Os xiitas da prisão domiciliar

O confinamento burro nunca organizou a população para o que realmente salva vidas: o isolamento rigoroso dos vulneráveis e a circulação responsável dos não vulneráveis

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas, declarou que já salvou 30 mil vidas com sua política de enfrentamento do coronavírus. É muita vida. E diante de uma ação tão impressionante, com resultado tão preciso, todos devem estar querendo saber como exatamente isso se deu. Mas vão ficar querendo.

A premissa científica do prefeito, assim como a do governador João Doria — seu sócio de lockdown —, é uma espécie de desejo matemático. Eles montaram uma equação relacionando porcentual de população confinada com detenção da epidemia. E pediram ao coronavírus: por favor, não entre nas casas do nosso modelo estatístico, para podermos usar sem culpa o confinamento como estandarte.

Infelizmente o vírus não atendeu ao apelo dos homens bons. Esses vírus de hoje são mesmo muito rebeldes. Mas Covas continuou dizendo que seus prisioneiros domiciliares foram imunizados por decreto, sacramentando o que ninguém sabia: a ciência é um estado de espírito. Ou, numa literatura mais acadêmica: a ciência é o que der na telha do falastrão mais desinibido.

Poucos adeptos do lockdown tiveram a honestidade do governador de Nova York

Sem querer tirar o Oscar de ficção científica das autoridades de São Paulo, precisamos indagar: quantos hospitalizados com covid-19 estavam cumprindo o isolamento? Como se sabe, em várias partes do mundo a maioria dos internados veio do confinamento. Em Nova York, por exemplo, esse número em dado momento chegou a 84% dos hospitalizados — somando-se os que estavam em casa e em asilos. Poucos adeptos do lockdown tiveram a honestidade do governador de Nova York, e em geral dizem que sem confinar a população em casa seria muito pior. Ciência é ciência.

Vamos ajudá-los a conhecer seu próprio modelo com algumas perguntas: quando se iniciou o confinamento, que porcentual da população já infectada por coronavírus se trancou em casa? Não sabem? OK. Então é por isso que também não sabem — ou não querem que saibam — quantos hospitalizados vieram do confinamento? Talvez. Mas vamos em frente: dos que se confinaram, quantos mantiveram contato com pessoas que continuaram circulando? E, entre os que mantiveram, quantos desses que circularam estiveram em aglomerações sem o distanciamento requerido?

Se não puder ficar em casa, dane-se, não é problema nosso

Continuando: que porcentual dos que cumpriram o confinamento pertence a grupos de risco? E desses grupos, quantos fizeram isolamento total em relação aos que continuaram circulando? Não sabem? OK, já entendemos. Vocês não sabem nada.

E, portanto, vocês não têm a menor ideia de qual foi o percurso do contágio dentro e fora dos domicílios, porque vocês não estudaram, não trabalharam, não pensaram. Só falaram. Aliás, falaram sem parar. Como podem afirmar ter salvado 30 mil vidas com lockdown se suas estatísticas não sabem e não querem saber o que aconteceu com uma única vida na prisão domiciliar de vocês?

O confinamento burro nunca organizou a população para o que realmente salva vidas: o isolamento rigoroso dos vulneráveis e a circulação responsável dos não vulneráveis. Todo mundo viu transportes públicos lotados em São Paulo (e em outros lugares) sem nenhuma ação das autoridades para disciplinar esse absurdo. Omissos! Qualquer um pode imaginar quantos voltaram para casa para infectar vulneráveis que não saíam de casa — todos cumprindo regiamente o mandamento poético “se puder, fique em casa” (e se não puder, dane-se, que não é problema nosso).

Governantes covardes querem transformar o lockdown místico em estandarte político

Agora estão aí os éticos de butique dizendo que a culpa foi de quem circulou. Não, a culpa foi de quem se lixou para os que circularam — e também para os que se enfurnaram achando que ficar em casa era seguro de vida, porque o vírus ficaria obedientemente do lado de fora.

Os xiitas da prisão domiciliar continuam por aí esfregando notícias de óbitos na cara dos que tentam fazer a circulação responsável. E os governantes covardes surfam nessa patrulha para tentar transformar o lockdown místico em estandarte político.

Eles não salvaram e não salvarão ninguém. E terão problemas grandes pela frente. Não só porque jamais demonstrarão a alegada eficácia no enfrentamento da epidemia, como porque já está sendo tabulada a mortandade decorrente do próprio lockdown — por doenças represadas, suicídio e fome, entre outros flagelos. A verdade não será trancada.

Sobre a ineficácia dos lockdowns, leia a reportagem de capa desta Edição 14, “O erro do lockdown”

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27 comentários Ver comentários

  1. Fiuza, vou me opor ao seu argumento em algumas linhas. Moro na Malásia e aqui tivemos lockdown. TODO mundo em casa, SEM circular, por TRÊS meses (março-abril-maio). Tivemos duzentos mortos e atualmente o vírus circula quase nada por aqui. Os hospitais aguentaram o tranco. A Economia afundou? Claro que afundou. Mas agora já está crescendo novamente. Funcionou. No Brasil, não tivemos nem controle do vírus e não teremos recuperação econômica, por um looooooooooooooooooongo tempo. O problema não é o método, são as pessoas. No Brasil, o problema é o DNA. Abraços.

  2. Fiuzza, esse vírus nem é tão rebelde assim. Veja, por exemplo, que em supermercados ele não entra. Suspeito que ele não goste do gerente.

  3. Esses dois incompetentes e irresponsáveis do PSDB estão a serviço de outros interesses, que o embaixador da China ou Marcos Zheng podem explicar. O confinamento AUMENTA a transmissão da Peste Chinesa e portanto os óbitos. Além disso, levou e acarretará num debacle econômico sem precedentes e PROPOSITAL para lotear as empresas falidas aos empresários chineses que visitarão São Paulo em setembro. PSDB em SP nunca mais. #NãoVoteNoPSDB

  4. Fiuza e leitores, faltou uma.pergunta crucial, quantos brasileiros já estavam contaminados e assintomáticos em 26 de fevereiro, data do primeiro caso considerado oficial no País. Percebam, se já havia um número X de assintomáticos sem o devido rastreamento, uma vez que a própria OMS não ajudou em nada nisto é perfeitamente plausível acreditar que ao sugerir a quarentena forçada os governos estaduais empurraram para o mesmo lugar pessoas contaminadas e não contaminadas … Bovinamente ao caminho do abate.

  5. Brilhante, Fiuza !
    Felizmente temos a Oeste para ler. Seus articulistas são um oásis na medíocre atual imprensa brasileira.
    Parabéns !

  6. Interessante, Bruno Covas diz ter contraído o covid19, não percebi seu isolamento, só a continuidade de sua campanha política, visando a reeleição.

  7. Fiuza, vc e nossos jornalistas da Revista Oeste são um oásis de lucidez sobre o covid 19 e as suas consequências econômicas. Qdo vc escreve sobre João Tranca Rua e Bruno Covas vc expõe o cinismo de ambos q estão usando o vírus chinês como palanque político e a população se dando muito mal com as polícias sanitárias deles e td o mais! Os paulistas e paulistanos vão retribuir toda esse carinho em ” salvar vidas” nas próx eleições. Aguardem….

  8. Parabéns Fiuza, importante comentário sobre as tentativas via pandemia, de combater o presidente Bolsonaro e na tentativa de criminaliza-lo como genocida, simplesmente porque quis acreditar que seria um vírus como os demais, até porque nem a ciência conhecia seu potencial agressivo. “A CIÊNCIA” informava, não use mascara, a gravidade é potencial para idosos ou com doenças crônicas, a OMS demorou para declarar pandemia, enfim, as incertezas da ciência eram iguais as de Bolsonaro. Mas, aglomerações não são recomendáveis para qualquer gripezinha, e nós tivemos um carnaval maravilhoso com os governantes eufóricos com o sucesso obtido.

  9. Chovendo no molhado: Fiuza é um dos melhores articulistas desde sempre! No mesmo time estão Ana Paula, Bruno, Guzzo, Augusto Nunes; enfim, todos que escrevem em Oeste.

  10. A História registrará que o processo de tentativa e erro largamente utilizado pelas autoridades municipais e estaduais, em particular pela cidade e Estado de São Paulo foi inócuo, irresponsável e primitivo. O achismo de cabeças incompetentes e oportunistas predominou sobre a racionalidade. O povo vai punir nas urnas essa descarada falta de compromisso com o povo que trabalha e produz.

  11. E, curiosamente, estes que diziam mais saber dos caminhos científicos do virus, se infectaram. Oras, sabem ou não sabem cientificamente como lidar com o virus? Explique-se, infectologista-mor de São Paulo?
    Ah e para a cura se tomou o que mesmo?

    1. Maravilha, como sempre
      . Vale a pena conhecer a hipótese do neurocientista britânico Karl Friston sobre o problema: https://www.frontliner.com.br/a-maioria-das-pessoas-e-imune-ao-virus-da-covid-diz-karl-friston/

  12. GENIAL Fiuza….como sempre!
    Graças ao bom Deus temos gente como vocês da Oeste para escrever e informar com: honestidade, imparcialidade, coerência e talento jornalistico!

    1. Fora a omissão em liberar a tempo a hidroxicloroquina nos hospitais públicos! Muitas vidas poderiam ter sido poupadas, como foi a do próprio prefeito usuário da droga!

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