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Foto: Shutterstock
Edição 144

Voo expresso para Pindaíba

Parecia que o Brasil havia se livrado desse fetiche doentio desde janeiro de 2019, quando as novas autoridades econômicas mostraram que este não é um bom destino nem uma vocação

Ubiratan Jorge Iorio

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Quando se referia à secular pobreza econômica e intelectual da América Latina, Nelson Rodrigues, com aquela conhecida ironia e sagacidade, gostava de dizer que o subdesenvolvimento de um povo, país ou região não se improvisa, porque é uma obra de séculos. É verdade. O tempo passa e mudas frágeis viram árvores frondosas, netos recém-nascidos tornam-se avós experientes, filhotes desdentados transformam-se em adultos caçadores, gerações se sucedem e a pobreza insiste em prevalecer no continente, a atestar incomodamente o veredicto do saudoso dramaturgo. Não há dúvida, a América Latina padece de uma vocação histórica para viver em Pindaíba, onde só há fel e vinagre, penúria e escassez, servidão e dependência do Estado, em que a maioria dos habitantes acredita piamente que é pobre porque existe uma minoria rica que lhe suga até a última gota de sangue e que só há duas soluções para o problema: ganhar na loteria ou esperar pelo favor de algum redentor, mesmo que este seja um mentiroso contumaz ou um ladrão voraz.

Parecia que o Brasil havia se livrado desse fetiche doentio desde janeiro de 2019, quando as novas autoridades econômicas, pela primeira vez na história republicana, mostraram que Pindaíba não é um bom destino e muito menos uma vocação a ser seguida pelo Brasil e rejeitaram as principais práticas que levam à perpetuação do atraso, adotando o caminho virtuoso que conduz a outra terra, Eldorado, onde existem leite e mel, liberdade e economia de mercado e, portanto, opulência, abundância e abastança.

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