Xi Jinping (à esq.) e Tedros Adhanom Ghebreyesus | Foto: Montagem Revista Oeste/Alexandros Michailidis/Shutterstock
Xi Jinping (à esq.) e Tedros Adhanom Ghebreyesus | Foto: Montagem Revista Oeste/Alexandros Michailidis/Shutterstock

A política de racionalidade zero da China

Ninguém pode colocar as ordens de Xi Jinping em dúvida. Nem o amigo diretor-geral da OMS

Desde o início da pandemia, a Organização Mundial da Saúde e o Partido Comunista Chinês dialogaram e trabalharam lado a lado. Isso culminou na aventura da OMS e de institutos de saúde dos Estados Unidos na China em meados de fevereiro de 2020. O relatório de viagem realizado pela OMS — como o desempenho da China foi maravilhoso! — foi escrito e assinado por oficiais de saúde pública norte-americanos que recomendaram lockdowns ao estilo de Wuhan. Uma política desastrosa que só inspirou a maior parte dos governantes do mundo a fazer o mesmo.

Vinte e seis meses depois, foi revelado que a China na verdade não havia “eliminado o vírus por completo dentro de suas fronteiras”, ao contrário das afirmações exageradas da comentarista de TV Devi Sridhar em seu novo livro, Preventable (no prelo). Ela só jogou os casos para o futuro. Como quando o Partido Comunista Chinês descobriu que resultados positivos de testes emergiram por toda a Xangai, resultando em sete semanas de lockdowns brutais. Esse movimento feito pela China foi um desastre para a economia do país e do mundo, além de representar um perigo real para o futuro financeiro e tecnológico da nação toda.

Para Xi Jinping, os lockdowns e a covid zero foram suas maiores conquistas, celebradas no mundo todo, fazendo seu orgulho político inflar para além de todos os limites. Agora, ele não pode voltar atrás, para não correr o risco de sofrer perdas nas próximas eleições do partido.

Só no último fim de semana, o líder chinês deixou claro para todo o governo que não haveria recuos na política de zero covid-19: o Partido Comunista Chinês vai “aderir inabalavelmente à política geral de ‘zero covid-19 dinâmica’ e lutar de forma resoluta contra quaisquer feitos e palavras que distorçam, questionem ou neguem as políticas de prevenção epidêmica do nosso país”.

A impossível defesa dos lockdowns

O problema é grave: um número enorme de pessoas na China provavelmente vai precisar adquirir imunidade natural por exposição. É possível que a política de lockdown represente um atraso na chegada da endemia. Isso significa um dano de longo prazo para o país.

Ao pressentir esse problema, Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, fez uma leve crítica: “Considerando o comportamento do vírus, acredito que uma mudança será muito importante”, acrescentando ter discutido essa questão com cientistas chineses.

Os governos mundo afora ainda não conseguem reunir a coragem para fazer um ataque sólido e completo à política de “covid zero”

O que aconteceu em seguida é de fato fascinante: os comentários de Tedros foram censurados em toda a China, e buscas por seu nome foram imediatamente bloqueadas no país. Implausivelmente, com a simples menção a algo incrivelmente óbvio, Tedros se transformou de amigo em um inimigo de Estado. Enquanto isso, Bill Gates, outro apoiador da OMS/China, tem dito discretamente algo bastante similar em entrevistas: o vírus não pode ser erradicado.

Não são apenas Tedros e Gates que estão tentando abandonar sua defesa dos lockdowns. O próprio Anthony Fauci negou que os Estados Unidos tenham feito “lockdowns completos” — o que está tecnicamente correto, mas não porque ele não os tenha exigido. Em 16 de março de 2020, Fauci se colocou diante da imprensa nacional e leu uma diretriz do CDC, o Centro de Controle de Prevenção de Doenças dos Estados Unidos: “Em Estados com evidência de transmissão em comunidade, bares, restaurantes, praças de alimentação, academias e outros espaços abertos e fechados em que grupos de pessoas se reúnam devem ser fechados”.

Aliás, isso deixa uma forte impressão de que os governos no mundo todo estão fingindo que toda essa história terrível e patética não aconteceu, mesmo que não abram mão do poder de fazer tudo de novo caso seja necessário.

Sem arrependimentos, sem desculpas

Em 12 de maio de 2022, muitos governantes se reuniram em uma videoconferência e concordaram em investir muitos bilhões nos trabalhos relacionados à covid-19, além de reafirmar sua dedicação à abordagem de envolver “a sociedade toda” e “o governo todo” para combater essa doença infecciosa. O governo norte-americano no âmbito da administração concordou prontamente com essa ideia.

Os líderes reforçaram o valor das abordagens que envolvem a sociedade como um todo e o governo como um todo para dar fim à fase aguda da covid-19, bem como a importância de estarem preparados para ameaças de pandemias futuras. A conferência teve como foco evitar a complacência, reconhecendo que a pandemia não acabou, proteger os mais vulneráveis, incluindo os idosos, as pessoas imunocomprometidas e os trabalhadores da linha de frente e da saúde. Além de evitar futuras crises sanitárias, reconhecendo que este instante é o momento certo para garantir o compromisso político e financeiro para a prontidão contra pandemias.

A conferência catalisou compromissos audaciosos. Do ponto de vista financeiro, esses líderes se comprometeram a fornecer cerca de US$ 2 bilhões para novos financiamentos — além das promessas já feitas em 2022. Esses fundos vão acelerar as vacinações, a testagem e os tratamentos, bem como contribuir com novos preparativos contra a pandemia e um fundo de segurança sanitária global com sede no Banco Mundial.

É um progresso ver essas pessoas usando a linguagem da tão criticada, mas hoje totalmente vingada Declaração de Great Barrington? É pouco provável. Não se pode melhorar uma política ruim com palavras soltas. Todos os indícios dessa declaração revelam que não haverá pedidos de desculpas, arrependimentos nem mudanças no posicionamento-padrão de que os governos em toda parte e a todo momento devem ter o poder máximo de controlar qualquer patógeno à sua escolha.

Apesar das palavras censuradas de Tedros, não é uma surpresa que Xi Jinping continue se sentindo justificado e validado, e não enxergue nenhum perigo político em escolher seus próprios poderes em detrimento da saúde e do bem-estar de seu povo. Os governos mundo afora ainda não conseguem reunir a coragem para fazer um ataque sólido e completo à política de “covid zero”, com medo das implicações de tamanha concessão. Insinuações e indiretas, mesmo da OMS, não são suficientes.


Jeffrey A. Tucker é fundador e presidente do Instituto Brownstone e autor de dez livros publicados em cinco idiomas. Tucker também é editor de The Best of Ludwig von Mises 

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