O juiz, a deputada e o bilionário | Foto: Montagem Revista Oeste
O juiz, a deputada e o bilionário | Foto: Montagem Revista Oeste

O juiz, a deputada e o bilionário

O bilionário parece ter a resposta para a pergunta da sua afilhada no Congresso. Como fazer para tirar o presidente do palácio?

Imagine esta situação surrealista, impossível de se cogitar no mundo real: uma deputada federal pergunta a um ministro da suprema corte o que eles devem fazer para evitar a reeleição do presidente da República, na votação prevista para o mesmo ano. Aí esse ministro responde que “nós” somos mais fortes do que o “inimigo”.

Nós, quem? Nós, as pessoas “do bem”, diz o ministro — universo onde estão incluídos a deputada, o próprio ministro e todos os que se colocam contra o “inimigo”. Quem é o inimigo? É o presidente da República, assim classificado pelo representante da máxima corte judiciária do país.

Está achando absurdo demais? Então vamos colocar um pouco mais de absurdo aí, porque a realidade está muito monótona e ninguém aguenta mais tanta estabilidade democrática.

Acrescentemos ao enredo inverossímil o seguinte contexto: a deputada e o ministro da suprema corte não estão no Brasil. Estão num evento nos Estados Unidos da América. Esse evento é bancado pelo mesmo bilionário que banca a carreira política da jovem deputada em questão. E nesse mesmo evento, o próprio bilionário declara que no ano seguinte o Brasil terá um novo presidente — ou seja, afirma categoricamente que o “inimigo”, conforme classificado pelo ministro da suprema corte, perderá a eleição.

Interessante. O bilionário aparentemente tem a resposta para a pergunta da sua afilhada no Congresso. Como fazer para tirar o presidente do palácio? O padrinho sabe — como mostra a assertividade da sua “previsão”: no ano seguinte o presidente não estará mais lá. Será outro.

Se você teve a sensação de que a democracia brasileira estava sendo operada nos EUA, você é um paranoico

E o ministro? O ministro tinha acabado de deixar a presidência do tribunal eleitoral, que é dirigido por integrantes da corte suprema, da qual o ministro é membro. Ou seja: um dos árbitros da eleição brasileira afirma num evento nos EUA que um dos principais candidatos na referida eleição é “o inimigo”. E o bilionário que é o seu anfitrião no evento nos EUA diz que o “inimigo” ficará pelo caminho.

Se você teve a sensação, lendo esse enredo absurdo, de que a democracia brasileira estava sendo operada nos EUA, você é um paranoico. Está tudo bem com a democracia brasileira. A suprema corte nacional só tem ministros sóbrios que jamais pronunciariam uma vírgula — mesmo que vírgula fosse pronunciável — com teor de interferência política. Os supremos togados sabem que a vontade popular é a base da democracia — e que qualquer conduta capaz de trazer dúvidas sobre o respeito absoluto a essa vontade poderia jogar tudo pelos ares. Inclusive as togas.

Sobre bilionários com assanhamento suficiente para tentar tomar o papel dos governos e mandar em todo mundo, isso não passa de ficção científica. Um bilionário já tem tudo que quer para si e para seus tataranetos. Por que tentaria tomar para si o poder público? Por que tentaria usar seu mar de dinheiro e seu oceano de influência para encantar almas legislativas e judiciárias em favor dos seus interesses particulares?

Isso não existe. Ninguém é tão guloso assim. Ninguém é tão megalômano assim. Ninguém é tão cínico assim. Ninguém arriscaria tanto o seu penteado se metendo numa enrascada desse tamanho.

Por que enrascada? Porque do lado de fora dos auditórios de Boston e dos gabinetes de Brasília tem uma quantidade grande, muito grande mesmo de pessoas que ficariam bastante aborrecidas se soubessem que meia dúzia de malandros perfumados está tramando para tirar-lhes o que é seu.

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