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Presidente Lula e picanhas | Foto: Montagem Revista Oeste/Ricardo Stuckert/PR/Shutterstock
Edição 152

50 dias sem picanha

Sem um plano para o país, Lula escolhe o presidente do Banco Central como bode expiatório e culpa 'bolsonaristas infiltrados' pelo fiasco na largada

Silvio Navarro
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Entre um passeio internacional e outro, um discurso inflamado na festança do PT e entrevistas para a velha imprensa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva escolheu um culpado para as más notícias na área econômica que estão chegando mais cedo do que o esperado: Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central.

Lula tenta emplacar a tese de que os juros básicos da economia no patamar de 13,75% travam o desenvolvimento do país. Quem determina a política monetária é o Banco Central, cuja gestão é independente desde 2021 — ou seja, livre de ingerência política. A diretoria do banco entende que manter a taxa de juros em dois dígitos é uma forma de segurar as rédeas da inflação, que sempre penaliza os mais pobres.


As correntes de economistas ligados ao PT e em postos no governo não pensam assim: entendem que a prática de juros escorchantes atendem a interesses do mercado, são contra a austeridade fiscal — principalmente o teto de gastos —, querem um “Estado grande”, mais desenvolvimentista e com aumento do consumo de bens. É sobretudo nesse último ponto que está a preocupação de Lula: consumir mais significa garantir a picanha aos domingos, sua promessa de campanha. Lula está preocupado com o curto prazo, porque sabe que o resultado apertado das urnas não lhe assegurou popularidade por muito tempo.

A realidade, contudo, às vezes atravessa o sonho do PT. As notícias que batem à porta dos brasileiros são ruins. O mercado, esse ente demonizado pela esquerda, não gostou da agenda de aventura fiscal. O setor produtivo tampouco, porque precisa de previsibilidade. Grandes empresas começaram o ano com demissões. O reajuste do salário mínimo será só de R$ 18. O investidor, principalmente o estrangeiro, não se sente seguro em “agarrar cordas soltas” — a marca do governo Lula 3 até agora é a insegurança. O resultado é que as engrenagens da economia começam a ranger.

Qual a resposta do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao mercado? “Entendo a ansiedade do dito mercado, dessa meninada que fica na frente do computador dando ordem de compra, ordem de venda”, afirmou, em evento do banco BTG Pactual. “Cada espirro em Brasília gera uma enorme turbulência.”

Foto: Reprodução Twitter

 


Os infiltrados

Além do bode expiatório dos juros, caso a economia entre em parafuso, outro motivo da perseguição de Lula a Roberto Campos Neto é porque ele chegou à cadeira indicado por Jair Bolsonaro. Lula já afirmou que qualquer coisa que remeta aos governos dos antecessores, incluindo Michel Temer, não presta. “Tudo o que fizemos em 13 anos de governo do PT foi destruído em seis anos depois do golpe e do último mandato de um genocida”, afirmou, na segunda-feira 13, durante a festança de aniversário do PT.

No dia seguinte, repetiu a ladainha em evento na Bahia, ao lado do ex-governador Rui Costa (PT), que chefia a Casa Civil da Presidência.

“Vocês têm que ter um pouquinho de paciência, porque estamos apenas há 40 dias no governo e ainda nem conseguimos montar as equipes. Temos que retirar os bolsonaristas que estão lá, escondidos às pencas”, afirmou. “A responsabilidade de tirar eles é do Rui Costa, que vai assinar as medidas para retirar aquela gente infiltrada no nosso governo” (lançamento do Minha Casa, Minha Vida, em Santo Amaro, Bahia)

O que Lula e seus satélites não entendem — ou fingem não entender — é que, se o economista Roberto Campos Neto gosta ou não do ex-presidente Jair Bolsonaro, pouco importa. Como disse o executivo em entrevista nesta semana: “Se sair do cargo, dificilmente vai mudar muita coisa”. Quem estiver na cadeira terá de cumprir à risca o papel determinado pela Lei Complementar 179, de 2021, que tirou o ordenamento das questões monetárias das mãos do Palácio do Planalto. Trata-se de uma medida de segurança para o sistema financeiro do país.

O próprio Campos Neto deu um bom exemplo da eficácia desse modelo nesta semana. Ele citou o Peru, que sofre com sucessivos sobressaltos políticos — recentemente, o ex-presidente Pedro Castillo tentou fechar o Congresso Nacional. A manutenção de Julio Velarde à frente da autoridade monetária peruana, desde 1997, impediu o colapso econômico. Outro exemplo é o Chile, que enfrenta um processo de revisão da Constituição, mas o sistema financeiro autônomo segue blindado.

A atribuição legal de autonomia centraliza os conhecimentos técnicos e profissionais para questões monetárias e financeiras no Banco Central, aumentando a probabilidade de decisões apropriadas. A autonomia do Banco Central do Brasil (BC) dispõe sobre os mandatos do presidente e diretores e sobre os objetivos da instituição, definida pela Lei Complementar nº 179/2021, alterando trechos da Lei nº 4.595/1964, que ordena o sistema financeiro nacional. O objetivo fundamental do BC é assegurar a estabilidade de preços, além de, acessoriamente, zelar pela estabilidade e pela eficiência do sistema financeiro, suavizar as flutuações do nível de atividade econômica e fomentar o pleno emprego.

Fixação por Bolsonaro

Na segunda-feira, no mesmo horário em que Lula falava à militância recém-empregada em cargos públicos em Brasília, Campos Neto sentou-se na cadeira de entrevistado do programa Roda Viva, da TV Cultura. Antes de chegar ao Banco Central, fez carreira no mercado financeiro e passou duas décadas no Santander. Segue alguns passos do avô, o economista Roberto Campos, também entrevistado pelo programa em 1991 e 1997.

Na última delas, em pleno governo Fernando Henrique Cardoso, a produção anunciava: “Roberto Campos, um defensor ferrenho do livre mercado, da redução do tamanho do Estado e da privatização. Ex-seminarista, ex-diplomata, político e um dos economistas e intelectuais brasileiros mais influentes, ele é o principal representante do pensamento liberal clássico no país”.

Lula Roberto Campos
Presidente do BC, Roberto Campos Neto | Foto: Raphael Ribeiro/ BCB

Nesta segunda-feira, 26 anos depois, Campos Neto foi apresentado assim na descrição do programa: “Roberto Campos Neto assumiu a presidência do Banco Central em 2019. Indicado pelo então presidente Jair Bolsonaro, o economista é defensor da autonomia do BC”. Na gravação — a atração não foi no formato ao vivo —, ele teve de responder aos jornalistas convidados sobre o uso da camisa da Seleção Brasileira quando foi votar — “símbolo do bolsonarismo”, segundo publicou O Estado de S. Paulo. 

O executivo respondeu em tom conciliador, disse que se tratava de um ato privado naquele dia e que preferia responder sobre questões técnicas de sua gestão no banco. Os jornalistas da velha mídia insistiram mais duas vezes ao longo do programa, com tentativas de associá-lo ao “bolsonarismo” vilão. Essa parece ser uma estratégia de Lula e seus simpatizantes nas redações, que continuam mergulhados em notícias sobre um governo que acabou — talvez para não mostrar que o atual é um fiasco.

“O nosso ‘Bozo’ foi se esconder nos Estados Unidos, com medo de me passar a posse, não teve coragem de me encarar de frente (sic)“, disse Lula, na viagem à Bahia. Até Dilma Rousseff — que vai receber salário de R$ 300 mil no Banco dos Brics — reapareceu com o microfone à mão na festa do PT, para pregar o bordão “Sem anistia” a Bolsonaro.

Enquanto a fixação por Bolsonaro não dá trégua, no primeiro Carnaval do governo Lula, não vai ter picanha.

Leia também “O tempo em que o BNDES foi realmente dos brasileiros”

25 comentários
  1. Arnaldo de Mesquita Bittencourt Filho
    Arnaldo de Mesquita Bittencourt Filho

    Apesar de apresentar um quadro apavorante, o artigo é excepcional ao retratar a triste perspectiva para o país com Lula e seus acólitos no Governo.
    Parabéns, Silvio !

  2. CAIO TACLA
    CAIO TACLA

    Cláudia Raia recebeu metade da picanha do povo. Flávio Dino comeu a outra metade.

  3. David Peixoto Sampaio
    David Peixoto Sampaio

    Roberto Campos Neto, se não me engano, ganhou a medalha de ouro de melhor banqueiro central/economista do mundo em 2022.
    Bom, é de se esperar que Lula e ed caterva não queiram ele jogando no time. A ignorância e a burrice são audaciosas.

  4. Tania Alboredo Cleuzo
    Tania Alboredo Cleuzo

    O Roda Viava da Cultura foi bom somente ate o Augusto Nunes ser o anfitrião, depois dele ficou isso que vemos ai, so trazem gente a favor do PT. Aliás, nao consigo I nem assistir ao Jornal da Cultura, pelo mesmo motivo, Quando aparece o Villa e o Sakamoto então, nao da.

  5. Manfred Trennepohl
    Manfred Trennepohl

    O nível dos jornalistas que formaram a banca para entrevistar o Presidente do Banco Central é lamentável. Em vez de se preocupar em fazer perguntas focadas no trabalho do entrevistado, que é o que interessa ao Brasil, tal como fazer o expectador entender qual o papel do Banco Central, como ele funciona, quais as ações para garantir o bom funcionamento da economia, vão se preocupar em questionar o entrevistado sobre a roupa que o mesmo vestiu no dia da eleição. Que nível de programa e dos jornalista é esse? Esses entrevistadores realmente eram jornalistas ou militantes do PT e seus puxadinhos? A emissora responsável pelo programa é muito mal gerenciada. Horrível

    1. Onedson Carvalho da Silva
      Onedson Carvalho da Silva

      Infelizmente, o jornalismo é hoje o maior responsável por levar o país a lama, porque a imprensa é a melhor arma do povo, desde que seja seria e imparcial. Hoje estamos vendo o contrário, como pode jornalistas, repórteres, achatem normal ter um ex-presidiário presidente do Brasil. Nosso país estava pronto para decolar, isso porque um dos homens mais inteligentes do mundo chamado Paulo Guedes o deixou pronto para decolar. Muito gente vai ter que dar explicações no futuro, e não existe explicações para atitudes insanas, melhor, só existe uma, PSIQUIATRA para todos eles. Já que acreditam nessa gangue do PT, chamem o RAMBO para nos salvar e explodir um a um. Difícil ver tanta gente insana administrando um país. O que esperar de um Flavio Dino, Rui Costa, Haddad, pobre povo brasileiro! Estamos em uma nave sem piloto, ou melhor um retardado analfabeto, e comissários burros e insanos. O Judiciário se prostituiu, o congresso corrompido formado por bandidos, que aos poucos vão se vendendo. O futuro não é bom! Uma tragédia anunciada. Os militares covardes, país sem Lei. Vai explodir tudo! Mas todos serão cassados um dia. Um a um! O povo não é besta!

  6. Antonio Araújo Da Silva Lopes
    Antonio Araújo Da Silva Lopes

    Popularidade somente dentro da bolha q congrega Universidades públicas, sindicatos, artistas q parecem mais serem funcionários públicos do q os próprios servidores de tantas benesses q conseguem dos cofres públicos, enfim, o atual mandatário foi eleito com no máximo 30 milhões de votos, não sei como, mas foi !

  7. José Rubens Medeiros
    José Rubens Medeiros

    Sílvio Navarro, confesso que não compreendi essa colocação no artigo:

    “Lula está preocupado com o curto prazo, porque sabe que o resultado apertado das urnas não lhe assegurou popularidade por muito tempo.”

    Mas a que “POPULARIDADE” você se refere? Quais foram as evidências dessa “POPULARIDADE”?

    Ao contrário, o Sr. Inácio da Silva jamais sai às ruas, jamais se expõe para receber a “OVAÇÃO” que seria natural para quem detém a tal “POPULARIDADE”!!

    1. Valesca Frois Nassif
      Valesca Frois Nassif

      Acredito q se refere à popularidade entre os próprios apoiadores , que pode se desgastar com o tempo em função de sua pessima política econômica.

  8. LUCIANO CUNHA DE PAIVA
    LUCIANO CUNHA DE PAIVA

    Isso aí. Temos que checar informações, senão vamos ficar parecidos com eles!!

  9. Osmar Martins Silvestre
    Osmar Martins Silvestre

    Eu acredito que os que o puseram lá vão se arrepender amargamente pelo que fizeram, só que então já será tarde. Talvez eles tivessem a esperança que o povão ia se estrepar, mas eles ficariam “numa boa”, mamando novamente nas tetas do governo. O problema é que as tetas do governo não vão atender todos eles em um primeiro momento e, em um segundo momento, estarão secas e não vão atender a ninguém. É a famosa analogia, todos no mesmo barco. O barco afunda para todos.

  10. Virginia Wildhagen
    Virginia Wildhagen

    Lula prefere ficar falando do governo que parece que ainda não acabou, para disfarçar as tragédias de um governo que ainda nem começou.

  11. Adão Borges
    Adão Borges

    No tweet do Julio Schneider possui algumas informações falsas.

    1. LUCIANO CUNHA DE PAIVA
      LUCIANO CUNHA DE PAIVA

      Isso aí. Temos que checar informações, senão vamos ficar parecidos com eles!!

  12. Marcelo Martins
    Marcelo Martins

    O Brasil terá que passar por muitas crises econômicas ainda até que os políticos e o próprio povo entendam que, votar em candidatos da esquerda só trata desgraças para o país.

  13. Humberto José Machado Buarque
    Humberto José Machado Buarque

    Um povo que sai de sua casa para depositar um voto em um ladrão, um traste, um lixo humano, como é o caso do safado do Lula, ou é doente mentalmente, ou é tão corrupto como o Lula, ou mesmo pior do que ele, uma pessoa dessa não pode ser normal. Agora faz um LLLLLLLL, bando de trastes.

  14. Marcelo Gurgel
    Marcelo Gurgel

    O Banco Central é o último obstáculo para as insanidades dos PTralhas triunfarem.

  15. Renato Borges Fagundes
    Renato Borges Fagundes

    O ex-presidiário é um despreparado. O investidor internacional vai levar seu capital para locais onde a propriedade privada e a lei sejam respeitadas, enquanto o psicopata senil de nove dedos mantém o “nós contra eles” poluindo a agenda política com caça as bruxas, criando uma cortina de fumaça para esconder sua falta de propostas (ou propostas escusas) para governar.

  16. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    A única coisa que Luladrão sempre fez com esperteza foi discurso em portão de fábrica na ABC paulista. Entende de economia na mesma dimensão que eu entendo de física quântica. A equipe econômica atual, com integrantes que possuem menos de 2 neurônios, incapazes de analisar um DRE de uma banca de feira livre, sem a atuação responsável do BC independente é o abismo um passo à frente.

  17. Osman Ferreira Gutierrez Filho
    Osman Ferreira Gutierrez Filho

    Esse atual governo é um verdadeiro escárnio, só bandidos, sem planejamento fica culpando o governo que foi o melhor do Brasil.

  18. Aquiles Ferreira Nobre
    Aquiles Ferreira Nobre

    Demitir por motivo de ser simpatizante de uma pessoa, não é o mesmo caso de demitir alguém por ser simpatizante de ideologias quaisquer?

  19. Aquiles Ferreira Nobre
    Aquiles Ferreira Nobre

    Demitir por motivo de ser simpatizante de uma pessoa, não é o mesmo caso de demitir alguém por ser simpatizante de ideologias quaisquer? (de gênero por exemplo, ou arbotista, ou mui outros etc.)

  20. Celso
    Celso

    Se não tem picanha chupem pé de frango
    Queda da bastilha brasileira à vista

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