Ilustração: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
Ilustração: Montagem Revista Oeste/Shutterstock

Os sofistas contemporâneos

Como ontem era “negacionismo” questionar as medidas draconianas impostas durante a pandemia, hoje é “negacionismo eleitoral” duvidar da segurança das nossas urnas eletrônicas

“O discurso sem sentido nem consistência é a causa da tirania.”
Eugen Rosenstock-Huessy, A Origem da Linguagem

Platão foi um dos primeiros pensadores a descrever o fenômeno da retórica política como uma patologia da comunicação. Para o filósofo, a linguagem sadia possui duas propriedades fundamentais. Antes de tudo, ela comunica a realidade, no sentido de referir-se a algum objeto real que não foi criado pela linguagem, e que, portanto, a transcende. Além disso, essa realidade sobre a qual falamos deve ser comunicada a alguém, o que faz da linguagem um fenômeno essencialmente interpessoal.

Nos diálogos platônicos, os sofistas (ou filódoxos, os “amigos da doxa”) são os grandes mestres na arte de manipular as palavras e, empoando-as, afastá-las do contato com a verdade. A corrupção linguística sofista consiste numa atenção desmedida aos aspectos formais e puramente estéticos da linguagem, assim convertida num domínio especializado à parte, e não, como concebida pelo filósofo, como o meio comum pelo qual o espírito humano se manifesta. As duas propriedades elementares da linguagem humana sadia — a referencialidade e a interpessoalidade — são corroídas pelo ácido sofístico, um problema para o qual Sócrates chama atenção o tempo todo.

Com efeito, para o sofista, a linguagem é um sistema fechado em si mesmo, e não guarda relação necessária com o real. Pouco interessado no que dizer, o sofista preocupa-se obstinadamente com o como dizer. “A retórica não deve conhecer como as coisas são em si mesmas” — diz Sócrates no Górgias —, “mas descobrir algum mecanismo persuasivo de modo a parecer, aos ignorantes, conhecer mais do que aquele que tem conhecimento.” Daí que, anátema ao verdadeiro diálogo (não por acaso a forma escolhida por Platão para apresentar a sua filosofia), a retórica sofística se preste apenas ao comando unilateral sobre o outro, mesmo quando empacotado em salamaleques e rococós verbais. É justamente o que Sócrates leva Górgias a confessar, ao lhe perguntar sobre o bem específico advindo da retórica, ao que o vaidoso sofista responde: “Aquele que é, Sócrates, verdadeiramente o maior bem e a causa simultânea de liberdade para os próprios homens e, para cada um deles, de domínio sobre os outros na sua própria cidade”.

Se a palavra do filósofo é sempre intersubjetiva e diádica — ou seja, flui de uma consciência individual a outra, ambas idealmente ansiosas por ascender à verdade —, a palavra do filódoxo é, ao contrário, invariavelmente voltada a uma audiência coletiva real ou imaginária, sobre a qual procura exercer um poder de persuasão. “O retor é capaz de falar contra todos e a respeito de tudo, de modo a ser mais persuasivo em meio à multidão” — diz Górgias. “Ou em meio a ignorantes” — responde Sócrates. Eis por que, para o filósofo, a retórica é uma perversão da comunicação tanto quanto a tirania é uma perversão da política.

Entre esses dois tipos de perversão, contudo, observa-se mais que um mero isomorfismo. Do ponto de vista do sofista, o interlocutor não é uma pessoa, mas uma presa. O discurso retórico nega a dignidade do ouvinte, já que o propósito não é a comunicação, mas a manipulação. Não resta aí qualquer diálogo entre um sujeito e outro, senão apenas o domínio de um sujeito sobre um objeto. Portanto, entre a corrupção linguística e a corrupção política há uma relação de causa e efeito, porque o abuso sofístico da palavra prepara o terreno para o abuso tirânico da autoridade. Todo ambiente politicamente totalitário (com censura, perseguição, inquéritos ilegais, processos farsescos, etc.) começa com uma patologia da linguagem.

Muito poder e pouca sabedoria

Mais de 2.500 anos depois de Platão (“os sofistas não nos são tão extemporâneos como poderíamos supor”, bem disse Hegel), cá estamos nós, brasileiros, num ambiente plenamente sofístico, dominado por retórica política de quinta categoria e por tentativas de imposição de um consenso vocabular por parte de uma elite política e cultural que se vê como a própria encarnação da República. Talvez não seja coincidência, aliás, que nosso processo de corrupção político-linguística seja avançado por magistrados com muito poder e pouca sabedoria. Afinal, como admitiu o próprio Górgias, os tribunais são sempre um terreno fértil para o exercício da retórica.

Com essa retórica bacharelesca, os autores da patocoada procuram emprestar uma credibilidade postiça ao sistema eleitoral brasileiro

Vimos claramente aquela tentativa de imposição de consenso no caso da pandemia, no qual tudo que fugisse à narrativa política dos covidocratas, conquanto baseado em dados, evidências e bom senso, era fulminantemente rotulado como “negacionista” e contrário à ciência ou à verdade oficial. E vemos o fenômeno se repetir agora em relação ao sistema eleitoral brasileiro, subitamente transformado numa nova vestal imaculada, de cuja pureza só mesmo um subversivo de alta periculosidade ousaria suspeitar.

Tamanha é a continuidade da estratégia discursiva que, em reunião com um grupo de advogados petistas (nada a suspeitar aí, certo?), o presidente do TSE, ministro Luiz Edson Fachin, voltou a empregar a expressão “negacionismo”, agora apenas acrescido do adjetivo eleitoral. Sim, tal como ontem era “negacionismo” questionar as medidas draconianas (praticamente ineficazes, moralmente condenáveis) impostas durante a pandemia de covid-19 — o lockdown, o uso obrigatório de máscaras e o passaporte sanitário —, hoje é “negacionismo eleitoral” duvidar da segurança das nossas urnas eletrônicas, suspeitar da falta de transparência e controle externo do processo e questionar a parcialidade das autoridades eleitorais, que agem abertamente como atores políticos de oposição ao presidente da República, ora candidato à reeleição.

Edson Fachin, ministro do STF | Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

O truque verbal de Fachin é demasiado rudimentar, consistindo em associar a imagem dos críticos à dos negacionistas do Holocausto. Assim, afirmar que as urnas são inauditáveis — como concluíram a auditoria independente contratada pelo PSDB em 2014 e vários outros especialistas em segurança da informação (a exemplo de Walter Del Picchia, professor titular da Escola Politécnica da USP) — seria equivalente a negar o Holocausto. Ou também dizer — como disse em junho de 2021 a jornalista Patrícia Campos Mello, insuspeita de bolsonarismo — que, além do Brasil, só Bangladesh e Butão usam urna eletrônica de primeira geração, sem comprovante do voto impresso. Ou ainda que, contrariamente à mentira mil vezes repetida pelo ministro Luís Roberto Barroso, a proposta de voto impresso auditável não equivale a um “retorno ao voto em cédula” — mito que, antes de embarcar de corpo e alma na campanha antibolsonarista, o próprio TSE tratou de desfazer em vídeo institucional.

Contra esses “fatos sabidamente inverídicos” — sabidamente apenas para a nomenklatura do Ministério da Verdade 2.0, claro está —, as autoridades eleitorais e seus companheiros de viagem bradam slogans e frases feitas do tipo “nunca houve registro de fraude”, “o sistema eleitoral brasileiro é motivo de orgulho e um exemplo para o mundo” ou “o voto impresso seria um retrocesso”. Foi esse tipo de coisa que, por exemplo, agindo de forma coordenada como um típico intelectual coletivo gramsciano, um bando de promotores e magistrados começou a repetir nas redes sociais, com um textinho copiado e colado no seguinte teor: “Sou fulano de tal, promotor ou juiz há tantos anos, com vasta experiência justiça eleitoral blá blá blá… Nunca verifiquei indícios de irregularidades no sistema de votação e contabilização dos votos. Nosso sistema é seguro e rápido”.

Com essa retórica bacharelesca, os autores da patocoada procuram emprestar uma credibilidade postiça ao sistema eleitoral brasileiro, ocultando o fato de que suas experiências pessoais com a magistratura não contam absolutamente nada para a eventual identificação de fraudes, as quais, caso ocorram, se dão no software das urnas ou nas mídias externas que lhe são acopladas. Ora, se esses magistrados não verificaram fraude alguma é justamente porque o sistema é inverificável. Que não tenham visto nada não é prova de que nada houve. Antes pelo contrário, trata-se de mais um indício da inauditabilidade do sistema, acessível apenas a técnicos em segurança da informação. O sistema é tão falho na identificação de vulnerabilidades que o TSE só ficou sabendo da famigerada invasão de 2018 (divulgada em agosto do ano passado pelo presidente Jair Bolsonaro e pelo deputado Filipe Barros) porque o próprio hacker — que passou oito meses dentro do sistema, acessando inclusive o código-fonte das urnas eletrônicas — confessou a invasão a uma revista de informática. O arquivo log de suas atividades foi apagado.

Resta que, quanto mais expostos em seus sofismas, mais os apóstolos do sacrossanto sistema eleitoral brasileiro — tomado como Ersatz da democracia, e não como um simples meio de assegurá-la – insistem nos chavões habituais, recorrendo ao autoritarismo estatal para enfiá-los goela abaixo da população. De tal modo que, assim como o escritor Theodore Dalrymple concluiu em relação aos regimes comunistas que visitou no fim dos anos 1980, chego também à conclusão de que o objetivo da propaganda do TSE já não é persuadir, e muito menos informar, mas humilhar e emascular. Nesse sentido, a linguagem será tanto mais eficiente quanto menos verdadeira for, e quanto menos corresponder à realidade observável. Quanto mais contrária à experiência ordinária das pessoas às quais se dirige, mais talhada estará para tornar dóceis e impotentes os demais cidadãos, os quais, desprezando-se por não ousar dizer aquilo seus olhos veem, senão apenas o que os poderosos do turno autorizam, terminam reduzidos a um mutismo catatônico, tornando-se presas fáceis para os sofistas contemporâneos, os verdadeiros lobos em toda essa história.

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