Foto: Reprodução/Shutterstock
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O agro, o mercado e o supermercado

Se depender do agro, alimentos em qualidade e quantidade não faltarão. O agronegócio brasileiro já é o supermercado do mundo

Os supermercados são um elo fundamental entre produção agropecuária e consumidores. Eles faturaram R$ 611 bilhões em 2021 e representam 7% do PIB brasileiro. O setor supermercadista, complexo e heterogêneo em sua composição, envolve 3,1 milhões de colaboradores diretos e indiretos. E atende 28 milhões de pessoas diariamente em quase 93 mil lojas de diversas redes nacionais e internacionais. Uma ou várias vezes por semana, indivíduos e famílias compram alimentos, sobretudo produtos perecíveis. O consumidor é cada vez mais protagonista. Se não pode pechinchar diante de códigos de barra, é capaz de planejar, comparar tamanhos de embalagens, marcas, supermercados e buscar os melhores preços e ofertas.

Como o próprio nome já diz, os supermercados operam no mercado. O termo vem de longe. Na Roma antiga, mercātus designava o local onde mercadores e consumidores se encontravam para realizar trocas e compras. Sobretudo de produtos perecíveis: verduras, frutas, peixes e carnes. Por sinédoque, o mercado designa o conjunto de pessoas e entidades efetuando trocas. Ele é o meio e a consequência de um entendimento.

Em latim, o verbo mercari refere-se a comprar, como nas formas merx (local de exposição das mercadorias) e mercis (preço expresso em moeda). Daí a origem da merce-aria e de palavras como mercador, mercadoria, mercantil e mercantilismo. A palavra comércio, do latim commercium, significa troca de mercadorias por dinheiro (cum merx). Merc-úrio é o deus do comércio. Seu dia, mercurii dies, é nossa despaganizada Quarta-Feira, graças ao bispo de Braga, S. Martinho de Dume. O dia de Mercúrio segue presente no francês (mercredi), no italiano (mercoledi), no castelhano (miércoles) e no romeno (miercuri). Ainda assim, as grandes compras ocorrem nos fins de semana.

Estátua do deus Mercúrio, pintada por Charles Meynier | Foto: Reprodução

Como ninguém vive sem supermercado, sua rede é um meio precioso para avaliar o comportamento dos consumidores brasileiros. E, na evolução do consumo, há boas notícias. O Índice do Consumo nos Lares Brasileiros, medido pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras), no primeiro semestre de 2022, encerrou com uma alta de 2,20% com relação a 2021. Em junho, o crescimento do consumo foi de 6,03% em relação ao mesmo mês em 2021. Todos os indicadores da ABRAS são deflacionados pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Como explicar esse crescimento em tempos de pós-pandemia? Ele resulta do encontro de consumidores e supermercados com a produção agropecuária, numa economia aberta e em crescimento.

Agricultores colhem maçãs em Água Doce, Santa Catarina | Foto: Reprodução/Shutterstock

Do lado dos consumidores ocorre um aumento de renda, principalmente devido às quedas sucessivas nas taxas de desemprego e na inflação. Além da retomada da economia, da redução de impostos e da injeção de recursos extras por parte do governo federal, sobretudo com os auxílios sociais emergenciais. O crescimento do PIB do Brasil é sempre revisado em alta.

Desde a inflação nos alimentos, com o conflito na Ucrânia e os impactos dos lockdowns, os consumidores passaram a pesquisar mais o valor dos produtos, planejar melhor suas compras e buscar boas alternativas de marcas e preços. Os supermercados reagiram rapidamente e ofereceram aos consumidores uma grande diversidade de marcas e opções por todo o país. Houve intensificação de novas ofertas nos supermercados para impulsionar as vendas. E cresceu o número de marcas responsáveis por atender a 80% do consumo dos lares brasileiros.

Segundo dados da Abras, os supermercados dobraram a oferta de marcas em suas redes em 2021: 101 diferentes marcas de arroz, 94 de feijão, 30 de bolachas, 28 de açúcar, 25 de leite, 18 de café e 16 de óleo de soja, por exemplo. Muitos consumidores optaram por produtos de marca própria dos supermercados, cujo preço é, em média, 20% a 30% mais baixo. Essas marcas contribuem para equilibrar os preços no mercado. Todo esse oferecimento de marcas dá uma ideia da capilaridade e da articulação do setor supermercadista e de varejo com as diferentes cadeias produtivas do agronegócio e dos resultados positivos dessa diversificação da oferta.

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Grande parte dos supermercados é uma vitrine do agronegócio. A exposição de frutas, legumes e verduras ocupa lugar de destaque na maioria das lojas, junto com a exposição de laticínios, frios, peixes e carnes. Produtores, indústria agroalimentar e supermercadistas oferecem aos consumidores alimentos seguros, produtos saudáveis, sem nenhum tipo de contaminação ou resíduos de natureza química ou biológica, e de grande qualidade nutritiva. Todos cuidam da origem dos produtos, medem perdas e reduzem desperdícios no processo de produção, colheita, transporte, transformação e distribuição com programas de rastreabilidade. 

Existe uma união de esforços entre agronegócio e supermercados sobre necessidades mútuas, e avançam juntos sobre pautas únicas dos dois setores. Supermercados e mercados varejistas são uma extensão do agronegócio voltada diretamente ao consumidor. As lojas Farm de uma rede de supermercados chegam a apresentar-se como “a fazenda dentro da cidade”.

Supermercado Oba, da rede Farm, em São Paulo | Foto: Divulgação

A sinergia entre o dinamismo do agronegócio e da agroindústria e a evolução dos supermercados aproxima os consumidores de novas opções de produtos. Um exemplo nas últimas décadas foi a abertura no espaço das gôndolas para a promoção de novos produtos do agro, como os cafés especiais. Agora, o consumidor encontra grande variedade de cafés especiais. O mesmo ocorreu com os vinhos nacionais. Sua promoção nos supermercados contou com a cooperação dos viticultores e incluiu o treinamento de pessoal das lojas em vinícolas do Rio Grande do Sul. Novos cortes de carnes suínas foram objeto de campanhas articuladas entre a suinocultura e os supermercados. E seguem iniciativas em varejo digital (e-commerce), agricultura orgânica, produtos carbono neutro etc. Tudo sempre à mercê do preço justo.

Os impostos estaduais não deveriam incidir sobre alimentos. Pior, governadores aumentaram esses impostos sobre o agro durante a pandemia

Em português, merce é qualquer produto (matérias-primas, gêneros, artigos manufaturados etc.), passível de ser comercializado. Em latim, mercis designa a coisa vendida, a mercadoria. E toda mercadoria, tem merces, tem seu preço. Daí até merce-nário (ao pagar seu preço, ele assume qualquer causa). Mais exatamente, mereo e mercës significam receber como parte ou como preço a ser pago por um bem ou serviço, ou ainda ganhar seu salário. Daí: mérito, merec-imento e emérito (quem terminou de servir).

Mercës alcança até o nome Mercedes (do acusativo mercedem) no sentido de recompensa, valor a ser pago, como no resgate de cativos. Ou o favor dado a alguém, poupado, sem cobrança. Os impostos estaduais (ICMS) não deveriam incidir sobre alimentos. Pior, governadores aumentaram esses impostos sobre o agro durante a pandemia. A cadeia alimentar, do produtor ao consumidor, merece uma graça, uma mercê. Menos impostos. Merci!

Agora uma curiosidade. Se a palavra latina, de origem indo-europeia, para o local do mercado é fórum, como o mercatum entrou no vocabulário latino nesse sentido? Para estudos aprofundados de etimologia, a palavra mercatum foi absorvida pelos romanos da língua comercial dos fenícios: makîrum. Ela deriva de uma raiz semítica comum mkr, cujo significado é fazer comércio, comerciar. Em ugarítico, makrûma designa mercadores; em hebraico mkr, regatear; em púnico mkr, vendedor; em siríaco mkr, comprador; em acadiano makârum, comerciar. Essa raiz mkr está até no inglês, na palavra marketing, derivada de market (mercado).

Hoje, além do local onde se efetuam as trocas, o mercado representa uma forma de organizar os movimentos comerciais e o ambiente no qual evoluem empresas e consumidores. Nele se encontram os clientes potenciais e a concorrência, a oferta e a demanda, de bens e serviços. E a demanda dos lares crescerá no Brasil, sobretudo por alimentos.

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O pagamento de novos e maiores auxílios federais, para outras categorias profissionais, como caminhoneiros e taxistas, a queda acentuada da inflação, a redução do desemprego, além de eventos como a Black Friday e as festas de fim de ano, aumentarão o consumo nos lares nos próximos meses, de forma mais intensa e estável. De 50% a 60% dos valores liberados pelo governo serão destinados à cesta de consumo. Para a Abras, neste ano, o crescimento do consumo nos lares será entre 3% e 3,3%.

Se depender do agro, alimentos em qualidade e quantidade não faltarão. O agro, o mercado e o supermercado demonstram: para ter-se pão à mesa e reduzir a desnutrição, alimentos não faltam. O agronegócio brasileiro já é o supermercado do mundo. O fundamental é a população ter renda.

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21 comentários Ver comentários

  1. É uma verdadeira aula, de fato. Tudo o que se precisa saber está no texto. E o Agro comprovando ser, cada vez mais, o supermercado do mundo. Parabéns Mestre.

  2. Ler os seus textos, é ganhar um presente, pois vc sabe nos passar informações valiosas do Agro negócio Brasileiro..Como é bom ver nos super mercados gôndolas de variadas frutas, verduras e legumes, o que falta para a maioria dos Brasileiros é condições de adquiri-los.

  3. Texto brilhante. Parabéns. É sempre um prazer ler um artigo da lavra do Prof. Evaristo. Escreve com conhecimento de causa. Que excelente aquisição da Revista Oeste.

  4. Quanta cultura prof. Evaristo. Com relação a oferta de marcas variadas proporcionando melhores preços, gostaria de saber sua opinião sobre a PPI tão questionada recentemente sobre a politica de preços praticada pela Petrobras e severamente criticada pelo parlamento, que esquece que o nosso negócio agropecuário também praticou identica politica de preços. Como entender que uma garrafa de 900 ml de óleo de SOJA (temos para dar e vender) que custava em 2019 R$2,60 e recentemente atingiu R$9,60 ou mais. E o CAFÉ moído de R$7,50 para R$19,50, e a Cana (álcool e açúcar) e o MILHO, e a proteína animal, enfim produtos fartamente produzidos no pais e com altos preços para o consumo interno.
    Não sou contra a PPI porém é importante termos politicas para abastecimento interno que nos proporcione preços internos mais favoráveis com os ganhos obtidos nas exportações. Creio que é também a preocupação do professor Evaristo.

  5. Pois é, tudo muito lindo. Pena que eu nao posso comprar. Meu salario nao dá, está muito caro.
    Mas se o agronegocio e os supermercados ganham milhoes, que bom. Fico feliz por eles.
    E permaneço de varriga vazia.

  6. Com o amplo conhecimento que tem sobre o agro e sobre a história das civilizações, aí incluindo a etimologia das palavras, o Dr. Evaristo de Miranda sempre nos brinda com textos instigantes, de leitura agradável e com informações preciosas, valorizando o que o Brasil tem de melhor: a produção de alimentos! Parabéns, Dr. Evaristo!
    É o Brasil inteiro que agradece!

  7. Os artigos semanais do Dr. Evaristo de Miranda são de uma riqueza ímpar. Deveriam ser leituras obrigatórias nas escolas e universidades. Parabéns ao Dr. Evaristo e à revista Oeste.

  8. Parabéns Dr Evaristo!!!! O agronegócio é tao grande…. E conhecer todas suas cadeias se faz de extrema importância!!! Gratidão por sua dedicação!!!!!

  9. Desde sempre e em cada texto do Prof. Evaristo é sempre um privilégio para nós leitores sorvermos tanta sapiência.
    Agradeço à Revista Oeste a oportunidade de nos enriquecermos com o mestre por meio da publicação da série de artigos primorosos e de leitura obrigatória.
    Parabéns Prof. Evaristo.

  10. A força do agro brasileiro apavora países europeus e Estados Unidos que tentam de todas as formas boicotar. Parabéns Evaristo, excelente artigo.

  11. Realmente, os textos do Evaristo são um primor. Aprende-se muito. Sinédoque? Já fui ao Google saber do que se trata…Mas o principal: a pujança do nosso agro. A foto do supermercado abarrotado de produtos, é uma benção ! Imagino um venezuelano ou um cubano olhando pra isso. A fome que grassa em seus países, após anos de políticas nefastas, nos fazem pensar que aqui, ante as próximas eleições, nunca foi tão fácil escolher um lado. Em sã consciência, não há outro caminho. Essa esquerda estúpida, diante de evidências claríssimas, ainda quer nos convencer de que um mundo melhor pode vir. Não pode! O povo brasileiro há de escolher agora e sabemos o caminho que escolherá. Só não pode prevalecer a fraude, advinda de psicopatas encastelados em tribunais superiores, doentes mentais a serviços de forças espúrias, dispostos a tudo para manterem suas regalias e a dominação dos mercados cativos. É disso que se trata.

  12. Os textos de Evaristo são verdadeiras aulas de história, economia, etimologia e de várias outras áreas. Tudo escrito em português corretíssimo e agradável. É um deleite para os leitores. Parabéns, Oeste!!!

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