Volodymyr Zelensky encontra tropas ucranianas na linha de frente | Foto: Reprodução/Ukrinform
Volodymyr Zelensky encontra tropas ucranianas na linha de frente | Foto: Reprodução/Ukrinform

A grandeza da mediocridade

O heroísmo de Volodymyr Zelensky é medido pela nossa desimportância

O heroísmo do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, tem sido estupendo. Ainda mais por vivermos em uma época de políticos insignificantes. Ou melhor, de pessoas que não podem nem ser chamadas de capituladoras, porque para capitular é preciso ter princípios prévios. E nossos líderes não têm nenhum princípio além da busca por um mandato.

Zelensky, que não era um homem nada admirado quando os russos invadiram seu país, tendo sido o vulgar quase militante que uma carreira televisiva como a dele exigia (não que qualquer um seja obrigado a ter uma carreira na televisão), passou a ser uma fonte de heroísmo que envergonha a maioria dos líderes. Claro, se você quer ser um herói, pode ser útil ter uma situação bem definida em que se é um herói ou um covarde, uma vez que a maior parte das opções é consideravelmente mais ambígua. Mas o heroísmo continua sendo heroísmo.

De novo, o heroísmo é uma dessas virtudes que requerem uma qualidade adicional para torná-la verdadeiramente admirável. Afinal, é possível ser heroico em uma causa abominável. Os políticos ocidentais que chamam homens-bomba islâmicos de covardes são idiotas: eu gostaria de vê-los explodindo! Ninguém que planeja e executa um bombardeio suicida é covarde. Ao contrário, eles são muito corajosos, mas essa coragem de maneira nenhuma traz brilho ao ato. Ao contrário, esses homens desonram a própria virtude da coragem.

Agora, o heroísmo de Zelensky está em uma boa causa: me parece uma amostra impressionante de audácia, digna da escola de falsidade de Stálin, o senhor Putin afirmar que, ao invadir a Ucrânia e bombardear alvos civis, ele está “eliminando o nazismo”. Ao contrário, é totalmente óbvio que sua própria conduta e a justificativa para essa conduta se parecem muito com as dos nazistas.

Mas talvez isso não devesse me surpreender tanto: a única vez que encontrei uma multidão supostamente antifascista na Inglaterra (ela era bem pequena), foi uma forte lembrança de um comportamento fascista. Seus membros estavam usando roupas pretas e máscaras e promovendo violência contra pessoas e propriedades. Eles repetiam gritos de guerra, como se a repetição garantisse a verdade, e a veemência garantisse a retidão. A intimidação era seu argumento favorito. Aliás, era o único.

Um pianista num campo de futebol

No entanto, temo que a elevação de Zelensky ao status de herói mais cedo ou mais tarde (provavelmente mais cedo) seja seguida da descoberta de um defeito ou uma fraqueza — que todos nós temos. Parece que o desejo ou a necessidade de trazer heróis para o nosso próprio nível é tão grande quanto o nosso desejo ou a nossa necessidade de ter heróis.

Biografias de figuras que costumavam ser admiradas raramente deixam de trazer revelações de que o biografado tinha muitos vícios que prejudicam a conquista da nossa admiração. E, apesar de sermos multiculturais, julgamos nossas figuras pelos padrões mais absolutos e rigorosos do momento atual, sem nunca nos ocorrer que nossos padrões atuais podem, eles mesmos, mudar um dia ou até mesmo ser condenados por gerações posteriores. Somos multiculturais apenas na geografia, não no tempo: nosso provincianismo no tempo é absoluto.

Ficamos envergonhados com a nossa própria mediocridade e, por isso, tentamos reduzir o extraordinário ao nosso próprio nível mesquinho

A necessidade de reduzir heróis ao nosso nível enfatizando seus defeitos e suas falhas morais é interessante. O que isso nos diz sobre nós mesmos? Ficamos envergonhados com a nossa própria mediocridade e, por isso, tentamos reduzir o extraordinário ao nosso próprio nível mesquinho. Um cientista brilhante roubou suas ideias de um assistente do laboratório. Um autor famoso plagiou seu melhor livro de outro autor obscuro e injustamente menosprezado. E ficamos feliz de descobrir tudo isso, porque sentimos alívio em relação aos nossos próprios complexos de inferioridade.

Mas por que sentimos vergonha da mediocridade? Afinal, é inevitável que todos nós sejamos medíocres na maior parte das coisas. E se não temos nenhuma aptidão especial para nada, não é nossa culpa. A pessoa mais bem dotada é medíocre na maior parte das coisas, assim como o intelectual mais erudito é infinitamente ignorante. Coloque um pianista de concerto em um campo de futebol ou sente um jogador de futebol diante de um piano Steinway, e é improvável que o resultado seja edificante, ainda que possa ser divertido por um instante.

O homem é um animal comparador

Considerando sua predominância, a mediocridade é um tema muito negligenciado. Penso nele com muita frequência, ainda que não de forma obsessiva, em parte porque tive de lidar com muitas burocracias de governo. E cheguei à conclusão — timidamente, sem dúvida — que a mediocridade mudou sua natureza; para pior, claro.

No começo da minha carreira, os medíocres estavam felizes em ser medíocres. Eles não ficavam preocupados em não ser especiais de nenhuma forma. E tocavam a vida, faziam seu trabalho e não incomodavam ninguém. Eram totalmente respeitáveis e, na verdade, todo país precisa de medíocres, aos milhões.

Alguns anos atrás, conheci um recrutador de uma grande montadora de carros que dizia estar sempre em busca de pessoas sem ambição nem iniciativa, que ficariam contentes com bons salários e não desejariam nada mais. Essas pessoas, que costumavam ser numerosas, estão cada vez mais difíceis de encontrar.

Por que a mudança? Minha sugestão são dois fatores (mas não posso provar isso). A primeira é o crescimento do ensino superior, o que inevitavelmente alimenta ambição. A segunda é a difusão do entretenimento televisivo e das redes sociais. O homem é um animal comparador, e quanto mais ele puder se comparar com os outros, menos contente ele fica com sua situação atual.

Mas as habilidades fundamentais que a maioria das pessoas tem não mudaram junto com seus horizontes. No entanto, esses horizontes em expansão tornaram a busca por distinção pessoal ainda mais desesperada (claro, a busca sempre existiu, nenhuma novidade nisso, foi sempre uma questão de predomínio).

O exercício de poder é a maneira como aqueles que carecem de talentos especiais, os medíocres, tentam se destacar. E, como existem tantos medíocres em busca de distinção, as disputas de poder mesquinhas (mais uma vez, elas sempre existiram) estão cada vez mais comuns e amarguradas. Pelo menos, foi isso que observei em meus hospitais, nos quais a implacabilidade e a determinação, mas não a habilidade, se tornaram a chave para o sucesso.

Leia também “A conspiração da feiura”

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11 comentários Ver comentários

  1. Excelente texto. É absurda a necessidade que temos de cultuar heróis. O pior cenário é quando elegemos (no sentido amplo da palavra) fantoches e manipuladores sem a mínima qualidade para esse posto. O que dizer de “nossos heróis” da política? Que qualidades encontrar em um Lula? Já Bolsonaro estaria mais para um anti-herói, imprescindível nesses tempos bicudos que vivemos.

  2. Excelente artigo. Parabéns. Nunca devemos nos comparar com ninguém. E como sempre digo somos um acidente evolutivo que deu errado. Não era para existirmos.

  3. Gostei muito da matéria, mas gostaria de fazer uma sugestão. Na próxima coluna seja mais duro com o Zelensky. Muita gente ainda não percebeu o nível de mediocridade dele.
    Não que Putin tenha algum mérito, mas a atuação de Zelensky é bizarra.

  4. O bom desse texto é a conexão com a realidade. Fui lendo e associando, inclusive a mim.
    Excelente!! Já repassei pra 2 colegas , tomara que se tornem assinantes dessa brilhante revista!!

  5. Bela análise. Mais atual que isso, impossível. Está cada vez mais insuportável ao ser humano conviver com alguém melhor do que ele, seja qual for a qualidade ou o talento em questão. A mediocridade, obviamente predominante em nosso estado, parece não suportar sequer a dignidade de uma vida simples e honesta.

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