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O erro do ‘lockdown’

Paralisação da economia não alterou a curva de contágio do coronavírus e pode causar mais mortes do que a covid-19, aponta estudo do J. P. Morgan

Os lockdowns causados pelo novo coronavírus não conseguiram alterar o curso da pandemia. Em vez disso, estão comprometendo milhões de vidas e poderão causar mais mortes do que a própria doença, aponta estudo do banco americano J. P. Morgan.

A queda nos índices de infecção desde que os bloqueios foram flexibilizados sugere que o vírus “provavelmente tem sua própria dinâmica”, não relacionada às “medidas muitas vezes inconsistentes de lockdown”, afirma relatório publicado pelo gigante de serviços financeiros. O J. P. Morgan, líder global no segmento, foi fundado em 1838 e tem tradição na publicação de relatórios que auxiliam seus clientes na tomada de decisões estratégicas.

Entre outros dados, o relatório destaca que a Dinamarca está entre os países que viram o Índice R continuar caindo depois que escolas e shopping centers foram reabertos e na Alemanha o indicador manteve-se abaixo de 1,0 com o relaxamento do lockdown. O Índice R expressa o potencial de propagação do coronavírus; R–zero é quando um infectado não contagia mais ninguém. Alguns países consideram um índice abaixo de 1,0 como fator determinante de que a epidemia está recuando. No Brasil, a confusão de dados não permite leituras precisas do indicador.

Sobre as estatísticas no país, leia também a reportagem “A verdade por trás dos números da covid-19”

O autor do estudo, o ph.D. Marko Kolanovic, físico de formação e estrategista do J. P. Morgan, afirma que os governos ficaram assustados com “artigos científicos falhos” e impuseram restrições que foram “ineficientes ou tardias” e tiveram pouco efeito.

“Ao contrário dos testes rigorosos com novos medicamentos, os lockdowns foram administrados com pouca consideração ao fato de que poderiam não só provocar uma devastação econômica, mas potencialmente causar mais mortes que a própria covid-19”, escreveu Kolanovic. “Como estamos aprendendo nesta crise, previsões científicas imprecisas, politização das pesquisas e abordagem sensacionalista podem ter impactos significativos.”

O gráfico a seguir faz parte do relatório e demonstra que a maioria dos países tem registrado queda no Índice R ao encerrar o isolamento social, sugerindo que a disseminação do vírus não está relacionada a medidas restritivas à economia. Os índices de infecção continuaram caindo mesmo depois de um período de latência para o eventual registro de novas contaminações, na hipótese de uma segunda onda.

Cada ponto representa um país. O banco apresenta os dados completos apenas aos seus clientes

Um segundo gráfico mostra efeito semelhante nos Estados Unidos, revelando que muitos Estados tiveram um Índice R mais baixo depois do encerramento de confinamentos ultrarrestritivos.

Entre esses Estados, figuram Colorado, Iowa, Alabama, Wyoming, Wisconsin e Mississippi. Nevada, Texas e Dakota do Norte estão entre as exceções — parecem ter um índice de transmissão mais alto desde que a vida normal foi retomada.

As projeções feitas pelo J. P. Morgan para o Estado de Nova York, o mais afetado nos Estados Unidos pela pandemia, demonstram assertividade. Veja no quadro a seguir:

Marko Kolanovic baseia-se num robusto conjunto de estatísticas para afirmar: “Embora costumemos ouvir que os lockdowns são guiados por modelos científicos, e que existe uma relação exata entre o nível de atividade econômica e a propagação do vírus, isso não é amparado pelos dados. Na verdade, em quase toda parte os números de infecção diminuíram após a reabertura econômica.”

A redução do contágio pode ter mais relação com o aumento de medidas sanitárias por parte da população, como maior frequência de lavagem das mãos e uso de máscara, do que com os confinamentos rigorosos. “O fato de que a reabertura não mudou o curso da pandemia é consistente com os estudos que mostram que a implementação de bloqueios à vida social não alterou a curva de contágio”, diz Kolanovic.

A análise do J. P. Morgan conectou a decisão de impor lockdowns a artigos científicos inconsistentes que previram milhões de mortes no Ocidente. Na ausência de dados conclusivos, o confinamento poderia até se justificar no início da crise. Agora, entretanto, sabe-se que não é fundamentado em estatísticas consistentes.

“Ao mesmo tempo, milhões de vidas arruinaram-se com esses lockdowns”, ressalta Kolanovic. Países em confinamento são obrigados a fazer enormes rombos no orçamento para conter a paralisia econômica que está levando milhões de pessoas ao desemprego. Estima-se que, passada a  pandemia, o mundo terá mais 150 milhões de indivíduos vivendo abaixo da linha da pobreza.

Além de pôr em dúvida a suposta “ciência” por trás de imposições de isolamento social, o relatório do J. P. Morgan sugere que as economias poderiam ser reabertas mais rapidamente.

Em razão da permanente arenga política em torno do tema, Kolanovic viu-se submetido a críticas ferozes. Preferiu ausentar-se do debate público por um período e manteve o silêncio em suas redes sociais. Para evitar citações diretas aos países, os gráficos do J. P. Morgan, quando não se referem exclusivamente aos Estados Unidos, passaram a indicar apenas “pontos” em vez de mencionar as nações — como no primeiro quadro publicado nesta reportagem. A tensão gerada pela divulgação do relatório é mais uma evidência de quanto os gestores públicos submetem-se mais a narrativas construídas sem sólidos fundamentos científicos do que a dados cristalinos.

Em sua edição de lançamento, em 27 de março de 2020, a Revista Oeste já propunha o debate acerca do confinamento e apontava inconsistências nas medidas de restrições à economia.

Leia a reportagem “Como voltar a produzir”

Sobre a ineficácia do confinamento, leia também o artigo de Guilherme Fiuza nesta Edição 14, “Os xiitas da prisão domiciliar”

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