Ilustração: Shutterstock
Ilustração: Shutterstock

Bancos para tudo e todos

Grandes bancos tradicionais ainda dominam o mercado brasileiro, como os dinossauros dominavam a Terra

É 1 da madrugada, você está sem sono, entediado. O que fazer? Algumas opções:

  1. assista ao último filme de Rambo com Sylvester Stallone;
  2. leia um longo texto-cabeça sobre os novos rumos das políticas identitárias em sociedades pós-industriais
  3. pique alguns tomates, separe as sementes, tempere, guarde num Tupperware para adiantar o macarrão do dia seguinte;
  4. abra uma nova conta num novo banco.

A alternativa “4” vai ser a mais simples e rápida. Hoje você pega o celular, escolhe entre uma penca de instituições financeiras, preenche alguns dados muito básicos, manda uma selfie e a foto de um documento. Em dez minutos sua conta estará aberta e o cartão de crédito/débito a caminho. 

Faça isso de madrugada, no feriado, quando quiser. Na poltrona, de pijamão. Só você e seu celular. É de graça, sem taxas. Sem o constrangedor ritual de depositar objetos metálicos na porta da agência. Sem fila de espera para falar com o gerente. 

Fintech é a abreviação de financial technology, ou tecnologia financeira. Na interpretação mais elaborada de Kelvin Leong e Anna Sung, “toda ideia inovadora que aperfeiçoa os processos do serviço financeiro ao propor soluções tecnológicas de acordo com diferentes situações de negócios”.

Em maio de 2019, o Brasil tinha 550 fintechs. Dois anos depois, são 1.264

Fintechs se multiplicaram no Brasil (e no mundo) com o fechamento geral da pandemia de covid. Sem poder se deslocar até as agências bancárias, milhões de brasileiros que eram “desbancarizados” por um sistema ultrapassado e elitista puderam entrar no sistema financeiro, e sair da dependência do papel-moeda em suas transações (contaram também com a ajuda da política de desburocratização do ministro da Economia, Paulo Guedes, e do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto).

Em maio de 2019, segundo a consultoria Distrito, o Brasil tinha 550 fintechs. A previsão na época era que esse número aumentasse de 20% a 30% ao ano. Em 14 março de 2022, viraram 1.264. Ou seja, um crescimento de 229% em menos de dois anos. Fintechs geralmente oferecem trabalhos específicos, atuando em nichos. Alguns exemplos:

QuintoAndar – Especializado em aluguel e compra de imóveis pelo aplicativo, com o mínimo de burocracia; 

Bidu – Compara preços e condições de diferentes seguros (residenciais, de saúde etc.);

Creditas – Disponibiliza empréstimos facilitados aceitando meios alternativos como garantia;

Mobills – Permite que o cliente coordene suas diversas contas;

Mercado Bitcoin – Especializado em investimentos com criptomoedas;

Vakinha – Aproxima pessoas com os mesmos interesses para levantar o dinheiro necessário para as mais diferentes coisas.

Com e sem Waze

A Magnetis serve como exemplo de fintech de nicho bem-sucedida. Foi fundada por Luciano Tavares, de 47 anos, soteropolitano de nascimento e morador de São Paulo desde os 17. A empresa ilustra bem essa mudança de paradigma com relação aos bancos tradicionais. 

O que é a Magnetis? Uma gestora de investimentos, criada em 2013 e lançada em 2015. Seu papel é ajudar pessoas que querem montar investimentos a longo prazo — como, por exemplo, se aposentar daqui 20 anos. 

Num banco tradicional, o cliente pergunta ao gerente o que fazer com o seu dinheiro. O gerente dá sugestões baseadas no seu conhecimento e na sua intuição.

A Magnetis usa algoritmos, também conhecidos como robôs, ou modelos de otimização a longo prazo. Com três vantagens em relação ao modelo tradicional: 1) rapidez de decisão; 2) controle emocional; e 3) acompanhamento 24 horas por dia, sete dias por semana. Nenhum gerente do mundo consegue uma performance dessas, especialmente quando ficamos sabendo que existem 20 mil possibilidades de investimentos. 

Luciano Tavares declarou a Oeste que compara o investimento num banco tradicional a um motorista que opta por uma rota aleatória da sua cabeça, sem saber o que vai encontrar pela frente. Segundo ele, “os algoritmos equivalem a navegar com um aplicativo como o Waze, que indica os caminhos mais livres, os desvios para evitar congestionamentos, acidentes, semáforos etc.”.

O cartão roxo

A Magnetis é a típica empresa de nicho. Funciona para um tipo específico de cliente. Outras instituições foram bem além disso. Uniram a agilidade das fintechs com os modelos de negócio dos bancos tradicionais. São os bancos digitais.

O exemplo mais exuberante de banco digital é o Nubank. Com ações ousadas e muito marketing, o banco do cartão roxo se popularizou a ponto de atingir mais de 52 milhões de clientes no Brasil, 1,4 milhão no México, além de 114 mil na Colômbia.

Sem agências, sem talões de cheque, sem os milhares de funcionários dos “bancões”, sem despesas com segurança armada, sem necessidade de caixas automáticas, o Nubank podia se dar ao luxo de não cobrar nada pelos seus serviços. Milhões de brasileiros puderam ter do nada um banco para chamar de seu, com cartões de débito e crédito, opções de investimentos, transferências bancárias — tudo menos os velhos talões de cheque.

Em dezembro de 2021, o Nubank fez seu IPO nas Bolsas de Valores de São Paulo e Nova Iorque. Num primeiro momento, o banco saltou para a condição de instituição financeira mais valiosa da América Latina. Em pouco mais de um mês, contudo, perdeu US$ 6 bilhões em valor de mercado. Isso não o impediu de ser uma potência de mais de US$ 37 bilhões.

Luxo para todos

Um caminho diferente, mais discreto que o do Nubank, foi seguido pelo C6, hoje o terceiro maior banco digital do Brasil, a caminho dos 17 milhões de clientes (o segundo, quase empatado, é o Inter). Fundado em 2016, seu nome vem do elemento químico carbono, “fundamental à vida” segundo declarou a Oeste Maxnaum Gutierrezo, Head de Produtos e Pessoa Física da empresa.

Ao contrário do Nubank, que apostou numa imagem lacradora, o C6 não quer ser um evento pop/político permanente. Aposta no marketing aspiracional e foca na estética. Tudo é muito bem planejado em termos de design, do elegante aplicativo negro às 12 opções de cartões coloridos à escolha do cliente. Mesmo quem tem R$ 50 reais na conta do C6 é levado a se considerar um cliente chique e diferenciado.

O C6 é um exemplo de banco que aproveita as vantagens da vida digital para oferecer uma diversificação de serviços: opções de investimentos, loja própria, tags de pedágio e estacionamento, conta internacional em dólar e euro, programa de pontuação, conta para pessoa jurídica, previdência privada, maquininhas de cobrança, contas específicas para crianças e adolescentes e discretas ações ecológicas e apoio à diversidade sexual. Um banco tradicional tem mais dificuldade de agir em tantas áreas.

A fábrica de bancos 

Bancos digitais estão se multiplicando em alta velocidade. É só consultar a lista de aplicativos oferecidos no seu celular — Cora, Original, Neo, Pan, Dubank, BS2, Master, Bitz, ICA, M3Bank. E aí vem, em breve, a potência alemã N26. Ela pretende misturar a atuação de banco digital com um serviço de educação financeira. Parte do princípio que quase 70% dos brasileiros gastam o mesmo ou mais do que recebem, cerca de 50% sentem ansiedade pensando em contas e dívidas e mais de 71% estão endividados. 

Chegamos a um ponto que tornou possível a criação de uma empresa montadora de bancos. A Celcoin permite criar uma estrutura bancária digital em tempo muito curto. Segundo seu cofundador, Marcelo França Correa, a empresa permite colocar uma empresa financeira no mercado (um processo que durava de seis a 12 meses) “em poucos dias”.

Uma empresa como a Celcoin monta com facilidade estruturas financeiras — transações de Pix, saques em caixas eletrônicos, open banking, cobranças. É como montar um brinquedo da Lego. Essa facilidade faz prever um tempo em que quase todo mundo poderá ter seu próprio “banco”: uma rede de shoppings, um time de futebol, uma companhia aérea, uma rede social.

Os bancões contra-atacam

Diante desse panorama, as instituições financeiras tradicionais estão tremendo na base, esperando a chegada do fim a cada novo “banquinho” digital que aparece?

Não. O lucro dos quatro bancos tradicionais em 2021 foi o maior em 15 anos. Banco do Brasil, Bradesco, Itaú e Santander tiveram um lucro somado de quase R$ 95 bilhões, segundo levantamento da empresa de informações financeiras Economatica. O ativo total de quatro dos gigantes somou aproximadamente R$ 7 trilhões. O maior crescimento, acredite se quiser, foi da velha estatal Banco do Brasil (cerca de 12%). O valor de mercado dessas quatro instituições cresceu algo em torno de 15% só nos dois primeiros meses de 2022 e chegou a quase R$ 644 bilhões. O líder nessa categoria é o Itaú.

Um dos truques dos bancões foi aderir à onda digital com produtos próprios. O Bradesco lançou o Next, o Itaú lançou o Iti, o Santander o SX, o Safra o AgZero. Luciano Tavares, do Magnetis, sabe que, apesar da velocidade das recentes mudanças, o panorama geral ainda é muito atrasado. “80% dos investimentos estão concentrados nos cinco maiores bancos. R$ 1 trilhão em investimentos ainda estão ancorados na velha poupança. Outro trilhão, nos planos de previdência privada desses bancos tradicionais.”

Mas Tavares acredita em mudanças rápidas e sólidas para que o Brasil deixe de ter a maior concentração bancária do mundo. Ele acha que esse grupo dos cinco vai se ampliar em tempo razoavelmente curto para “algo em torno de 20 players”. 

“O fluxo é de saída constante”, afirma o fundador da Magnetis. “No máximo em dez anos, deverá haver mais gente fora dos grandes bancos do que dentro.” Afinal, o futuro pertence às novas gerações, que nasceram digitais e nunca passaram pelo constrangedor vexame de empilhar objetos metálicos na porta de uma agência.

Leia também “Estatais x R$ 1 trilhão em benefício de todos”

-Publicidade-
* O espaço para comentários é destinado ao debate saudável de ideias. Não serão aceitas postagens com expressões inapropriadas ou agressões pessoais.

3 comentários Ver comentários

  1. Sou um quase setentão, mas aprecio muito e acompanho as novidades tecnológicas. Não é o caso da grande maioria da população brasileira, sempre muito desconfiada, que só confia no que vê e pode ser tocado. Diferentemente são os jovens, que aderem a tudo que possa ser feito em um celular. Mais alguns anos e esses “banquinhos” estarão brigando lado a lado com os bancões.

  2. Gostei muito do texto e de conhecer um pouco mais sobre essas novas opções.
    Ainda sou da época de “empilhar objetos metálicos na porta de uma agência”… e, antes de disso, de uma época em que isso não era necessário.

Envie um comentário

Conteúdo exclusivo para assinantes.

Seja nosso assinante!
Tenha acesso ilimitado a todo conteúdo por apenas R$ 19,90 mensais.

Revista OESTE, a primeira plataforma de conteúdo cem por cento
comprometida com a defesa do capitalismo e do livre mercado.

Meios de pagamento
Site seguro
Seja nosso assinante!

Reportagens e artigos exclusivos produzidos pela melhor equipe de jornalistas do Brasil.