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O texto do editor do Brasil merece um zero com louvor

Sejamos todos ignorantes sem remorso. Como Lula. Como Dilma. Ou como Toffoli

Nos jornais e revistas que respeitavam a inteligência dos leitores, o cargo de editor não era para qualquer um. Incumbido de liderar um grupo de profissionais da palavra, o editor devia escrever com mais requinte que o restante da equipe. Devia também avaliar com precisão a relevância de cada texto, para atribuir-lhe o espaço adequado na página. Mais: cumpria ao editor dispensar à forma os mesmos cuidados requeridos pelo conteúdo. Era essencial que a fotografia rimasse com a reportagem, a ilustração precisava entender-se harmoniosamente com a selva de vogais e consoantes. Nas redações que se orientavam pelo critério da meritocracia, os editores aprendiam que a montagem de cada página exigia o perfeccionismo de artista plástico nunca satisfeito e a determinação dos obcecados pela perfeição. Só havia lugar para os melhores e mais talentosos. E todos seriam dirigidos pelo mais brilhante.

Conjugo os verbos no passado porque trato de refinamentos que não existem mais. Os exímios domadores de palavras são uma espécie em acelerado processo de extinção. O vocabulário das novas gerações de jornalistas não chega a 500 expressões, aí incluídas gargalhadas (KKKKK) ou sorrisos (rsrsrs), produzidas com um punhado de consoantes minúsculas ou maiúsculas. Pior: somados todos os brasileiros que tratam o idioma com gentileza, seja qual for a profissão que exerçam, o grupo não chegará a lotar as arquibancadas de qualquer dos estádios paridos pela Copa da Ladroagem. Se o raciocínio lógico deixou de ser obrigatório para que um imbecil juramentado se transforme em jornalista, se no intervalo entre a greve encerrada hoje e a que começará depois de amanhã professores colocam vírgulas entre sujeito e verbo e ensinam aos alunos indefesos que está certo dizer “Nós pega os peixe”, se falar corretamente virou coisa de pedante, se escrever com elegância e brilho é exotismo de elitista, deixemos de rodeios: sejamos todos ignorantes sem remorsos. Como Lula. Como Dilma Rousseff. Como Dias Toffoli.

Em mais de 70 anos, Lula torturou o idioma em apenas cinco bilhetes. Em contrapartida, guilhotinou milhões de plurais em discursos de improviso. Confessou em entrevistas gravadas que “escrever é pior que exercício em esteira” e resumiu em três palavras a invencível aversão ao estudo: “Sempre fui preguiçoso”. Incapaz de desenhar um O com o traseiro, já assinou cinco ou seis prefácios, empilhou diplomas de doutor honoris causa e anda jurando que devorou romances russos durante a temporada na cadeia. Em cinco anos e meio na Presidência, a sucessora do analfabeto funcional inventou o dilmês, um subdialeto feito de platitudes bisonhas, cretinices sem pé nem cabeça e frases sem começo, meio ou fim. Dias Toffoli foi reprovado nas duas tentativas de ingressar na magistratura paulista. Impedido de virar piada em alguma comarca do interior, foi subir na vida como advogado do PT, advogado de campanhas eleitorais do PT, assessor de José Dirceu na Casa Civil e depois chefe da Advocacia da União. Ali descobriu um caminho que permite entrar no Supremo Tribunal Federal pela porta dos fundos. Hoje é presidente da única Corte controlada por bobos. E acaba de candidatar-se a Editor do Brasil.

Toffoli “é uma pessoa muito qualificada”. Qualificada para quê?

Se achou que podia ser juiz de Direito sem saber Direito nem ter juízo, por que não acreditar que é possível reformar o país como se reforma um semanário de Itaquaquecetuba? No Jornal do Brasil de Toffoli, por exemplo, não haveria fake news. O Supremo seria tratado com o respeito que merece o Timão da Toga. O Procurador-Geral da República, Augusto Aras, cuidaria do caderno semanal contendo informações mantidas em sigilo pela Lava Jato (e, se houvesse interessados, também patifarias investigadas em segredo por outras operações anticorrupção). A abertura de processos de impeachment envolvendo governadores de Estado só ocorreria se autorizada por Dias Toffoli. E o ministro Alexandre de Moraes acumularia oficialmente as funções de Chefe de Polícia do Supremo e Inquisidor-Geral do Pretório Excelso. Para não atrapalhar aparições de Gilmar Mendes em qualquer rua de Lisboa e dos demais ministros a bordo de aviões de carreira, seriam divulgadas no escurinho do recesso do Judiciário as três manchetes que povoam os sonhos do Editor do Brasil: Primeira: STF DECIDE QUE INVESTIGAR LULA É CRIME HEDIONDO. Segunda: SERGIO MORO É PROIBIDO DE ATUAR COMO JUIZ TAMBÉM NO BRASILEIRÃO. Terceira: OPERAÇÕES ANTICORRUPÇÃO SÓ PODERÃO SER FEITAS EM HOSPITAIS.

O problema de Toffoli será encontrar algum ministro qualificado para um cargo fora do alcance de quem vive tratando o português a socos e pontapés: editorialista. O responsável pelos editoriais tem de justificar com alguma consistência a linha adotada pelo veículo. É missão impossível para o presidente do STF, como atesta um voto do então caçula do Supremo publicado em dezembro de 2009, sem revisão, pelo site Consultor Jurídico. Durante a sessão que julgava a censura imposta ao Estadão por um desembargador de Brasília, Toffoli caprichou no besteirol. Confiram três trechos:

  1. “(…) Assim, se entendermos que caberá a reclamação mesmo fora das hipóteses constante da parte dispositiva, qual seja, caso o fundamento da decisão reclamada seja lei ou dispositivo outro, que não a finada lei de imprensa, passará o STF a julgar diretamente, afrontando o sistema processual recursal, toda causa cuja matéria seja a liberdade de imprensa ou de expressão, como sse o decidido na ADPF 130 tivesse esgotado a análise de compatibilidade de toda e qualquer norma infraconstitucional que trate do tema da liberdade de imprensa ou de expressão (…)”
  2. “(…) No modelo de controle de constitucionalidade brasileiro, todo juiz e Tribunal têm competência para analisar a compatibilidade de uma lei em face do ordenamento constitucional vigente, aplicando-se ao caso concreto a lei, desde que compatível com a Constituição, ou afastando-a, caso incompatí Trata-se como todos sabemos — nesta hipótese — de controle difuso de constitucionalidade, que é feito diante de uma demanda de uma demanda concreta e subjetiva posta em juízo por alguma parte interessada (…)”.
  3. “(…) Houve nos diversos votos proferidos julgamentos mú Muito embora a conclusão majoritária seja em dado sentido, isso não significa que as “razões” ou “fundamentos”, tenham obtido a maioria, muito menos que elas foram submetidos a escrutínio. A segurança juridica e a responsabilidade devem pautar e ser características a todo o Poder Judiciário. (…)”.

“Seguramente, é uma pessoa muito qualificada”, disse Gilmar Mendes. Qualificada para quê, isso só os dois ministros devem saber. Mas não contam a ninguém.

Mais sobre STF na coluna de Ana Paula Henkel, “A Corte que se tornou um monstro”

Leia também o artigo “Para onde vai o jornalismo?”, de Selma Santa Cruz

 

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