O antropólogo Antonio Risério | Foto: Reprodução/ YouTube
O antropólogo Antonio Risério | Foto: Reprodução/ YouTube

“A esquerda sempre foi adepta do regime ditatorial”

O antropólogo Antonio Risério diz o que pensa sobre a polarização política que tomou conta do país, democracia, censura e as recentes acusações de racismo que sofreu

Em janeiro deste ano, o antropólogo Antonio Risério foi alvo de um bombardeio da esquerda por causa de um texto publicado na Folha de S.Paulo. Acabou acusado até de “supremacista branco” por cerca de 180 jornalistas, que escreveram uma carta aberta à direção para expressar sua “preocupação com a publicação recorrente de conteúdos racistas nas páginas do jornal”.

Nesta entrevista, Risério comenta esse episódio e diz o que pensa sobre a polarização política que tomou conta do país, democracia, censura e o que chama de “nova esquerda brasileira”. “Marx foi jogado no lixo”, afirma. “Observando a paisagem, vejo não só que hoje temos uma esquerda de costas para o mundo — como nossos partidos políticos soi disant de esquerda estão mais próximos do Magazine Luíza do que de Leonel Brizola”.

Confira os principais trechos da entrevista:

Alguns setores da esquerda brasileira consideraram seu mais recente livro, Sobre o Relativismo Pós-Moderno e a Fantasia Fascista da Esquerda Identitária, uma traição ao seu passado engajado na eleição de Lula. Como o senhor responde a essas acusações?

Essas pessoas, além de ignorantes, são irresponsáveis. Adoram discursar não só sobre o que não conhecem, mas também sobre quem não conhecem. Em 1998, quando dei meu voto pela reeleição de Fernando Henrique Cardoso, dizia aos mais próximos: vou votar em Fernando Henrique, para que da próxima vez seja Lula. No final de 2001, me engajei na campanha de Lula, participei de uma reunião com ele e a cúpula do PT em Salvador, no apartamento de Duda Mendonça. Em seguida, me mudei para um hotel em São Paulo, pago pelo partido, e mergulhei em tempo integral na campanha. Mas, assim como nunca concordei in totum com as ideias de FHC e do PSDB, nunca concordei com as de Lula e do PT. Nessa campanha de 2002, aliás, Lula jogou no lixo parte fundamental da cartilha petista e, eleito, levou isso adiante, ao adotar a política econômica de Pedro Malan, ao tempo em que, da boca para fora e cinicamente, atacavam uma suposta “herança maldita”. Mas essa turma aí, hoje, não conhece, não lê nada, tem fantasias irreais com Lula, que parecem também não conhecer bem. Quando soube do pré-sal e vi como o pessoal da cúpula do PT estava se movimentando com relação ao assunto, disse várias vezes em conversas na casa que sediava o marketing: “Isso vai dar merda”. E deu. Nunca pertenci à família petista. Fui aliado, só isso. Ah, e essa turma que me ataca anda por aí agora tendo de lidar com o “companheiro Alckmin”, não é isso?

O senhor acredita que a esquerda brasileira esteja caminhando a passos largos e definitivos rumo ao autoritarismo consciente?

Historicamente, a esquerda brasileira sempre foi, na sua maior parte, adepta do regime ditatorial. Esquerda democrática sempre foi minoria, exceção. Era a lição de Lênin, dos bolcheviques que consideravam a democracia um artifício burguês para perpetuar a dominação de classe. Antes dele, Engels criou a fórmula “ditadura do proletariado”, que tanto sucesso fez. O próprio Bernard Shaw defendeu a ditadura, dizendo não entender por que os norte-americanos a rejeitavam. Quando militei na esquerda clandestina, durante a ditadura militar, sempre fomos claros a esse respeito: democracia, para nós, era palavrão. É ridículo ver Dilma Rousseff, que militou na mesma organização clandestina de que fiz parte, a Polop (Organização Revolucionária Marxista Política Operária), dizer que, durante a ditadura militar, lutou pela democracia. É mentira. Nenhum de nós, na esquerda clandestina radical, lutou pela democracia. Nosso programa era substituir a ditadura militar pela ditadura do proletariado. Hoje, essa turma da militância identitária não só quer impor a ditadura do pensamento único, como também aponta para o totalitarismo. A maior diferença é que defendíamos abertamente a ditadura comunista. E essa gente, hoje, faz tudo isso no maior cinismo. Hoje, são ditatoriais em nome da democracia, assim como podem ser racistas em nome do antirracismo. Agora mesmo, criaram uma faculdade só para pretos na Bahia e a campanha publicitária diz que é a primeira faculdade “antirracista”… É o “orwellian twist” do discurso.

O pensamento da esquerda mudou nas últimas décadas?

Marx foi jogado no lixo, meu caro. Recentemente, o jornalista argentino Alejo Schapire, em entrevista à Letras Libres, a propósito do lançamento do seu livro La Traición Progresista, considerou que esta esquerda multicultural-identitária teve de dar um cavalo de pau formidável para jogar fora o antigo ideário marxista e chegar a se associar à intolerância, ao puritanismo, ao totalitarismo terceiro-mundista, ao obscurantismo, ao antissemitismo ou ao neorracismo de um modo geral. Com a desintegração da antiga União Soviética, o comunismo e o socialismo tradicionais entraram em parafuso, perdendo os seus pontos de apoio. Assim, a esquerda emergente, identitária, apostando em qualquer direção supostamente contrária ao “imperialismo ocidental”, adotou o muçulmano ou o negro, fantasiando-o de arquétipo do “oprimido”, como sucedâneo do proletariado. Uma aposta no escuro, claro. Observando a paisagem, vejo não só que hoje temos uma esquerda de costas para o mundo — como nossos partidos políticos soi disant de esquerda estão mais próximos do Magazine Luíza do que de Leonel Brizola. A liberdade de expressão não se resume, de modo algum, ao poder falar, mas também, e penso que principalmente, à possibilidade de que o outro possa apresentar uma réplica à sua fala. Porque o que mais temos hoje são milícias de militantes ferozes que querem calar toda e qualquer réplica. Isto é, autoproclamados libertários atuando como liberticidas, paradoxo do ataque à liberdade de expressão em nome da liberdade.

O senhor acredita que vem sendo censurado por essa nova esquerda?

O que você chama de “nova esquerda brasileira” não merece esse nome. É uma cópia defasada da esquerda cultural ou acadêmica norte-americana da passagem da década de 1970 para a de 1980. Botaram uma falsa maquiagem tropical e só. A Folha de S.Paulo entrou em pânico com a barulheira identifascista e se dobrou à reivindicação pró-censura. Na prática, porque no discurso tratam de dourar a pílula. Eles se recusaram a publicar um artigo meu e ponto. Ou eu dizia as coisas que eles queriam que eu dissesse ou nada feito, ficariam me enrolando ad aeternum. Eles não têm a dignidade de assumir a censura.

Hoje já nem digo mais que o nível está muito baixo porque nem sequer nível vemos mais

O senhor foi acusado por colunistas da Folha de racismo, de “diminuir e atacar movimentos negros e demais minorias” e até de “supremacista”. O que o senhor tem a dizer sobre essas acusações?

Não perco meu tempo com a boçalidade semiletrada. Aliás, adoto também o seguinte procedimento: quando me vejo em meio a algum tiroteio, não tomo conhecimento de ataques contra mim. Leio com atenção os que discordam com argumentos consistentes. Ou seja: escolho criteriosamente meus adversários, que são pessoas com as quais é possível (e, às vezes, enriquecedor) conversar. Mas ataques não leio. Meus amigos mais próximos sabem disso e não me importunam com os rabiscos dessas caricaturas espumejantes. Durante essa brigalhada recente, por exemplo, eu sabia que estavam me atacando violentamente. Só. Não li nada. Na verdade, quando estou numa situação polêmica, costumo ler coisas que nada têm a ver com o assunto. Desta vez, por exemplo, aproveitei para ler As Viagens de Marco Polo e a Epopeia de Gilgámesh, tal como ordenada por Sin-léqi-unnínni. E aprendi coisas, o que jamais aconteceria se eu fosse perder meu tempo com rabiscos de detratores profissionais, com militantes e milícias identitárias.

O senhor já participou efetivamente das campanhas petistas e defendeu teses socialistas em suas atuações. Houve alguma espécie de revisão de ideias?

Não mudei nada. Continuo no campo da esquerda democrática e continuo pensando com independência, imune a dogmas, pressões e clichês. Eles também não mudaram, apenas deram um salto quantitativo espetacular, agregando milhares de milicianos para apedrejar quem não reza pela cartilha deles. Mas veja. Na Bahia, em 1981, quiseram fazer uma fogueira com meu livro de estreia, Carnaval Ijexá, em resposta às minhas críticas a certas propostas e programas dos movimentos negros. Foram dissuadidos. Anos depois, embora tivessem me prometido uma discussão arrasadora, silenciaram sobre meu livro A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros. Resolveram fazer de conta que ele não existia. Num encontro na universidade, em Minas Gerais, uma comissária-professora foi contestada pelo historiador Amon Pinho, que citou A Utopia…, expondo o tema da escravidão de negros por negros na África, antes da chegada dos europeus. A comissária-professora não se deu ao trabalho de contestar meu texto, claro, limitando-se a dizer que a melhor coisa que Amon podia fazer era queimar o livro. O historiador ficou perplexo, com aquela defesa esquerdista de um procedimento típico do nazismo e de outros autoritarismos.

O Brasil se encontra extremamente polarizado, e duas ideias políticas ganham proeminência no cenário atual, a esquerda identitária e o liberal-conservadorismo. Como o senhor acha que serão os próximos anos políticos brasileiros?

Vivemos hoje tempos de penúria ideológica. Não me lembro de nenhuma outra época em que o pensamento político brasileiro tenha sido tão pobre. Já tivemos uma esquerda brilhante, de Caio Prado Júnior a Ruy Mauro Marini, passando por Florestan Fernandes. E já tivemos, também, uma direita brilhante, de Gilberto Freyre a José Guilherme Merquior, passando por Nelson Rodrigues. Mas hoje já nem digo mais que o nível está muito baixo porque nem sequer nível vemos mais.

Hoje em dia, o senhor assume publicamente alguma vertente política?

Estou onde sempre estive, desde que me afastei da esquerda totalitária no início da década de 1970 e mergulhei tanto na viagem da contracultura quanto na luta pela redemocratização do Brasil. Por falar nisso, essa luta foi vitoriosa apesar de muita coisa, inclusive da intervenção desastrada e desastrosa da esquerda armada. Quem a conduziu foram, sobretudo, os democratas do velho MDB (não dessa merda de hoje), como Ulysses e Tancredo, setores progressistas da Igreja Católica, a CNBB, artistas e intelectuais igualmente compromissados com a democracia, jornalistas de verdade reunidos na ABI. De lá para cá, nunca abri mão da democracia, em seu sentido mais largo e genuíno. E me defino no campo da esquerda democrática porque não me limito a lutar por democracia política, institucional, mas também, no mesmo plano, por democracia social e cultural. É tão simples assim.

O senhor acredita que exista um movimento articulado de reação ao identitarismo se iniciando no país? Se não, como unir liberais, conservadores e socialistas sensatos em torno dessa pauta?

Não é um “movimento articulado”. São pessoas e grupos agindo por si mesmos, mas sem nenhuma articulação maior entre si. Nossos partidos políticos se pelam de medo diante desses temas. Querem ampliar seus quadros e descolar mais votos. Debater, que é bom, nunca. Um querido amigo, o ex-deputado federal Domingos Leonelli, me disse certa vez, numa conversa em minha casa, na Ilha de Itaparica, que eu podia encarar e enfrentar os identitários, porque era um intelectual independente. Mas que ele e seus companheiros eram políticos — e, portanto, não podiam fazer a mesma coisa. Fiquei completamente perplexo com o que ouvi. Porque grandes políticos do passado, de Churchill a Trótski, sempre discutiram tudo. Agora, temos grupos e associações de mestiços se formando no país contra o fato de “os pardos” terem sido engolidos e virado massa de manobra dos racialistas neonegros. Temos, também, alguns jornalistas e intelectuais que batem pé em defesa da liberdade de pensamento. Artistas e professores, nem tanto, parecem mais intimidados pela fúria identitária. Reuni um grupo de jornalistas e intelectuais e vamos lançar uma coletânea, A Crise da Política Identitária, que será publicado pela editora Topbooks, de José Mario Pereira. Então, não vejo articulação, mas iniciativas. E espero, em todo caso, que nossos políticos e partidos tomem vergonha na cara e engrossem o caldo em favor da ampliação dos debates. Só assim vamos conseguir superar a imposição desse absurdo de que o Brasil é uma nação bicolor e não mestiça. Só assim poderemos sair do beco sem saída dos fundamentalismos fascistoides de direita e de esquerda.

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