Milhões de americanos assistiram pela televisão a uma longa e lenta perseguição policial nas rodovias de Los Angeles, na tarde de 17 de junho de 1994. Dentro de um Ford Bronco branco estava Orenthal James Simpson — mais conhecido como O.J. Simpson ou “The Juice”, para os mais próximos —, de 46 anos, ex-jogador da NFL, ator e uma das celebridades mais reconhecidas dos Estados Unidos.
Cinco dias antes, em 12 de junho, Nicole Brown Simpson, ex-esposa de O.J., e seu amigo Ronald Goldman haviam sido encontrados mortos a facadas em frente à residência de Nicole, em Brentwood, um bairro de classe alta de Los Angeles. A brutalidade do crime chocou o país e rapidamente o caso virou notícia nacional.

Em 17 de junho, Simpson deveria se entregar às autoridades após ser formalmente acusado dos assassinatos. Em vez disso, desapareceu. Horas depois, a polícia localizou o famoso Bronco branco, dirigido por seu amigo Al Cowlings. O.J. estava no banco traseiro. Segundo relatos, ele carregava uma arma e ameaçava tirar a própria vida.
O que se seguiu foi uma perseguição extremamente incomum. Diferentemente das caçadas policiais de alta velocidade, o Bronco avançava lentamente pelas rodovias da Califórnia, muitas vezes a menos de 60 quilômetros por hora. Viaturas da polícia o acompanhavam à distância, enquanto helicópteros transmitiam imagens ao vivo para todo o país.
A audiência foi colossal. Estima-se que cerca de 95 milhões de pessoas acompanharam o evento pela televisão. Muitas emissoras interromperam sua programação regular para exibir a perseguição em tempo real. A cobertura da final da NBA entre o New York Knicks e o Houston Rockets foi dividida na tela com imagens do Bronco branco. O jogo decisivo da série praticamente competia com uma das maiores coberturas jornalísticas da década.


Ao longo do trajeto, milhares de pessoas se reuniram em pontes e acostamentos. Algumas carregavam cartazes de apoio à Simpson, outras simplesmente observavam o desenrolar de um espetáculo que parecia ficção. Depois de percorrer cerca de 100 quilômetros, o Bronco finalmente chegou à mansão de Simpson em Brentwood. Após longas negociações, ele se rendeu pacificamente à polícia.
Mas a perseguição foi apenas o início.
O julgamento que se seguiu transformou-se em um fenômeno cultural sem precedentes. Iniciado em janeiro de 1995, o processo reuniu na defesa uma equipe de celebridades jurídicas apelidada pela imprensa de “Dream Team”. Durante meses, o público acompanhou depoimentos, análises de DNA, debates sobre procedimentos policiais e discussões sobre racismo, confiança nas instituições e desigualdade no sistema de justiça americano.
Um dos momentos mais famosos ocorreu quando Simpson tentou vestir uma luva encontrada na cena do crime. A peça aparentemente não serviu em sua mão, levando o advogado de defesa Johnnie Cochran a apresentar a frase ao júri que entraria para a história: “If it doesn’t fit, you must acquit” (“Se não serve, vocês devem absolver”).


Finalmente, em 3 de outubro de 1995, o país praticamente parou mais uma vez. Pela primeira vez, um processo criminal foi acompanhado quase como um reality show. Escolas ligaram televisores em salas de aula, escritórios interromperam atividades e milhões de pessoas acompanharam a leitura do veredito. Em menos de quatro horas de deliberação, o júri declarou O.J. Simpson inocente das acusações criminais pelos assassinatos de Nicole Brown Simpson e Ronald Goldman.
A decisão provocou reações intensas e divididas em todo o país. Para alguns, representava uma vitória contra possíveis abusos policiais. Para outros, era um grave erro judicial diante das evidências apresentadas. Décadas depois, o caso continua sendo objeto de debates, documentários, livros e estudos acadêmicos.
A história ganhou uma adaptação elogiada na série The People v. O. J. Simpson: American Crime Story, disponível na Netflix em diversos países ao longo dos últimos anos. A produção revisita os bastidores do julgamento e mostra como um caso criminal acabou se transformando em um dos maiores fenômenos midiáticos do século 20.
Daniela Giorno é diretora de arte de Oeste e, a cada edição, seleciona uma imagem relevante da semana. São fotografias esteticamente interessantes, clássicas ou que simplesmente merecem ser vistas, revistas ou conhecidas.
Leia também “Imagem da Semana: Pentagon Papers”
Parabéns pela detalhada reportagem sobre esse caso emblemático que até hoje desperta desconfiança e incredulidade.