Os brasileiros Pedro Franceschi e Henrique Dubugras, cofundadores da Brex | Foto: Divulgação
Os brasileiros Pedro Franceschi e Henrique Dubugras, cofundadores da Brex | Foto: Divulgação

O clube do bilhão recebe dois jovens brasileiros

A Brex foi criada por Pedro Franceschi e Henrique Dubugras em 2017, com a missão de oferecer cartões corporativos para startups

Em 2012, dois adolescentes brasileiros de cidades diferentes discutiram pelo Twitter qual seria o melhor editor de texto para escrever programas de computador. Ficaram amigos. Dez anos depois, estão bilionários. Agora pertencem a uma seleta lista de 2.666 fortunas de todo o mundo, encabeçada pelo midiático empresário Elon Musk, dono da Tesla e da SpaceX. 

O carioca Pedro Franceschi, de 25 anos, e o paulista Henrique Dubugras, de 26, foram as novidades entre os brasileiros no rol de bilionários de 2022, em lista recentemente divulgada pela revista Forbes. Fundadores da fintech Brex, a dupla aparece na 1.929ª posição, com patrimônio estimado de US$ 1,5 bilhão cada um (cerca de R$ 7 bilhões). Assim, logo de cara, eles superam nomes conhecidos, como o de Luiza Helena Trajano, empresária à frente do Magazine Luiza, que soma US$ 1,4 bilhão. 

Franceschi e Dubugras fundaram a Brex em 2017. A proposta deles era oferecer crédito de forma descomplicada a startups de tecnologia nos Estados Unidos, com foco em empresas ativas no Vale do Silício. Como diferencial de mercado, a Brex apostou na estratégia de não exigir garantias como renda e bens para aprovação de cartões corporativos. Hoje, a iniciativa conta com mais de mil funcionários e está avaliada em US$ 12,3 bilhões.

Ao todo, são 62 brasileiros presentes na lista da Forbes, com o veterano Jorge Paulo Lemann como o mais rico deles, com patrimônio estimado em US$ 15,4 bilhões. O acionista controlador do gigante cervejeiro AB Inbev e detentor de participações em conglomerados internacionais aparece na frente de Eduardo Saverin, cofundador do Facebook, que soma US$ 10,6 bilhões. Além dos jovens fundadores da Brex, mais um brasileiro estreou neste ano na relação de superfortunas — Sasson Dayan, do banco Daycoval, com US$ 1,3 bilhão. 

Dois prodígios da programação

Antes do encontro no Twitter, os futuros bilionários brasileiros já conseguiam realizar individualmente suas pequenas façanhas. Aos 16 anos, Henrique criou o aplicativo Estudar nos EUA, com dicas sobre o sistema educacional norte-americano. Pontualmente, o projeto conseguiu ficar entre os mais baixados na loja virtual da Apple. Pouco depois, o paulista venceu uma maratona de programação em Miami.

Aos 12 anos, o carioca Pedro Franceschi teria sido a primeira pessoa do mundo a desbloquear um iPhone 3G

Pedro conseguiu proezas ainda mais precoces. Foi inspirado pelo pai, um fotógrafo que adorava desmontar aparelhos para depois remontá-los. Morreu vítima de câncer, quando o filho tinha apenas 8 anos. Franceschi, em um texto em tom pessoal no blog da Brex, certa vez relatou que “se jogou nos computadores” como forma de lidar com o trauma familiar. Assim, ainda aos 12 anos, o carioca teria sido a primeira pessoa do mundo a desbloquear um iPhone 3G. 

O espírito realizador da dupla parecia evidente quando ambos se conheceram no debate pelo Twitter. A conversa rapidamente migrou para o Skype, e logo a amizade foi canalizada para os projetos. Em 2013, bem antes da Brex, os brasileiros criaram uma startup chamada Pagar.me, com ferramentas para ajudar comerciantes a aceitarem transações on-line. O negócio prosperou em pouco tempo e foi vendido para a Stone, quando já tinha 150 funcionários.  

Vídeo de 2017: Henrique e Pedro explicam como entraram em Stanford:

Com o dinheiro da venda, Henrique e Pedro conseguiram ingressar na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Mas, depois de apenas dois semestres no curso de Ciência da Computação, os amigos entenderam que precisavam colocar o desejo de empreender na frente, pulando a graduação. Desta vez, a decisão não exigiu deslocamento. Bastou se inspirar no que viam ao redor, na efervescente região de São Francisco, perto dos principais negócios de tecnologia do mundo. 

“Sabíamos que o modelo mental para construir uma empresa no Brasil não funcionaria no Vale do Silício, então tivemos de repensar muitas coisas”, escreveu Pedro Franceschi, em texto no blog da Brex direcionado aos funcionários. “Não tivemos medo de pedir ajuda. Usamos nossos investidores anteriores no Brasil para nos conectar com nossos primeiros consultores e investidores aqui nos EUA, e aprendemos o máximo que pudemos com eles.”

Mas, se a atmosfera de inovação do Vale do Silício inspirava, o mesmo parece não se aplicar aos ídolos do empreendedorismo local. Pedro Franceschi lembrou no blog que o cultuado modelo de liderança do ex-criador da Apple não faz parte dos seus interesses. “Escolher os líderes certos para aprender é um passo importante. Aqui, um erro tentador é superdimensionar um herói”, alertou Franceschi. “É fácil escolher um mentor, um chefe anterior ou um empreendedor de sucesso que você admira e começar a tentar imitá-lo. Mas você não precisa ser um idiota com sua equipe para ser um grande líder de produto como Steve Jobs foi. É importante saber o que aprender e com quem. Provavelmente existem modelos melhores para gestão de pessoas do que Steve Jobs.”

De Stanford ao primeiro bilhão

A Brex nasceu em 2017 com a missão de oferecer cartões corporativos para startups da região. Inicialmente, a empresa comprou espaços em outdoors nas ruas do Vale do Silício para tentar promover a marca. Mas o negócio só avançou com ações on-line, explicando aos possíveis clientes as ofertas de crédito que se diferenciavam do mercado. 

Desde o início, a startup oferece cartões corporativos, que são liberados em até cinco minutos, na versão virtual. Já o modelo físico é enviado em até cinco dias úteis. O limite é de dez a 20 vezes maior do que o dos concorrentes corporativos tradicionais, segundo o site da empresa. 

Em um segundo momento, a Brex expandiu o portfólio e passou a atuar também com contas bancárias empresariais. Atualmente, a startup ainda oferece um software de gerenciamento de despesas e um recurso de pagamento de contas comerciais. Nesse ritmo, dois anos depois da criação, a Brex já havia conseguido US$ 213 milhões e era avaliada em US$ 1,1 bilhão. Contou com injeções de recursos da Tiger Global Management, além do suporte de Peter Thiel e Max Levchin, fundadores do PayPal. Mais ou menos nesse momento, o ator Ashton Kutcher também se juntou como investidor com a sua empresa, a Sound Ventures.

Em janeiro deste ano, a coisa cresceu mais, com a empresa levantando US$ 300 milhões em nova rodada de financiamento, liderada pelas empresas de investimento Greenoaks Capital e TCV. Essa injeção garantiu uma atualização na avaliação de mercado, que passou a US$ 12,3 bilhões (R$ 57,8 bilhões). Isso fez da startup dos brasileiros o que a comunidade da inovação chama de “decacórnio” — termo que deriva de unicórnio (como são chamadas as empresas que valem mais de US$ 1 bilhão) e é usado para designar startups que valem mais de US$ 10 bilhões. 

Os dois amigos por trás da Brex adotaram um modelo de gestão em que repartem o papel de CEO. Pedro se achava mais preparado para as missões técnicas, mas foi convencido por Henrique de que poderia estar em primeiro plano. Hoje, comemora o êxito de uma ‘ideia maluca’ de brasileiros no Vale do Silício. 

“Fizemos muitas coisas certas e algumas coisas erradas, mas construir um cartão corporativo para startups foi uma ideia tão boa que nos carregou por muitos anos, apesar de nossos erros”, festejou Pedro, no blog da empresa. “Sou grato aos nossos investidores, mentores e conselheiros, que confiaram em nós quando poucas pessoas confiavam e decidiram colocar milhares de horas e tantos dólares em uma ideia maluca de dois brasileiros.”

Com 25 ou 26 anos, muitos jovens adultos olham para a vida e pensam que o céu é o limite. Para quem já tem mais de US$ 1 bilhão na conta e uma história de empreendedorismo como a de Henrique e Pedro, o horizonte tende a ser ainda mais empolgante. Jorge Paulo Lemann e Eduardo Saverin que se cuidem no topo do clube do bilhão brasileiro, porque a parceria Franceschi-Dubugras parece afiadíssima.

Leia também “Bancos para tudo e todos”

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