta, a pré-estreia de um filme como A Batalha do Lago Changjin, a mais bem-sucedida produção chinesa de 2021, atrairá um público maior que o lançamento do novo Batman?

Um grupo de analistas internacionais acredita que as aspirações chinesas de dominação mundial podem estar sendo anabolizadas pela maior parte dos observadores — sem má-fé, apenas pelo alarmismo atávico dos que atuam no métier. Segundo essa interpretação contrária ao senso comum, a China estaria mais interessada em assegurar sua ascendência estratégica no leste da Ásia e ampliar seus negócios com todos os países, independentemente do eixo de influência ao qual estejam associados, do que em criar uma nova ordem planetária. O mencionado “novo modelo de governança global” seria um alerta retórico para o Ocidente não criar dificuldades e deixar o país expandir seu comércio sem travas, como regulações ambientais impeditivas.

Fatos e dados sobre a mesa, é bastante provável que os Estados Unidos sigam como o farol do mundo, malgrado o eventual ocupante da Casa Branca, hoje e no futuro — nesse sentido, a guerra na Ucrânia pode até fortalecer a aliança ocidental liderada pelo país e trazer a China para perto. Para uma certa classe média alta bem-pensante, que tem o luxo de discutir os prognósticos distópicos para a civilização ocidental entre taças de pinot noir, os Estados Unidos podem até estar caminhando para o desfiladeiro. Mas, para quem quer produzir e gerar riqueza, viver em liberdade e educar bem os filhos, a América é e será por muitos e muitos anos o melhor lugar. Até porque, embora milhões de indivíduos se submetam contingencialmente a regimes autoritários, a vocação para ser livre está no DNA da nossa espécie.


Kaíke Nanne é jornalista. Foi publisher nos grupos Abril, Time Warner e HarperCollins. Atuou como repórter, editor e diretor em diversas publicações, entre elas Veja, Época, Playboy, Claudia e Oeste

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7 comentários Ver comentários

  1. Já que o autor citou THE ECONOMIST para falar sobre democracias pelo mundo . É preciso lembrar que este periódoco não é muito confiável para falar sobre o que seja democracia . Basta ver o que eles publicam sobre o Brasil . Se guiam pela extrema imprensa do Brasil e análises feitas por ¨democratas¨ tipo Miriam Leitão . Para o jornal , o presidente atual é um perigo para a democracia , quando nós habitantes do Brasil real , sabemos quem ameaça a nossa democracia .

  2. O desdém pela civilização ocidental é um sintoma de uma causa mais profunda, que é uma crise existencial, crise de valores.
    Todos os sistemas, físicos ou sociais, tendem à deterioração, por isso necessitam de uma energia externa para que mantenham o equilíbrio. Nas sociedades, essa energia são os valores humanos desenvolvidos ao longo da história por pensadores e religiosos.
    O progresso material não implica necessariamente em liberdade individual, vide a China. Por outro lado, liberdade individual sem responsabilidade, sem valores humanos, abre as portas à corrupção moral que acaba corroendo o tecido social e a própria democracia.
    Por um lado, a ordem global ocidental que se antevê parece ignorar esses valores humanos, ao considerar apenas as necessidades materiais, relegando as necessidades espirituais a um segundo plano. É aí que entram os cavaleiros da engenharia social financiados por Soros e companhia. Por trás de um discurso enganoso de democracia e liberdade, o que se busca é construir um governo tecnocrático global, de controle social com o apoio da tecnologia. A pandemia foi uma oportunidade ímpar para realizar um grande experimento de laboratório. Até o conceito de ciência adquiriu uma conotação dogmática de verdade oficial e universal, tal como a doutrina escolástica na Idade Média. Um 1984 à moda ocidental.
    Por outro lado, o modelo de governança global chinês é materialismo histórico na veia, adeus às conquistas trabalhistas, é escravidão moderna, é o imperialismo em vastas regiões de África e do sudeste asiático. A única esperança reside na milenar cultura chinesa, portadora de valores humanos que podem conduzir a uma sociedade livre e democrática, talvez por isso o regime comunista oprime todas essas manifestações. É uma pena que o Ocidente desconheça essa cultura e a considere inferior à cultura ocidental (aliás, o Ocidente parece desconhecer o que de melhor a sua própria cultura produziu). Se o povo chinês for incapaz de mudar o regime por dentro, o imperialismo comunista seguirá avançando e o choque com o Ocidente (a Austrália é o alvo mais imediato) será inevitável.
    Sim é verdade que a liberdade está em nosso DNA, mas se não vier acompanhada da noção de responsabilidade não adianta. De fato, a esperança está na juventude, mas isso depende de quão eficaz foi a transmissão dos valores tradicionais que constituem o patrimônio cultural da humanidade formado por distintas culturas, pelas gerações anteriores. Não é à toa que a interferência do Estado na educação infantil seja uma ideia tão atraente, tanto em grande parte do Ocidente quanto em países comunistas.

  3. Esse temor da força do Leste também existiu durante a guerra fria e em outros momentos da história, mas, como a autora, sou otimista quanto ao futuro do planeta na base da intersecção econômica e cultural!
    A China é cada vez mais capitalista e seu povo gosta de enriquecer!

  4. Não se pode negar que o American way Life ainda terá o poder de influenciar o mundo ocidental, importando as mazelas da atual cultura woke. Todavia, é inegável a ascensão da China, com sua diplomacia do dinheiro e o restabelecimento da rota da seda, particularmente, na África e agora espraiando para América Latina, que vem contrabalançando a influência americana e europeia.

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