Ilustração: Marcello Tunchel/Revista Oeste
Ilustração: Marcello Tunchel/Revista Oeste

Jantando a democracia

Um jantar privado entre senadores fechados com Lula e ministros da Suprema Corte que presidem as eleições só pode ser para fazer o bem

Um encontro noturno em Brasília reuniu senadores parceiros de Lula e ministros do Supremo Tribunal Federal, incluindo o que presidirá o Tribunal Superior Eleitoral no período da eleição deste ano. Isso é uma coisa normal da democracia, ainda mais em ano de eleição. Esses abnegados servidores da nação têm direito ao seu momento de descontração, que ninguém é de ferro.

Nada a comentar, portanto, sobre esse fato corriqueiro da vida — a não ser por alguns relatos de bastidor que podem interessar aos fãs dos participantes desse simpático jantar. Segundo uma fonte, logo na chegada à casa da anfitriã do encontro, um senador campeão de inquéritos no STF teria feito um desabafo: “Não aguento mais carregar esse peso na alma. Por favor, desengavetem todas as demandas judiciais contra mim”.

Os ministros do STF teriam ouvido atentamente o apelo do parlamentar e, segundo essa fonte, um deles teria respondido de pronto que a Corte iria ajudá-lo: “Temos estado muito ocupados ajudando o governo a governar, tanto que nem temos tido tempo para lives, discursos, palestras, almoços e jantares. Mas vamos ver o que podemos fazer pelo senhor”.

Nesse momento, outro senador parça de Lula e adido cultural do consórcio de imprensa teria reagido com certa agressividade. Segundo uma fonte, o parlamentar teria dito que a ajuda do STF ao governo não estava sendo suficiente. Após bater estridentemente com uma faca de prata num copo de cristal para chamar a atenção de todos, ele teria subido na mesa e bradado com sua voz mais estridente ainda: “Não deixem o Bolsonaro sozinho! Vocês podem mais!”

O pequeno grande senador teria dito essas palavras andando em cima da mesa de um lado para o outro, numa espécie de remake brasiliense do Hair, sob aplausos emocionados. Outra fonte garante que chegou a surgir entre os presentes um coro de “mito”, em referência ao apelido que os bolsonaristas deram ao presidente.

Ele estaria preocupado com o fato de que Lula livre poderia deixar seu advogado sem trabalho

No entusiasmo da sua performance sobre a mesa de jantar, o orador teria derrubado um copo de cristal. Ao ver os cacos espalhados pelo chão, um dos senadores teria exclamado: “Sete anos de azar”, ao que um ministro teria respondido: “Isso se fala pra quebra de espelho, imbecil”. Imediatamente todos os presentes teriam concordado que a quebra de copos de cristal em jantares democráticos deu voz aos imbecis.

Nesse clima de harmonia e tolerância, um dos ministros teria começado a chorar. Ninguém teria entendido nada. Ele teria então explicado que estava pensando no advogado do Lula. Um colega teria dito que nesse caso não havia problema, ele ligaria imediatamente para o advogado do Lula chamando-o para o jantar. O ministro emotivo teria replicado que não se tratava de saudade. Ele estaria preocupado com o fato de que Lula livre poderia deixar seu advogado sem trabalho.

Todos concordaram com o risco e, segundo uma fonte, chegou-se a cogitar durante a sobremesa a reversão da descondenação do ex-presidiário. Mas, como sempre ocorre entre pessoas sensatas, teria surgido a voz da razão: “Esperem aí. Estamos indo longe demais. Reverter uma descondenação significaria, na prática, uma condenação”. De pronto teriam soado murmúrios de concordância — “é verdade”, “faz sentido”, “não tinha pensado nisso”, etc.

E como o propósito do jantar, segundo um analista que não quis se identificar, seria o de ajudar a garantir a governabilidade de Bolsonaro, uma volta de Lula para a cadeia deixaria o presidente sem o seu principal aliado — o pesadelo da volta do ex-presidiário ao Palácio do Planalto e seu périplo soltando disparates por aí. “Vamos deixar então como está”, teria proposto uma eminente eminência, encerrando o assunto.

Já no cafezinho, um grande parlamentar teria mostrado toda a sua grandeza manifestando preocupação quanto à liberdade de expressão — especialmente na programação da emissora Jovem Pan. O foco dos receios desse parlamentar altivo seria o programa Os Pingos nos Is. Segundo uma fonte, ele teria chegado a bradar, entre um gole e outro de café: “Não toquem nos Pingos!” Todos teriam aplaudido demoradamente o brado libertário.

Como se vê, foi um encontro normal entre democratas comprometidos com a estabilidade das instituições e a lisura das eleições. Que momentos saudáveis como esse sirvam para colocar uma pedra sobre esse assunto de desconfiança do processo eleitoral brasileiro. Um jantar privado entre senadores fechados com Lula e ministros da Suprema Corte que presidem as eleições só pode ser para fazer o bem. Parem de espalhar fake news e atentar contra a democracia.

Leia também “No escurinho da transparência”

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41 comentários Ver comentários

  1. Quando falam que o JORNALISTA (em caixa alta para enaltecer quem enaltece a profissão) Guilherme Fiúza é um ARTISTA, não dizem isso por ele ser excelente jornalista, exímio escritor, ou um talentoso roteirista e um comentarista político arguto. Ele é um artista pelo fato de dominar todos esses talentos, e ainda ser um especialista na ARTE DA IRONIA FINA, SOFISTICADA, como poucos hoje conseguem dominar. Parabéns ao Mestre Guilherme, por nos brindar com esse magnífico texto. Já fazia tempo que não ria tanto.

  2. KKKKKKKKKKKKKK e K. Parece o “Teatro do Absurdo” de Eugene Ionesco. Afinal, Brasília é um mix de Nárnia com o mundo bizarro dos quadrinhos de Superman na década de 60. Parabéns!

  3. Quando a “bancada” lulo petista da Globo News vai comentar o regabofe da “Ilha Fiscal”? Vai ser ótimo, o dia inteiro. Com participação da anfitriã, este monumento democrático chamado Katia. Vai ser espetacular!

  4. Grande Fiúza! Sete anos de azar? Alguns já comprometeram o próprio futuro, dos filhos, dos netos… As leis mudam, os crimes cometidos permanecem!

    1. O quê falar desse artigo do Guilherme Fiuza? Ouso arriscar: Simplesmente genial, meu respeito e admiração ao Jornalista, com J maiúsculo. 😍

  5. Transitar sobre o real, a ficção, o humor e a crítica é algo que somente jornalistas gabaritados fazem. Obrigado por compartilhar um conteúdo tão rico, Fiúza.

    1. Regabofe financiado pelas burras do povareú p convivas latrinários. Quem dera resultasse numa caganeira ampla, geral, irrestrita… E continuada. Tipo o filme ” A Comilança”.

  6. COMPLÔ EM PROL DA DEMOCRAXIA, ou seria CONXPIRAÇÃO EM PROL DA DEMOCRAXIA? A fonte não foi muito clara nisso, mas depois a Rede Globo informa no Jornal Nacional.

  7. O jantar da família Adams. Eles pensam que o povo é manequim de camelô, o povo tá virado na gota serena, o povo tem massa cinzenta seus febre do rato

    1. E se olhássemos através de uma janela, para ver os presentes na mesa deste jantar, fincaríamos confusos se tentássemos distinguir quem era porco e quem era gente!

  8. Infelizmente só contribuo com o meu voto, q é igual a dos políticos, ministros, presidentes, pobres, feios, letrados ou analfabetos. Do resto, é sentar na calçada e chorar.

  9. O conjunto formado, entre outros desalojados da cômoda situação que desfrutavam na era lulopetista, como STF, Congresso Nacional, velha imprensa (jornais, grupos de comunicação de massa) artistas, intelectuais (ditos) setores da chamada sociedade civil que perderam a facilidade de obter recursos públicos e, ainda, a esquerda internacional para onde seguiam recursos do BNDES financiando suas obras e ditaduras com dinheiro do povo brasileiro, e uma parcela ideologicamente cega ou fanática, da população, todos, formam o “Ministério da Verdade” patropi e buscam impor a sua vontade como real, como propagam , enquanto agem no sentido inverso, de destruição da verdadeira realidade nacional.
    Ouvir “autoridades” relatarem ameaças ao sistema democrático, enquanto as próprias solapam a liberdade constitucional existente no Brasil (estão sendo extintas aos poucos por esses solapadores) chega a ser surreal.
    Nunca o mandamento de Lenin foi tão praticado: “acuse os adversários do que você faz, chame-os do que você é”.

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