Protesto do movimento Black Lives Matter | Foto: Shutterstock
Protesto do movimento Black Lives Matter | Foto: Shutterstock

O progressismo é muito chato

Sonho com o instante em que a jornalista da Globo não pedirá desculpas para agradar a uma turba burra, mantendo assim ereta a sua espinha moral

Jamais fui aquele típico adolescente revoltado com as imposições familiares e sociais. Era de boa com a vida. Tive amigos punks que pregavam uma espécie de anarquia social utópica, algumas feministas igualmente entediantes, e muitos que, como eu, se preocupavam mais em conquistar garotas(os) do que com qualquer tipo de injustiça universal. Adolescentes de 14 anos que pregam como o Estado é opressor e como os homens são machistas são, todos, chatos. A adolescência é a hora de beijar na boca, cometer bobagens e aprender com elas, abarcar modismos pops idiotas que o farão passar vergonha aos 30, estudar para vestibulares futuros ou se preparar da melhor maneira possível para a vida adulta. Adolescentes militantes são um porre sem fim.

Até que, aos 18 anos, a desgraça aconteceu. E os dilemas morais da humanidade, principalmente os de Raskólnikov, em Crime e Castigo, me pegaram. Dostoiévski fez-me interessar por dilemas morais profundos, não raro me via comprando livros que prometiam responder ao problema do mal e sua origem. Quando me vi, estava cursando filosofia na universidade.

Filho de uma universidade progressista, apesar de religiosa, notei o entusiasmo dos professores por eras de revoltas, revoluções e quebras de tabus. Um professor, por exemplo, se vangloriava de, ante um refeitório lotado na Europa, ter virado o mapa-múndi — localizado na maior parede do recinto — de ponta-cabeça e dizer altivo: “Se o Universo não tem lados, quem disse que é a Europa e os Estados Unidos que estão por cima?”. Exultante e orgulhoso, o docente figurava como um pombo-rei revolucionário em nossa sala, sob os olhares molhados e orgulhosos de seminaristas… Pitoresco e vergonhoso momento de que jamais esqueci.

Estranho mesmo, no entanto, é perceber que tal era progressista — que apresentou excentricidades e impôs a tolerância como valor supremo, que popularizou a paternidade de pets e, principalmente, conclamou as mil e uma liberdades sexuais, do tipo grotesco ao engraçado — é também a era que mais impõe regras morais sobre como os outros devem pensar, falar e viver em sociedade e em suas privacidades. As últimas semanas foram particularmente interessantes para analisar tais comportamentos.

Bebês racistas

Vimos a jornalista Carolina Cimenti ser corrigida ao vivo na GloboNews, sem nenhuma parcimônia e zelo, pelo apresentador Marcelo Cosme em um claro episódio que, em qualquer outra configuração, seria considerado “mansplaining”. Ali, entretanto, foi aplaudido efusivamente pelo progressismo de meio cérebro e coerência. O erro da jornalista teria sido usar o termo “denegrir”, que na cabeça dessa turma seria um demérito aos negros. Nem vou me alongar em explicar que denegrir vem do latim denigrare, que significa, literalmente, “manchar algo”. Então, quando “denegrimos alguma coisa”, estamos dizendo literalmente que deixamos algo sujo ou manchado. O que se encaixa perfeitamente no modo como o verbo é tradicionalmente usado.

Outro caso emblemático são os “bebês racistas”, a nova invenção do progressismo. Num texto extremamente bem construído, Eli Vieira, da Gazeta do Povo, traz a discussão bizarra que está ocorrendo na Europa com relação a bebês supostamente racistas. Em 2005, o neurocientista Yair Bar-Haim, do Departamento de Psicologia da Universidade de Tel-Aviv, conduziu um estudo com 36 bebês e, nesse estudo, o pesquisador notou que a maioria deles olhava por mais segundos para cuidadores da mesma raça que eles. Em 2012, outro estudo, basicamente igual, foi conduzido por Talee Ziv, da Universidade Harvard. A conclusão que os progressistas estão extraindo daí é que o racismo pode ser atávico, embrionário, quase que metafísico, e que a única forma de expurgar esse mal da humanidade é conduzir políticas públicas de reeducação e correção moral constantes nos indivíduos.

Tais ditadores domésticos não dominam por ações revolucionárias. A dominação progressista se dá através de pequenas inundações

Na mesma toada de obsessão pela correção moral da humanidade, de intervenção ética na psiquê dos indivíduos, a galera da USP implementou, enfim, a linguagem neutra em seus canudos de formatura. “Formandes.” A linguagem neutra se torna lei em alguns setores que acreditam que o homem deixará de ser escroto, racista e preconceituoso porque uma letra pode ser introduzida politicamente nas palavras que denotam gênero. É muita fé e burrice numa só tacada.

Ditador das pequenas causas

A ideologia progressista conseguiu introduzir em nosso cotidiano o ditador das pequenas causas. Hoje, a ditadura, ao estilo nazista e comunista, não depende mais tanto de um poder central. Depende mais da abnegação política e da sujeição psicológica de seus adeptos, que se tornam fiéis ditadores de bairro, tiranos familiares, déspotas de esquina. São aqueles adolescentes que, num almoço de família, tentam convencer com retóricas uspianas por que a avó está errada ao dizer que o vizinho é “preto”. Ou por que dizer que gato preto dá azar pode revelar uma mentalidade profundamente fascista.

Tais ditadores domésticos não dominam por ações revolucionárias, tal como Fidel entrando em Havana, ou a Bastilha sendo tomada pelos revoltosos franceses. A dominação progressista se dá através de pequenas inundações: quando na canela, geram risos dos incrédulos; quando na cintura, preocupações brandas. Agora que molestam os pescoços dos desavisados, limitando-os o direito de falar e agir, geram patéticas caras de espanto.

Se aceitamos que nosso vizinho diga como devemos conduzir nossos lares, eles não são mais tão nossos. Minha mãe dizia que seu filho passa a ser menos seu quando se aceita que terceiros digam como criá-lo. A moral social e a liberdade individual funcionam da mesma maneira. Se não somos racistas, e conscientemente sabemos disso, não desprezamos, desmerecemos nem diminuímos ninguém por sua origem, cor de pele ou sexo, por que devemos aceitar que os gritos juvenis de uma turba raivosa, doutrinada e completamente bêbada de políticas afirmativas nos faça duvidar do que não somos?

O que deve ficar claro para o homem comum, acuado e trancafiado no medo ante a gestapo progressista é que tudo isso não trata de um apelo moral contra o racismo. Nem sequer tem a ver com isso. O Black Lives Matter se importa com os negros que estão em seu redil. Os negros conservadores ou que não se importam com suas militâncias são tratados como qualquer branco explorador.

Algo como o Ciro Gomes chamando o deputado estadual de São Paulo, negro e gay Fernando Holiday de capitão do mato. Para o feminismo corporativo, os direitos das mulheres não têm nada a ver com as mulheres. Quando José de Abreu cuspiu na face de uma mulher, não se viu sequer uma organização feminista disparar contra o comunista global. O progressismo e sua sede de justiça social são um poleiro de hipócritas.

Mas mais do que tirano, o progressismo é chato: “Não use tal palavra”, “não vista tal roupa”, “não vote em tal pessoa”, “e não pense tais ideias”, “não acredite em tais princípios”. Sonho com o instante em que a jornalista da Globo não pedirá desculpas para agradar a uma turba burra, mantendo assim ereta a sua espinha moral. Poucas coisas são tão necessárias, hoje, como o ato de não ceder às sanhas dos ditadores das pequenas causas.

Leia também “A reversão da censura”

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17 comentários Ver comentários

  1. “Se não somos racistas, e conscientemente sabemos disso, não desprezamos, desmerecemos nem diminuímos ninguém por sua origem, cor de pele ou sexo, por que devemos aceitar que os gritos juvenis de uma turba raivosa, doutrinada e completamente bêbada de políticas afirmativas nos faça duvidar do que não somos?”
    Excelente!

  2. Geração hipócrita. Deve- se tolerar a diversidade, que crianças sejam trans, mas não toleram crianças mais agitadas, já querendo rotulá-las como hiperativas e encaminhá-las a psiquiatras para serem medicadas, enquanto acham lindo as que querem mudar de sexo e ai de quem recomende um psicólogo.

  3. Progressistas é como eles chamam a si mesmos, assim como a Alemanha comunista se chamava de RDA (democrática).
    Na verdade é mais uma das incontáveis mentiras que estes esquizofrênicos tentam impor pela repetição e pela complacência de quem ouve.
    Nada do que fazem ou são tem a ver com progresso.

  4. Artigo formidável. Parabéns. Não devemos ceder um milímetro sequer a essa turba “progressista”. Vão encher o saco do capeta no inferno.

  5. Eu me recuso a chamar esses autoritários narcistas de “progressistas”. O “progressismo” que só provoca retrocesso é uma contradição insuperável.
    Agora, essa turba já deixou de ser “chata” há muito tempo. Eles são perigosos, eles arruinam a vida das pessoas. Ser chato é direito de qualquer um, mas quando as ações provocam danos reais, já muda de figura e chamar de chato não deixa de ser passar pano para algo perverso.

  6. Caro Pedro, parafraseando o Rodrigo Constantino, é importante reforçarmos que, além de chata, as pautas identitárias são extremamente perigosas, pois está reforçando a ditadura das minorias.

  7. Esse mesmo apresentador da Globo News que passou um sabão em sua colega é o mesmo que foi visto andando na praia durante o Lockdown imposto por eles mesmos.
    Esse rapaz não passa de um grande hipócrita

  8. SO TEM UM JEITO DE SE DAR COM ESSA TURBA ….
    NÃO dê emprego, atenção amizades ou coleguismo a esses seres facistóides….
    CANCELE-OS E AS EMPRESAS QUE OS EMPREGAM E DÃO VOZ TAMBÉM..

  9. Excelente matéria, parabéns Pedro Henrique Alves.
    Devemos ficar atentos, a dominação progressista começa com “pequenas inundações”.
    O vexame, injusto, que a jornalista da Globo passou, me deixou revoltado.

  10. Meu mais sincero aplauso à forma clara e precisa com que o tema da ditadura de costumes imposta por essa turma progressista foi trazido. Texto lapidar.

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