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PIB feio não tem pai

No meio da pandemia do coronavírus, todos sabem que a escolha entre economia e vidas humanas é um falso dilema

Médico e político, Luiz Henrique Mandetta se divide entre honrar um juramento de 2.500 anos que diz “a saúde do meu doente será a minha primeira preocupação” e lidar com humores, narrativas, cálculos pré-eleitorais e sinais trocados dentro e fora do governo. A sombra de um certo ex-ministro gaúcho, muito próximo ao núcleo do poder, doutor em narrativas que agradam a militância e um indisfarçável candidato ao seu cargo, também não ajuda.

Enquanto clama, como todo terrabolista, por isolamento e quarentena, o ministro da Saúde é sabotado por textos apócrifos, bordões irresponsáveis e todo tipo de charlatanismo e mistificação que corre sorrateiramente nas vielas virtuais do país. “O Brasil não pode ficar parado para sempre, é só uma gripe”, dizem as correntes de WhatsApp. Desconheço quem tenha proposto a paralisia eterna da atividade econômica, mas há sempre um novo Emmanuel Goldstein pronto para prestar continência aos novos tempos.

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Para lidar com o peso do combate à mais grave crise de saúde pública do país em um século, incluindo o fogo amigo, Mandetta pode ao menos contar com a confiança da opinião pública, um privilégio negado ao lendário Oswaldo Cruz há cem anos. O mais notório sanitarista da história do Brasil chegou a ser o inimigo público número um no início do séc. XX, mesmo com o apoio do presidente Rodrigues Alves (1902-1906).

Suas medidas de saneamento contra peste bubônica, febre amarela e a vacinação contra a varíola causaram literalmente uma revolta armada no país.

Nelson Rodrigues, nascido poucos anos depois da “Revolta da Vacina”, em 1904, não entendia como Oswaldo Cruz escapou de uma morte violenta de tanto ódio que despertou quando persuadiu Rodrigues Alves a instituir a vacinação obrigatória. O surto de irracionalidade teve patrocinadores ilustres, como Rui Barbosa. Não satisfeito em ajudar a quebrar a economia do país dez anos antes, no famigerado Encilhamento, a “Águia de Haia” continuava a acreditar que seus conhecimentos jurídicos eram extensíveis a outras áreas, como a epidemiologia e saúde pública. Ao final, a resiliência do governo Rodrigues Alves venceu e milhares de vidas foram salvas.

Caricatura da época sobre a Revolta da Vacina, ocorrida no Rio de Janeiro em 1904/ No alto: os leitos lotados das vítimas da gripe espanhola, que aconteceu entre 1918 e 1920.

 

Na primeira década do século passado, a capital federal do país, a despeito das belezas naturais e do charme barroco dos edifícios mais icônicos, era uma cidade insalubre, pestilenta e infestada de ratos. “No Brasil, a belle époque não teve nada de belle époque”, escreveu Nelson Rodrigues, que chegou a conhecer um pouco do Rio de Janeiro das “carruagens e cavalos com penachos”. Para Nelson, o Rio machadiano dos lampiões se apagou na pandemia que infectou dois em cada três cariocas quando ele tinha seis anos de idade.

A gripe espanhola, que de espanhola não tinha nada, pode ter matado de 50 a 100 milhões de pessoas no mundo entre 1918 e 1920, ou mais que as duas grandes guerras somadas. Só no Rio de Janeiro, a pandemia vitimou 15 mil em poucos meses e ninguém menos que o próprio Rodrigues Alves, eleito para um segundo mandato e que sequer tomou posse. O mesmo presidente que bancou a nomeação de Oswaldo Cruz e desinfetou grande parte do Rio, contra tudo e contra todos, quinze anos depois era levado pela gripe que chegava do hemisfério norte de navio.

A mais devastadora epidemia registrada no país chegou a bordo do “Demarara”, vindo de Liverpool e chegando ao Rio de Janeiro em 14 de setembro de 1918. Os primeiros casos foram tratados com desdém e só quando os cadáveres começaram a ser empilhados nas ruas o povo entendeu a gravidade e a dimensão do problema. Os corpos eram colocados nas janelas das casas ou atirados nas ruas para serem recolhidos pelas carroças da limpeza pública, depois enterrados em valas coletivas.

Panos pretos nas janelas indicavam que uma família inteira estava acamada e aquela casa pedia socorro.

Alguns ainda esbravejavam contra a doença dizendo que era uma criação da sinistra Alemanha, a inimiga dos Aliados naqueles últimos momentos da Primeira Guerra. A gripe foi batizada pela neutralidade da Espanha no conflito, que fez com que sua imprensa estivesse livre para noticiar a doença. Muitas lições de 1918 ainda não foram aprendidas, mas há tempo de salvar muitas vidas da covid-19 com honestidade e vontade política.

A escolha entre economia e vidas humanas, como qualquer um sabe, é um falso dilema, mas serve a um propósito: terceirizar politicamente a inevitável recessão em algum colo com pouca artilharia de comunicação, especialmente nas redes sociais, para se defender. O crescimento do PIB do Brasil, que foi de 1,1% em 2019, pode ficar no vermelho este ano e a temporada de caça a bodes expiatórios, reais ou fabricados, está aberta. PIB feio não tem pai.

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33 comentários

  1. Não me parece correta a comparação do Ministro Mandetta com o Dr. Oswaldo Cruz e nem a comparação da gripe espanhola com o coronavirus. Já li textos mais inspirados do Alexandre Borges.

    1. Exato. Uma injeção de uma ou mais vacinas não obriga a população do país inteiro a recolher-se em casa por meses, levando à anulação da atividade econômica nacional. Descabida a comparação.

  2. Artigo confuso. Começa defendendo, aparentemente, o confinamento total e termina alertando para os perigos da falência econômica, sem nenhuma sugestão de como conciliar os dois problemas.

    1. Alexandre Borges é isentao. Vive em cima do muro e não sabe se comunicar explicitamente, pois para isso teria que tirar essa máscara de ranço que ele tem.

    1. Alexandre, se o Dr. Oswaldo Cruz estivesse no lugar do tal Mandetta e lhe dissessem que esse vírus causa resfriado nos jovens e a morte nos idosos, ele já teria isolado apenas esse grupo de risco há muito tempo. Salvaria a todos e a economia. Mas não sei se salvaria a própria pele novamente. E você, ficaria revoltado?

  3. Não vou ler o seu artigo na íntegra por discordar do seu posicionamento e comparações . Simplesmente enviesado. Achei que não iria encontrar por aqui.

  4. Votei em Bolsonaro e não votarei novamente! Tornei-me um crítico ferrenho de seus posicionamentos, de sua ignorância e de suas atitudes imbecis nesse momento tão delicado, mas, para isso, não me dobrei aos embustes e “pedidos para cortar cabeças” dos especialistas de Globonews e de pessoas como Vera Magalhães. Parece, infelizmente, que na cabeça do Alexandre e de outros “twitteiros” emergidos pela onda conservadora, tecer justas críticas ao Bolsonaro passa necessariamente em adular a imprensa que eles mesmos criticavam tão ferozmente lá atrás…não muito atrás. Não conseguem formar opinião independente sem retuitar algum coleguinha da FSP, do Estadão ou do antagonista. É A ou B! Certamente veremos em breve muitos dessa turminha participando de debates na CNN ensinando a nós, pobres mortais, “prudência e elegância”. O próprio Alexandre twittou: “Se você não entende pq alguém fez algo, observe as consequências e deduza a motivação.” Veremos a dele então!

  5. Mandetta é do DEM e aliado político de SEPULCRO CAIADO E BOTAFOGO. Manteve inúmeros PTistas no Ministério da Saúde. O dossiê Mandetta no canal do Kim Paim desmascarou aquele que gastou $$$ público em mais de 1,2 bilhões de reais na compra de respiradores made in China. Ainda está boicotando o uso da hidroxicloroquina. Assim não dá para confiar. FORA MANDETTA!!!

    1. Estava eu com os meus 66 anos lendo a Oeste, de fio a pavio. Cheguei no artigo do Alexandre Borges.
      Quero informar que os que não conseguem expor seus pontos de vista na imprensa são aqueles médicos, cientistas e biólogos que tem visão diferente do chamado isolamento horizontal. Quem preconiza o isolamento vertical parece que está cometendo uma heresia. Portanto, só nos resta consultar as mídias sociais. Se formos depender de informações da chamada grande imprensa teremos a impressão que somente existe o isolamento total ( horizontal) e o isolamento vertical não passaria de obra de ficção.
      Sugiro ao Alexandre Borges que pesquise recente entrevista a respeito do assunto dada pelo Dr. Paolo Zanotto, do departamento de microbiologia da USP. Vai ver que , além disso que você aborda no seu artigo, o Dr. Paolo Zanotto também estranha o fato de o Sr. Mandetta mostrar-se reticente quanto ao uso da hidroxicloroquina em ambulatório. Usar a hidroxicloroquina já na fase de paciente entubado diminui muito a eficiência do medicamento.
      Portanto, Alexandre, efeito manada não está com nada.

      1. não precisei comentar o que queria…você o disse…a unanimidade fabricada pela mídia acerca do isolamento é a mesma que fabricou a farsa do aquecimento global de origem antropogênica (nesse assunto eu me sinto à vontade para opinar). Os cientistas que divergem da “unanimidade oficial”, simplesmente não tem espaço. Você esqueceu de mencionar o imbroglio da cloroquina (vencido afinal pelas evidências obvias de que o tratamento deve ser feito na fase inicial) e o dr Anthony Wong. Agora, o pior de tudo e elevar o político Mandetta (que disse que levaria toda a equipe junto se fosse demitido, em um claro descompromisso com o combate à epidemia, que cheira à covardia) a “sanitarista”. Ele é sim um politico esperto, na hora certa no lugar certo.

  6. A comparação entre Mandetta e Oswaldo Cruz é esdrúxula, assim como comparar a gripe espanhola ou a revolta da vacina com a situação que vivemos. É forçar a barra mesmo! Texto medíocre e com nuances de manipulação de narrativa e desonestidade intelectual. O ranço político de Alexandre Borges pelo governo juntamente com seus amigos do MBL é patético! Vai ter que se esforçar mais da próxima vez para fazer colar a narrativa!

  7. Seu artigo, Alexandre, com essa coleção de exemplos históricos, acentua o erro de raciocínio conhecido como viés de disponibilidade. “O viés de disponibilidade quer dizer o seguinte: fazemos uma ideia do mundo com base na facilidade com a qual exemplos nos ocorrem. O que, evidentemente, é uma tolice, pois na realidade algo não acontece com mais frequência só porque podemos imaginá-lo mais facilmente. Graças ao viés de disponibilidade, passeamos pelo mundo com um mapa falso de riscos na cabeça” (Rolf Dobelli) Vc, que parece reconhecer a importância do empirismo ao citar Taleb no tweeter, deveria dar um pouco mais de atenção ao que diz o Ministro Osmar Terra.

  8. Ótimo artigo, faz um traço histórico interessante; em momentos de crise, até mesmo de doenças sempre tem as famigeradas narrativas, ao modo e limitações de cada período histórico, hoje temos redes sociais que amplificam vozes conspiratórias, negacionistas da realidade e os interesses político são defendidos com o frenesi de memes e narrativas contraditórias; frita-se um ministro que até ontem era considerado um exemplar puro sangue do famigerado quadro técnico, pois bem: o que temos mesmo é um governo patinando guerra ideológica, que não nos levará a lugar algum; e não se trata de defender os boquirrotos progressistas da mídia, trata-se de reconhecer o óbvio; ademais estou aqui lendo a Oeste, pois aqui encontro algo mais parecido com aquilo que acredito. Parabéns, Alexandre!

  9. Ainda não foi desta vez que você acertou a mão no tema, Alexandre. Na edição passada fazendo uma defesa enviesada do Papa. Agora do “papa” Mandetta. Se não pegar o prumo vai ficar falando sozinho aqui na Oeste.

  10. Sinceramente nao entedi nada desse texto . Não sei o que quis relatar . Muita comparação sem conexão nenhuma com o tempo presente. Não gostei do artigo

  11. Alexandre Borges está sem sintonia com o seus colegas, artigo confuso e parece que quer agradar alguns colegas militantes de outras emissoras.
    Acho que está deslocado na proposta que a Revista Oeste propôs.

    1. Toda vez que penso em assinar a Oeste, me deparo com um texto de Alexandre Borges, que distoa da proposta da revista.
      É urgente sua demissão!

      1. Toda vez que penso em assinar a Oeste, me deparo com um texto de Alexandre Borges, que distoa da proposta da revista.
        É urgente sua demissão!

  12. Só um reparo de um erro histórico que teima em se perpetuar. Rodrigues Alves não morreu da gripe espanhola, e sim de beribéri, doença que o acometia a mais de um ano contraída ainda como governador de São Paulo em 1916. Foi eleito já doente em 1 de março de 1918 com posse marcada para 15 de novembro, segundo o calendário eleitoral da república velha. Ao longo do tempo seu quadro se agravou, e da vitória na eleição à posse, sua saúde se deteriorou bastante em função dos problemas causados pela beribéri, falecendo vitima de uma gripe em 19 de janeiro de 1919, que potencializou a enfermidade. Nessa ocasião o surto da gripe espanhola já havia sido debelado.

  13. Toda vez que penso em assinar a Oeste, me deparo com um texto de Alexandre Borges, que distoa da proposta da revista.
    É urgente sua demissão!

  14. Acabo de sair/cancelar a Crusoé e me deparo com esse texto desse Alexandre Borges. Ele com certeza, tem o direito de escrever o que julga ‘adequado’ do seu ponto-de-vista. Sim, ele está certo e ele pode sim, se expressar. Ocorre que as ilações diretas e indiretas para quem precisa ouvir o lado são/verdadeiro da estória que se desenrola no Brasil, não está acontecendo. Nós que assinamos a Revista Oeste (falo por mim), não esperava(amos) outro detrator do incumbente PR. Ele veio da Foice de S. Paulo? Que merda é essa? Só gente do contra? Vou fazer mais uma tentativa. Se novamente eu ler textos ‘dissonantes da realidade’, também largarei essa Revista. Com tristeza. Cuidado esse AB vai queimar o filme da RO. Já vimos esse filme antes.

  15. Ele veio da Foice de S. Paulo? Que merda é essa? Só gente do contra? Vou fazer mais uma tentativa. Se novamente eu ler textos ‘dissonantes da realidade’, também largarei essa Revista. Com tristeza. Cuidado esse AB vai queimar o filme da RO. Já vimos esse filme antes.

  16. Acabo de sair/cancelar a Crusoé e me deparo com esse texto desse Alexandre Borges. Ele com certeza, tem o direito de escrever o que julga ‘adequado’ do seu ponto-de-vista. Sim, ele está certo e ele pode sim, se expressar. Ocorre que as ilações diretas e indiretas para quem precisa ouvir o lado são/verdadeiro da estória que se desenrola no Brasil, não está acontecendo. Nós que assinamos a Revista Oeste (falo por mim), não esperava(amos) outro detrator do incumbente PR.

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