Cleiton Gontijo de Azevedo, senador eleito por Minas Gerais | Foto: Reprodução Twitter
Cleiton Gontijo de Azevedo, senador eleito por Minas Gerais | Foto: Reprodução Twitter

‘Lula nunca enfrentará uma oposição como a nossa’

Senador eleito por Minas Gerais, Cleitinho Azevedo criticou os ministros do STF e afirmou que Bolsonaro é o verdadeiro líder da direita brasileira

Cleiton Gontijo de Azevedo, mais conhecido como Cleitinho, trabalhou como verdureiro dos 15 aos 36 anos de idade. Era operador de caixa no varejão administrado pela família, localizado em Divinópolis, a 100 quilômetros de Belo Horizonte. Não fossem as barbeiragens dos políticos da região, o mineiro de linguajar simples não teria se aventurado pelos complexos terrenos das Assembleias, das Câmaras e do Senado Federal.

“Nunca pensei em ser político”, disse o senador eleito por Minas Gerais, ao explicar que a mudança de profissão ocorreu tardiamente. “Minha família inteira trabalha com verdura. Meu pai está nesse setor há mais de 50 anos.”

Cleitinho, que também era vocalista de uma banda regional, decidiu entrar na política depois de sofrer boicotes de vereadores, deputados e prefeitos. “Fazíamos muitos shows”, lembrou o parlamentar. “Como sempre fui revoltado, subia no palco e falava mal dos políticos. É claro que esse pessoal deixou de contratar a minha banda. Conforme os shows caíam, a minha popularidade aumentava.”

Essa popularidade encorajou o verdureiro e músico a tentar uma vaga na Câmara dos Vereadores de Divinópolis. Com um modesto investimento de R$ 1 mil, Cleitinho obteve 3 mil votos e conquistou uma das cadeiras destinadas aos candidatos da região. Dois anos depois, em 2018, o então vereador decidiu alçar voos mais altos: concorreu à Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Novamente venceu. Mas sua meteórica trajetória política tornou-se visível aos brasileiros apenas em 2022, quando foi escolhido por 4,2 milhões de mineiros e elegeu-se senador da República.

Em entrevista à Revista Oeste, Cleitinho revelou os detalhes de sua breve carreira na política, criticou a atuação dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e afirmou que o presidente Jair Bolsonaro (PL) é o verdadeiro líder da direita brasileira. A seguir, os principais trechos.

Por que o senhor decidiu entrar na política?

Nunca pensei em ser político. Minha família inteira trabalha com verdura. Temos sacolões espalhados pela cidade. Meu pai está nesse setor há mais de 50 anos. Eu e meus irmãos sempre trabalhamos como operadores de caixa. Durante os 21 anos que fiquei no varejão, também tive uma banda musical. Fazia shows e tudo o mais. Como sempre fui revoltado, subia no palco e falava mal dos políticos. Os contratantes pediam que fizéssemos elogios aos prefeitos das cidades, que, segundo eles, “financiavam” os shows da minha banda. Eu agradecia apenas à população, a verdadeira responsável por pagar a festa.

Como o senhor se tornou conhecido pelo povo mineiro?

Dez anos atrás, com o início da onda de YouTube, comecei a fazer videoclipes. Botava as minhas músicas lá. Eram conteúdos mais sarcásticos, paródias. Todos os assuntos relacionados à política serviam de inspiração. A partir disso, ganhei muita popularidade na cidade. Não queria entrar na política, apenas gostaria de ficar famoso. Queria que meus vídeos “explodissem”. Mas, em razão das críticas aos políticos, meus shows caíram. Os políticos deixaram de contratar minha banda. Conforme os shows caíam, minha popularidade aumentava.

Bolsonaro, Cleitinho e Romeu Zema | Foto: Reprodução Redes sociais

Em qual ano o senhor disputou a primeira eleição?

Tenho um irmão gêmeo, atual prefeito da cidade [Gleidson Azevedo]. Ele queria ser candidato a vereador em 2016. Esse meu irmão era responsável pelas entregas dos produtos do varejão. O pessoal sempre o confundia comigo. “Ô, Cleitinho, estou gostando muito dos seus vídeos, hein?”, dizia o povo. Falavam que meu irmão — eu, no caso — teria muito apoio caso fosse candidato a vereador. Nunca havia votado antes, nem tinha título de eleitor. Os shows caíram ainda mais, e fiquei muito revoltado. Certo dia, o apresentador Ratinho disse, em um programa de televisão, que se os cidadãos não se sentem representados pelos políticos, devem tentar se candidatar a cargos eletivos. Isso tocou meu coração. Pensei: “Sabe de uma coisa? Esses caras me tiraram aquilo que mais gosto, que é cantar. Então, vou tirar deles aquilo que eles mais gostam: roubar”. Naquele ano, confirmei minha filiação ao Cidadania. Eles elegeriam dois vereadores, precisavam de apenas 1,5 mil votos. No meu primeiro vídeo da propaganda eleitoral, disse o seguinte: “Gente, sou o Cleitinho. Não entendo nada de política. Não gosto de política. Estou entrando para quebrar o pau lá dentro”. Tive votos de protesto, estilo aos do Tiririca. Consegui 3 mil votos, fui o terceiro mais bem votado da região. Gastei R$ 1 mil, entre adesivos e colinhas.

Depois disso, o senhor pegou gosto pela política?

Por causa do apoio popular, decidi me dedicar à política. Busquei entender o assunto e calar a boca dos críticos. Estudei as leis e o regimento interno da Câmara dos Vereadores. Fiquei conhecido dentro do Estado. No meio do mandato, a população pediu que eu tentasse uma vaga como deputado estadual. Comecei a ter muitos seguidores e reconhecimento na política. Meus vídeos no Facebook ultrapassavam a marca de 1 milhão de visualizações. Concorri a deputado estadual e venci. A mesma história ocorreu na eleição para senador. A população pediu, eu gostei da ideia. Acabei eleito.

A que o senhor atribui essa carreira meteórica na política?

A minha situação é obra de Deus. Não sou estudado, não sou formado. Meus irmãos, ao contrário, têm diploma. Parece que Deus fez comigo igual fez com Davi. Escolheu aquele ali, não capacitado, e o capacitou. Ele me colocou na política. Virei vereador, deputado e senador. Consegui eleger meu irmão prefeito de Divinópolis. Estou me lixando para dinheiro e poder. Só gosto de aparecer, não posso negar. Meu objetivo é transformar a vida das pessoas.

Como o senhor avalia as manifestações contra a falta de transparência do processo eleitoral?

Desde que sejam pacíficas, apoio totalmente. Basta não tirar o direito de ir e vir das pessoas. Os governadores precisaram interromper os protestos nas rodovias, porque os manifestantes estavam atrapalhando a vida da população trabalhadora. Em Minas Gerais, o governador Romeu Zema pediu o apoio da polícia e desobstruiu as rodovias. De qualquer forma, o direito à manifestação está previsto na legislação brasileira. O próprio Bolsonaro foi alvo de manifestações contra si. Então, não vejo problema algum nos protestos. Os cidadãos precisam apenas respeitar as leis do país.

“Os políticos dizem que os Poderes são independentes, mas o país se transformou em uma monarquia do STF”

Qual é a avaliação do senhor sobre o resultado das eleições?

Estou triste, né? Apoiei Bolsonaro. Fizemos de tudo em Minas Gerais. No segundo turno, o próprio Zema participou da campanha. Conseguimos tirar uma diferença de 500 mil votos. Queria que o atual presidente vencesse, mas, infelizmente, não deu certo. Considero que houve um desgaste natural do governo. Bolsonaro enfrentou situações difíceis. A pandemia é um exemplo disso. Querendo ou não, a crise sanitária afetou a economia do país. Agora, a situação está começando a melhorar. Mesmo assim, algumas pessoas não conseguem entender isso. A oposição também contribuiu para desgastar o governo. Os petistas disseram que, na época do Lula, a população consumia picanha o tempo inteiro. Eles afirmaram que os alimentos eram mais baratos, e parte da população “compra” essas “informações”. O governo também precisou lidar com um aumento do preço dos combustíveis, embora Bolsonaro tenha conseguido reduzi-lo. Esses fatores prejudicaram o presidente.

A imprensa, o TSE e o STF colaboraram para esse processo de destruição da imagem de Bolsonaro?

Sem dúvidas. Não vou generalizar, mas parte da imprensa atrapalhou a reeleição de Bolsonaro. O TSE também. Sempre que o presidente dizia alguma coisa, o TSE dizia outra. Houve extrapolação de poder. Os políticos dizem que os Poderes são independentes, mas o país se transformou em uma monarquia do STF. Em uma de suas decisões, os ministros proibiram o povo de usar a camisa da Seleção Brasileira. É absurdo. Houve militância do Judiciário contra o presidente da República. Quando as fake news prejudicavam Lula, o TSE mandava tirar o conteúdo do ar em menos de 24 horas. Quando prejudicavam Bolsonaro, esqueciam do assunto. O STF e o TSE deixaram a desejar. O André Janones [deputado federal reeleito] disse que, se quisessem processá-lo por divulgar fake news, não haveria problema. Quem o julgaria seria o “Xandão”, segundo o próprio Janones.

Parlamentares alinhados a Bolsonaro foram eleitos em Minas Gerais, incluindo o senhor. Mesmo assim, Minas Gerais escolheu Lula. Por quê?

Se o Zema tivesse participado da campanha ainda no primeiro turno, o resultado da eleição poderia ter sido outro. A prova disso é que conseguimos tirar 500 mil votos do Lula. O governador de Minas Gerais ajudou a campanha de Bolsonaro apenas no segundo turno, entende? Ele foi às cidades e aos municípios mineiros, onde conversou com os prefeitos, com os deputados e com os vereadores. Zema fez total diferença, mas não foi o suficiente. No segundo turno, houve mobilização de diversos políticos mineiros. Contribuímos demais com a campanha de Bolsonaro. Rodamos o norte de Minas Gerais, o centro-oeste, a capital. Eu, Nikolas Ferreira [deputado federal eleito], Bruno Engler [deputado estadual eleito] e Zema buscamos apoio em várias cidades.

Como será a oposição ao governo Lula, considerando que diversos parlamentares conservadores foram eleitos?

Lula não tem meu apoio. Ele não é meu presidente. Farei uma oposição democrática ao petista. Ele nunca enfrentará uma oposição como a nossa. Entre 2003 e 2010, Lula não teve oposição. Agora, vamos fiscalizá-lo. Se houver qualquer coisa errada, iremos cobrar. Dos parlamentares que conheço, nenhum irá migrar para o petismo. Nikolas Ferreira, Junio Amaral e Maurício do Vôlei, por exemplo, devem permanecer na oposição. Não posso falar em nome de todos os deputados e senadores, mas acredito que Lula enfrentará forte resistência.

O senhor acha possível pautar o impeachment de ministros do STF na próxima legislatura?

Espero que sim. Muitos senadores eleitos concorreram ao Senado para tentar pautar o impeachment de ministros do STF. Uma CPI da Lava Toga também seria interessante. Estamos ouvindo o clamor popular. Se os senadores perderem a oportunidade de assinar o impeachment de ministros do Supremo, a população irá se frustrar. Todos ficarão decepcionados. Sabemos que o presidente do Senado é importante, porque ele é o responsável por dar sequência ao processo de impeachment. Por estar na primeira legislatura, eu não seria capaz de assumir o Senado. Não teria votos. Precisamos ter humildade. A única coisa que pedirei aos colegas é: se tiverem a oportunidade, pautem o impeachment de ministros do Supremo. Se quiserem meu apoio e meu voto, terão de se comprometer com essa ideia. Não podemos aceitar “engavetamento” de pedidos de impeachment. Isso é covardia.

O senhor acredita que o PT irá governar de maneira autoritária?

Com os deputados e senadores que foram eleitos, acho difícil. Temos ainda as redes sociais. Antigamente, existiam quatro Poderes no país: Executivo, Legislativo, Judiciário e imprensa. Hoje, temos mais um — as redes sociais. O mundo é outro. O PT terá dificuldade de governar de forma autoritária. Eles podem tentar, mas terão de enfrentar a fúria do povo. Há muitos deputados e senadores alinhados com as pautas liberais. O próprio Lula precisou reconsiderar algumas posições durante a campanha, como a questão do aborto. Depois das enormes pressões populares, ele disse ser contra o aborto. Isso mostra o poder da população e das redes sociais. Não é mais a imprensa que faz o jogo.

Como o senhor avalia o futuro dos conservadores nas próximas eleições?

Algumas pessoas dizem que Bolsonaro foi derrotado, mas não acredito nisso. Basta ver o resultado das eleições para o Senado e para a Câmara dos Deputados. Vários parlamentares estão alinhados com o presidente. Nikolas Ferreira, por exemplo, é o deputado mais votado do Brasil. Ele teve 1,5 milhão de votos. As pautas de direita estão em evidência. E o Parlamento dará voz à população. Se os esquerdistas tentarem promover pautas como o aborto e a ideologia de gênero, vamos combater. Brigaremos pela liberdade.

Leia também: “O árbitro do jogo foi parcial”

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9 comentários Ver comentários

  1. Espero também que os senadores, deputados e FFAA ao menos impeçam que essa cambada bote novamente as mãos nas estatais. Não é admissível que as estatais sejam do povo do PT e assemelhados como no passado.

  2. Oposição?? Se Lula subir a rampa, vai governar via decreto, com apoio do STF, ignorando totalmente o legislativo. Esse parlamentar pode até ser um cara legal, mas não tem muita noção da realidade.

  3. Pacheco apenas concorreu e venceu à presidência do Senado, para que o seu opositor não fosse esse vitorioso, Renan Calheiros 🤮

  4. Ainda não conhece as raposas do senado, liderada pelo seu conterrâneo Pacheco, que teve o apoio de Bolsonaro pra ser presidente do senado e lascou o capitão Bolsonaro, tá meio cru ainda.

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