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A surreal mentira chinesa

OMS e mídia americana fazem o serviço de relações públicas do regime totalitário chinês

Em meio a uma pandemia histórica, vem ganhando espaço na mídia aqui nos Estados Unidos manchetes como “a América tem mais infecções e mais mortes do que a China”. Em 26 de março, o famoso jornal americano The New York Times proclamou: “Os Estados Unidos lideram o mundo em casos confirmados de coronavírus. Após uma série de erros, o país agora é o epicentro da pandemia”. O jornal então decidiu “contrastar” a liderança inepta das autoridades americanas, mencionando Donald Trump, claro, com a ação rápida e eficaz do Partido Comunista Chinês. Em outras palavras, o vírus pode ter vindo da China, mas o país o controlou rapidamente e os Estados Unidos não.

Mas não foi apenas o The New York Times. A mesma história foi praticamente repetida durante toda a semana em tantos outros veículos e sempre com o mesmo tema: a China tem a crise pandêmica sob controle, os Estados Unidos não. Como uma estratégia de relações públicas, esse movimento de parte da imprensa americana é uma grande vitória para o governo chinês e isso não é um evento pequeno no momento.

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Quando a pandemia finalmente retroceder, a rotina global provavelmente será redefinida. Em disputa estará o controle de esferas basilares no mundo, como acordos comerciais, sistemas financeiros internacionais, alianças militares e rotas marítimas. Alguma dúvida de que a China gostaria de administrar soberanamente tudo isso? Porém, essa realidade não é um prêmio que os chineses podem receber à força. É preciso mostrar para o resto do mundo que eles são competentes e que os americanos perderam o controle; e é exatamente isso que estão fazendo.

Até aí, a pesada insistência em narrativas vindas de um país comunista não é algo que nos surpreenda. O que é assombroso é quantos no Ocidente estão ajudando os chineses a fazer isso. Em 23 de janeiro, as autoridades chinesas bloquearam a cidade de Wuhan, local do primeiro surto de coronavírus, mas já era tarde demais.

Estima-se que cinco milhões de habitantes de Wuhan já haviam saído da cidade e se dispersado pelo mundo, em muitos casos levando a doença com eles.

Em poucos dias ficou evidente para quem estava atento que a duplicidade nas informações e a incompetência criminosa do governo chinês provavelmente matariam muitas pessoas.

E enquanto a pandemia crescia e se espalhava por todo o mundo, a Organização Mundial de Saúde se ocupou em lançar a China como herói da história. Em 3 de fevereiro, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, anunciou que a China estava fazendo um trabalho excepcional no combate ao coronavírus: “Durante visita a Pequim na semana passada, fiquei impressionado com minha reunião com o presidente Xi, sua liderança e seu conhecimento detalhado do surto. Se não fosse pelos esforços da China, o número de casos fora do país teria sido muito maior. Se não fosse pelo governo chinês, muitos mais morreriam.” Inacreditavelmente, foi esta a fala do diretor da organização que deveria nortear o mundo em tempos de epidemias, mas que antes disso, em 14 de janeiro, publicou que investigações conduzidas pelas autoridade chinesas não encontraram evidências de que seria possível a transmissão do vírus entre humanos.

Apenas seis semanas depois, como que por mágica, a China declarou vitória sobre a epidemia. Sem surpresas, o diretor da OMS estava lá para comemorar e ampliar a mensagem: “Temos boas notícias hoje! Ontem, Wuhan não relatou novos casos pela primeira vez desde o início do surto. Wuhan oferece esperança ao resto do mundo de que mesmo a situação mais grave pode ser contornada”, disse ele. A OMS é cúmplice, sim, dessa pandemia.

Grande parte da mídia americana parecia muito impressionada com isso. Foi repetida ad nauseam a mensagem da China sem o menor ceticismo e sem a verificação independente recomendados ao bom jornalismo.

Em 18 de março, a Bloomberg News anunciou que os casos de covid-19 na China chegavam a zero.

O Global Times, porta-voz aprovado pelo governo da China, contrastou o milagre chinês com o desastre americano: “Cidades dos Estados Unidos, como Nova York, agora são os lugares mais arriscados do mundo”, tuitou o jornal em 24 de março.

Para os que trabalham incansavelmente no balcão de marketing do Partido Democrata na mídia americana, essa narrativa é uma história irresistível, especialmente sete meses antes das eleições presidenciais. Com fracos candidatos para encarar de frente a boa administração de Donald Trump até aqui, depois de tentativas vazias de impeachment e investigações que não deram em nada, os militantes da imprensa agora subiram com alegria a bordo do trem chinês.

Essa semana, o esquerdista canal MSNBC atualizava a “liderança mundial” americana com novos casos, usando um dos slogans da campanha do presidente americano: “Como a pandemia de coronavírus continua a causar estragos em todo o mundo, os Estados Unidos agora superaram todos os outros países para se tornar o primeiro país a relatar mais de 100 mil casos confirmados, superando a China e a Itália na versão mais perversa possível da assinatura de Trump, America First”. Faltou apenas a risada de bruxa ao final da notícia.

É preciso apenas um neurônio ou dois para entender a clara mensagem: homem-laranja mau, Trump é ruim, ele administra a América, então a humilhação da América deve ser boa, homem-laranja mau. Qualquer um, ou qualquer evento, que seja a favor de Donald Trump, eles são contra. Perderam totalmente o norte jornalístico sério e decente, um dos mais antigos e sólidos pilares americanos, ao não questionarem em qualquer discussão se os números de saúde da China são reais ou não. E a resposta curta é não, eles não são reais. Como quase tudo que sai da China, de bolsas a relógios, passando por relatórios oficiais de Direitos Humanos, eles são falsos.

A questão é: quão falsos? E isso não está claro. Desde janeiro, a mídia chinesa está sob os mais rigorosos controles governamentais, além dos níveis habituais impostos.

Jornalistas foram presos, outros deportados e médicos que tentaram reportar o vírus desapareceram.

Sabemos que os governos totalitários são muito mais eficientes no controle de populações do que em democracias rebeldes como as do Brasil ou dos Estados Unidos. Tudo indica que não temos muitas informações confiáveis sobre o que está acontecendo lá.

Em janeiro, por exemplo, aproximadamente cinco milhões de pessoas fugiram da cidade de Wuhan. A China permitiu que elas — todas elas — viajassem por todo o mundo, onde transformaram um surto em uma pandemia global. A China, no entanto, afirma que quase nenhuma dessas pessoas viajou para as maiores cidades do país e espalhou a doença por lá. Uma história na mídia estatal chinesa na última semana, por exemplo, alegou que havia apenas um novo caso – UM — de coronavírus na capital, Pequim. O paciente infectado, segundo o comunicado de imprensa, veio dos Estados Unidos e não da China.

O novo relatório chinês também afirmou que apenas 416 pessoas em Pequim foram infectadas internamente, sendo que 394 já haviam sido liberadas de atendimento médico. O que eles estão dizendo? Isso mesmo, que em uma cidade de 22 milhões de habitantes existem apenas 22 pacientes hospitalizados que contraíram o coronavírus na China, onde tudo começou.

Ou seja: uma em cada um milhão de pessoas foi infectada domesticamente. Surreal?

Não para quem sabe do que regimes totalitários são capazes. Surreal é ver os vários meios de comunicação ocidentais repetindo essa aberração como fato.

A China é o maior país do mundo e quando os chineses distorcem conjuntos de dados críticos — como quantas pessoas estão infectadas ou quantas estão morrendo — isso afeta diretamente todas as outras nações que lutam contra a doença. Podemos ter perdido meses assumindo coisas sobre o coronavírus que não eram verdadeiras. Há um grande custo nisso e esta é uma guerra de propaganda com consequências históricas a longo prazo. Até agora, estamos perdendo muito e, diferentemente da atração comercial do país, a verdade “made in China” não sairá barata desta vez.

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