O fator Nordeste nas eleições de 2022

O pragmatismo político da região muda o jogo de forças, enquanto o governo federal prepara um megaprograma para transformar o semiárido

O nordestino é um lutador, um pragmático e um ser político por natureza. Na região, mesmo em lugares de difícil acesso, onde o Estado teima em não se fazer presente, o povo sabe interpretar e entender as ondas, as tendências e, provavelmente como nenhuma outra população no país, vislumbra no pragmatismo político uma resposta coerente à sobrevivência. Aproximar-se do poder central é, muitas vezes, garantia de recursos e investimentos.

Por mais que a esquerda ainda teime em afirmar que o Nordeste veste vermelho, essa premissa não é uma verdade absoluta. Muito pelo contrário. O nordestino é hábil no jogo político e movimenta-se de acordo com suas necessidades e conveniências conjunturais. A eleição de nomes como José Sarney, Roseana Sarney e Antônio Carlos Magalhães, protagonistas de partidos como Arena e PFL, comprova essa característica.

Agora, a pandemia do coronavírus intensifica na região uma tendência iniciada depois da posse de Jair Bolsonaro. Uma espécie de “direitização” tem potencial de impactar decisivamente o cenário político presidencial para 2022. O governo federal sabe disso, bem como alguns notáveis coronéis políticos, que, com discrição, articulam alianças com o Planalto, sobretudo após a “licença” concedida pelo Centrão.

Eleitorado conservador na região aprova as falas da ministra Damares Alves

O eleitor nordestino constatou que eram fake news as histórias propagadas na região segundo as quais Jair Bolsonaro, se eleito, trabalharia pela extinção do Bolsa Família. O programa não apenas continuou como ganhou uma 13ª parcela, equivalente ao 13º salário. No caso do abono emergencial, R$ 27,4 bilhões foram pagos a beneficiários nordestinos. O eleitor vê também as promessas de expansão do saneamento básico serem sistematicamente adiadas — no Nordeste, 39% da população tem acesso a esgoto tratado, ante 68,7% no Sudeste; enquanto as empresas estaduais da região querem manter o monopólio, o governo federal tenta aprovar no Congresso um novo marco do saneamento, que permitirá a ampliação dos investimentos da iniciativa privada.

Há que considerar, ainda, o caráter conservador de parte expressiva do eleitorado local. Quando a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, dá entrevistas em programas populares de TV sobre a campanha Tudo Tem Seu Tempo, que estimula adolescentes a não iniciar precocemente a vida sexual, as buscas na internet sobre medidas para evitar a gravidez na adolescência aumentam nos Estados nordestinos em até 70%. É um sinal de que as falas da ministra estão reverberando entre a população.

Pesquisas de opinião já dão conta do fenômeno. De acordo com levantamento da XP Investimentos divulgado em 12 de junho, o governo Bolsonaro foi avaliado como ótimo ou bom por 22% dos entrevistados nordestinos. Observado de forma isolada, o número pode não parecer positivo. Entretanto, o porcentual de aprovação ótima ou boa na região atingiu o piso histórico de 15% em 30 de abril, após o impacto da saída do ex-ministro da Justiça Sergio Moro. Uma recuperação de 7 pontos porcentuais em menos de dois meses não é desprezível.

Na internet, identificam-se sinais igualmente positivos. Nos últimos 90 dias, mesmo com a crise do coronavírus e tendo sua imagem bombardeada dia e noite nos telejornais, Bolsonaro manteve um nível de interesse em buscas do Google no Nordeste na casa dos 77,4 pontos de um máximo de 100 — interesse elevado, que indica alta popularidade, acima de potenciais adversários na região, como Ciro Gomes (63,4) e Flávio Dino (13,8).

O Centrão tem importante papel na articulação de apoios de líderes políticos na região

Boa parte dos líderes locais monitora atentamente esses sinais e calibra a aproximação com o Planalto. É o que têm feito, por exemplo, os governadores de Alagoas, Renan Filho (MDB), e do Ceará, Camilo Santana. Santana, apesar de petista, age nos bastidores com extremo pragmatismo. Em algumas sub-regiões importantes, como a Zona da Mata pernambucana e o centro-norte baiano, coronéis políticos têm migrado para a direita.

O efeito Centrão também não é desprezível. Alguns dos principais nomes do bloco são nordestinos: o paraibano Wellington Roberto, deputado pelo PL; o deputado alagoano Arthur Lira (Progressistas); e o senador Ciro Nogueira (Progressistas), do Piauí. Além disso, integrantes de destaque do governo são da região, como o líder no Senado, Fernando Coelho (MDB-PE). A aproximação de caciques como esses com o presidente Jair Bolsonaro traz de volta à cena política o clássico jogo do “ganha, ganha”. Bolsonaro ganha apoio; os membros do Centrão ganham em expressão e influência na Esplanada dos Ministérios, a ponto de sugerir obras e ações justamente em favor da região onde a popularidade do presidente registra tendência de alta.

Na campanha para as eleições municipais de 2020, os comandantes do Centrão querem que o presidente Bolsonaro viaje pelo Nordeste para atuar como cabo eleitoral de seus candidatos e reforçar o discurso conservador.

Embora haja características comuns a todos os Estados da região — forte atuação de caciques políticos, dependência de programas sociais, níveis elevados de pobreza —, há que considerar determinadas peculiaridades. O Nordeste não é um bloco monolítico. De modo que, obviamente, não se espera adesão integral ao governo Bolsonaro. Ciro Gomes (PDT-CE) tem seu capital político e é candidatíssimo em 2022. Flávio Dino (PCdoB), governador do Maranhão, busca projetar-se como nome alternativo da esquerda. E o governador baiano Rui Costa, petista extremado, é aliado incondicional de Jacques Wagner.

Os opositores de Bolsonaro terão dificuldade de botar na conta do governo federal as mortes por covid-19 na região. Como se sabe, por determinação do Supremo Tribunal Federal, coube à União repassar os recursos, e aos governos estaduais e às prefeituras, a gestão do dinheiro e o estabelecimento de políticas públicas. Os governadores também precisarão esclarecer os gastos excessivos com despesas sem licitação. Embora amparados na lei de calamidade pública, numerosos contratos apresentam irregularidades.

Leia a reportagem “O ataque do Covidão”

Um megaprograma com potencial de integrar o semiárido ao circuito do agronegócio

O Planalto identifica a oportunidade para ter uma presença mais marcante na região. “O Nordeste é a pauta mais urgente e fundamental, mais até do que a Amazônia”, diz o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, general Augusto Heleno. “O Nordeste pode mudar o panorama do Brasil.”

Em razão dos desvios colossais das gestões petistas, durante as quais houve farto derramamento de recursos sem que obras saíssem do papel, o fundamental agora é planejamento cuidadoso e garantia da capacidade de gestão e de execução. No Maranhão, uma refinaria prometida por Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff ficou no canteiro de obras. A Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, tornou-se símbolo da corrupção identificada pela Lava Jato, também não foi concluída e agora está em processo de venda. Seu orçamento inicial era de US$ 2,3 bilhões e chegou a US$ 18,5 bilhões. “É uma questão de investir corretamente e não ter roubalheira. Caso tenhamos uma série de presidentes com esse pensamento, o país será capaz de resolver os problemas do Nordeste”, diz Heleno.

A aposta do governo é numa estratégia que permita a saída do assistencialismo por meio da criação de oportunidades de trabalho. O nome de batismo do programa ainda não está fechado, mas o grupo que trabalha na formulação — uma equipe interdisciplinar com técnicos de vários ministérios, do BNDES, da Embrapa e até da iniciativa privada — gosta de “Sertanejo Forte” ou “Sertanejo Vencedor”. Como slogan, “Família com renda mínima é família sem fome” ou “Família com renda máxima é família vencedora”.

O programa pretende integrar pequenos produtores rurais da região às operações do grande circuito do agribusiness. Presume-se que seja possível aproveitar recursos naturais do bioma da caatinga. Haverá crédito, assistência técnica e garantia de compra da produção. Todos os tipos de culturas capazes de prosperar no semiárido poderão receber recursos. “Todo o trabalho até aqui desenvolvido pelo governo, já demonstra que somos quem mais olhou e atendeu ao Nordeste brasileiro”, complementa o ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni.

O grupo de trabalho analisa um conjunto de dados para estabelecer critérios claros para a aprovação de projetos, tais como área, PH do solo, acesso a água, indicadores sociais etc. Não haverá dinheiro a fundo perdido, e sim recursos a custos camaradas: R$ 25 bilhões anuais em um período de dez anos — ou seja, R$ 250 bilhões em créditos no total, operados pelo Banco do Nordeste e pela Caixa.

O crédito poderá ser tomado até mesmo por beneficiários do Bolsa Família. Será possível favorecer também quem ainda não tem terra para plantar — R$ 3 bilhões por ano serão destinados a uma linha de crédito para a compra de terrenos. Outros R$ 4 bilhões irão para uma linha habitacional, de modo que o proprietário possa construir ou reformar a casa-sede. Para a infraestrutura hídrica e irrigação, R$ 3 bilhões; os R$15 bilhões anuais restantes serão para o sistema de produção em si, o modelo integrado à agroindústria, seja com ovinocultura, caprinocultura, apicultura, cultivo de mamona, sisal ou ainda o tradicional umbuzeiro.

Trata-se de um megaprograma com potencial de mudar o semiárido nordestino, produzir riquezas, gerar muitos empregos e, finalmente, tornar a região menos dependente do Estado e mais próxima do virtuosismo do mercado — um caminho oposto àquele historicamente defendido pela esquerda. Caso o governo seja capaz de entregar ao menos as primeiras etapas concretas desse projeto, o Nordeste poderá ser uma grande surpresa no jogo eleitoral de 2022.

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