Beleza é fundamental: apresentação oficial do F-39 Gripen no Rio de Janeiro, em 2020 | Foto: Divulgação/FAB
Beleza é fundamental: apresentação oficial do F-39 Gripen no Rio de Janeiro, em 2020 | Foto: Divulgação/FAB

O mais sexy dos aviões de combate

Os caças suecos F-39 Gripen colocam a FAB em posição de vantagem com relação aos países vizinhos

O caça é o avião mais sexy de uma Força Aérea. Tem o aspecto mais futurista, é o mais rápido, o mais agressivo e geralmente o mais barulhento. Quando ele surge no céu, não tem como não notar. Mesmo porque caças voam em bandos (ou “formação”, na linguagem técnica da Aeronáutica), como aves de rapina.

Um ator como Tom Cruise dificilmente faria um filme pilotando burocraticamente um avião de transporte, por exemplo. Em Top Gun (1986), ele pilotava um caça F-14. Em Top Gun Maverick, que vai ser lançado no Brasil no próximo dia 26, a verdadeira estrela é um F/A-18E Super Hornet.

A Força Aérea Brasileira agora também tem um caça para chamar de estrela: o F-39 Gripen, produzido pela empresa sueca Saab, com a participação da Embraer. Um modelo de treinamento já havia sido apresentado em 2020. Agora, a frota de verdade começou a chegar. O contrato para o novo equipamento é estimado em US$ 5,4 bilhões, a serem pagos em 25 anos, segundo a IstoÉ Dinheiro. A encomenda original foi de 36 caças, mas a FAB já está pedindo mais quatro. Eles vão substituir gradualmente os 47 velhos Northrop F-5 Tiger II. 

Um país de 8,5 milhões de quilômetros quadrados precisa de caças. Em caso de invasão, eles são os primeiros a combater o inimigo. Vão atrás também de aviões clandestinos, como os usados no tráfico de cocaína, e servem de escolta em caso de sequestro. (Caças são encarregados de identificar objetos voadores não identificados também, o que acontece de vez em quando.) Em caso de conflito armado, podem também ser usados em bombardeiros leves.

F-39 Gripen no Rio de Janeiro | Foto: Sargento Bianca/divulgação FAB

Por que o Gripen? A FAB considera que o modelo lançado na Suécia em 1996 “é conhecido por sua eficiência, baixo custo de operação, elevada disponibilidade e capacidade tecnológica avançada”, segundo declaração à Agência Brasil. “Em várias Forças Aéreas no mundo, é o vetor responsável pela soberania e pela proteção dessas nações, nas 24 horas do dia, assim como faz missões de policiamento aéreo em algumas regiões críticas.”

Com a compra dos Gripen, o Brasil vai assumir a liderança no setor de caças da América do Sul. A Colômbia opera o israelense KFIR, baseado no clássico francês Mirage III. O Peru tem os Mig 29, relíquia soviética dos anos 1950. O Chile conta com 46 unidades do norte-americano F-16, um veterano de sucesso. A maior preocupação por enquanto é o russo Sukhoi SU-30 da Venezuela, considerado até agora o caça mais poderoso da América Latina — uma cortesia de Vladimir Putin ao amigo Hugo Chávez. O Sukhoi agora vai perder a supremacia com a novíssima frota de Gripen da Força Aérea Brasileira. 

O nome Gripen é inspirado na figura mitológica do Grifo, meio leão, meio águia, que faz parte do logotipo da Saab. O caça, quando totalmente carregado, pode pesar mais de 16 toneladas, mas mesmo assim é capaz de decolar com apenas 500 metros de pista. Em altitudes maiores, onde o ar é rarefeito e oferece menor resistência, o F-39 pode chegar ao Mach 2 (o dobro da velocidade do som) e atingir 2.448 quilômetros por hora. Seu raio de combate é de 1,5 mil quilômetros. Partindo da base de Anápolis, pode cobrir boa parte da região Nordeste, quase todo o Centro-Oeste, a porção sudeste da Amazônia, toda a região Sudeste e chegar até a fronteira com o Rio Grande do Sul. Espalhados por outras bases, cobrem todo o território nacional.

Renovação e corrupção

As primeiras negociações para a renovação dos caças brasileiros começaram ainda no governo Fernando Henrique Cardoso. Com o envelhecimento dos veteranos Northrop F-5, a FAB foi às compras e fechou negócio com a empresa Saab, em dezembro de 2013. 

A compra ficou marcada como um dos muitos escândalos envolvendo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acusado pelos crimes de “tráfico de influência, lavagem de dinheiro e organização criminosa”. Segundo a acusação, Lula integrava um esquema que vendia a promessa de interferência no governo Dilma Rousseff para beneficiar a Saab. O preço pelo lobby seria de R$ 2,5 milhões, encaminhados para seu filho Luís Cláudio Lula da Silva. Em março deste ano, para surpresa de ninguém, o ministro Ricardo Lewandowski suspendeu a ação. Fora essa acusação, não se encontrou nenhuma irregularidade na venda.

Os pioneiros

Os dois primeiros pilotos do Gripen brasileiro: major Abdon de Rezende Vasconcelos e o tenente-coronel Cristiano de Oliveira Peres | Foto: Divulgação/FAB

Os dois primeiros F-39 Gripen, matrículas 4101 e 4102, saíram da cidade de Norrköpping, na Suécia, a bordo do navio cargueiro de bandeira holandesa Marsgracht. Ainda sem os pneus principais, foram rebocados até o Porto de Navegantes, em Santa Catarina, no dia 2 de abril, segundo informações do site Aeroflap

Passaram a primeira noite em solo brasileiro no hangar da empresa Havan. De lá, segundo informações da Agência Brasil, decolaram no dia 6 de maio até a planta da Embraer em Gavião Peixoto, próximo a Araraquara, no interior de São Paulo. Em Gavião Peixoto, está o Centro de Ensaio em Voo do Gripen (GFTC). Os pilotos pioneiros foram o tenente-coronel aviador Cristiano de Oliveira Peres e o major aviador Abdon de Rezende Vasconcelos. Eles estão treinando no modelo desde 2020, na Suécia. No dia 22 de abril, os Gripen foram oficialmente “batizados” com champanhe pelo presidente Jair Bolsonaro. Um segundo lote, com mais 30 caças, está sendo considerado para uma próxima encomenda.

Esses três vídeos do canal da Saab no Brasil mostram o momento da chegada dos Gripen e os depoimentos dos seus primeiros pilotos. O vídeo registra também o pedido do brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Jr., comandante da FAB: “Uma Força Aérea proporcional à defesa de suas riquezas, à defesa de sua população”.

O poder do Gripen

F-39 Gripen | Foto: SO Johson/Divulgação FAB

Sendo um avião tão bom, por que o Gripen tem vendas comparativamente tão pequenas? Até agora, além do Brasil, ele só foi incorporado às Forças Aéreas da Hungria, República Tcheca, Tailândia, Reino Unido e África do Sul, além da Suécia. Modelos muito mais caros, como o europeu Typhoon e o norte-americano F-35, vendem muito mais.

O Gripen vai usar míssil ar-ar de longo alcance MBDA Meteor, utilizados hoje pela Alemanha e pelo Reino Unido

O analista (e piloto) Evaldo Barbosa, do site Águias de Aço, considera que a razão para o baixo volume de vendas do Gripen não está relacionada à qualidade. Segundo Barbosa, o problema é mais diplomático do que tecnológico. A Suécia sozinha não tem peso. Os Estados Unidos, a Europa, a Rússia e a China vendem seus aviões em pacotes que incluem outras formas de negociação, oferta de crédito, acordos políticos etc. 

O Gripen vai usar míssil ar-ar de longo alcance MBDA Meteor, utilizados hoje, segundo o site Aeroflap, por Forças Aéreas da Itália, Alemanha, Reino Unido, França e Suécia. O Brasil comprou cem Meteor para ataques à longa distância por cerca de R$ 1,2 bilhão. Eles são capazes de voar quatro vezes mais rápido que o som. 

O míssil Iris-T faz parte do arsenal do Gripen | Foto: Reprodução Wikipedia

Outro armamento adquirido é o míssil alemão Iris-T, que segue o calor do avião inimigo (como o antigo Sidewinder). Os pilotos brasileiros vão mirar os Iris-T através dos capacetes Targo II, de fabricação israelense. Para combates mais próximos, o Gripen conta com um canhão BK-27, da tradicional empresa alemã Mauser, capaz de disparar 28 projéteis de 27 milímetros por segundo. Mais adiante, os caças serão capazes também de realizar ataques ao solo com bombas Spice 250, da empresa israelense Rafael.

Os top 10

O site Aerotime Hub listou os dez melhores caças em operação no mundo em 2022. O foco da lista são os chamados caças de quinta geração, que funcionam de maneira intuitiva, coordenados por redes de inteligência artificial. 

Em primeiro lugar, está o norte-americano Lockheed Martin F-35 Lightning II, que consegue pousar verticalmente, como um helicóptero. Logo abaixo do F-35 estão: 

2) Sukhoi SU-57 (Rússia)

3) Chengdu J-20 (China)

4) Raptor F-22 (EUA)

5) Shenyang FC-31 (China)

6) Boeing F-15EX Eagle II (EUA)

7) Dassault Rafale (França)

8) Eurofighter Typhoon (Europa)

9) Sukhoi Su-35S (Rússia)

O “nosso” Gripen ocupa um honroso 10° lugar nesta lista. Ele é considerado um caça de geração 4,5. Está meio passo atrás dos campeões. Em alguns anos, será lançada a sexta geração de caças, e mais uma vez o Brasil ficará para trás nessa corrida. Felizmente, não temos nenhum conflito mais sério à vista. Por enquanto, o Gripen é mais que suficiente para nossas modestas necessidades.

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