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Uma guerra civil nos EUA?

A mídia recusa-se a noticiar o que é evidente aos olhos de seus espectadores, e intelectuais argumentam que “saques e protestos violentos são vivenciados como eventos alegres e libertadores”

No verão passado, quando fiz uma viagem de carro com minha esposa pelos Estados Unidos, fiquei triste ao descobrir que essa era uma nação em guerra consigo mesma. “Logo as coisas irão de mal a pior, e teremos uma guerra civil”, comentou uma garçonete com minha mulher numa pequena cidade no Maine. Na época, achei que ela estivesse exagerando. Os eventos dos últimos dois ou três meses indicam que a mulher meio que tinha razão. Infelizmente, as divisões dentro dos Estados Unidos endureceram a ponto de pessoas demais sentirem que a violência é um meio aceitável de fazer uma manifestação política.

Em anos recentes, surgiu uma nova filosofia de violência que busca normalizar o uso da força na vida pública. Diversos veículos de mídia nos Estados Unidos desculparam descaradamente protestos violentos e saques com o fundamento de que a violência sempre foi uma parte integrante do way of life norte-americano. Na revista The Atlantic, Kellie Carter Jackson argumentou que as manifestações atuais são comparáveis à revolta armada que levou à guerra por independência da nação. Ela escreveu que, “desde o início deste país, protestos e uma retórica violenta são marcadores do patriotismo”. Para justificar essa afirmação absurda, ignorou o objetivo da Revolução Americana, que era a aspiração à soberania e à independência, e defendeu que, “quando nossos fundadores lutaram por independência, a violência foi o toque de clarim”. De acordo com a revisão da história feita por Carter Jackson, a celebração da violência definiu o panorama dos líderes da revolução.

A normalização de violência por meio da revisão da história não é motivada por um compromisso desinteressado com o desenvolvimento de uma nova forma de historiografia. Seu objetivo é legitimar os tumultos e saques, que Carter Jackson descreve como uma “rebelião negra”. Ela diz que:

No entanto, a linguagem usada para se referir aos manifestantes incluiu saqueadores, bandidos e afirma até que são antiamericanos. A filosofia da força e da violência para obter liberdade há tempos é empregada pelos brancos e explicitamente negada aos norte-americanos negros.

A implicação dessa afirmação é que chegou a vez de as pessoas negras usarem a “filosofia da força de violência”, que, até o momento, era empregada apenas pelas pessoas brancas.

Na versão alternativa da realidade, o colapso da lei antecede os protestos

Argumentos que normalizam a violência recorrem a uma narrativa que retrata o passado norte-americano como algo definido por sua violência. Como um comentarista afirmou, “hoje, enquanto os Estados Unidos profundamente divididos se esforçam para encontrar uma forma de superar seus perigos atuais, finalmente chegou a hora de olhar para trás e confrontar a fundação violenta e desunida da nação”. Na era atual, numerosos ativistas justificam os saques e tumultos alegando que, se foi bom o bastante para os “pais fundadores”, é bom o bastante para eles. O livro recém-publicado de Vicky Osterweil, In Defense of Looting [Em Defesa da Pilhagem], oferece uma declaração coerente com esse panorama. Ela timidamente higieniza o significado de protesto, descrevendo-o como uma forma não excepcional de ação em massa. E afirma que:

“Protestos” em geral se referem a qualquer momento de agitação ou revolta em massa. Os protestos são um espaço em que uma massa de pessoas produz uma situação em que as leis gerais que governam a sociedade não funcionam mais, e as pessoas podem agir de diferentes formas na rua e em público.

Nessa perspectiva, os protestos na verdade não são uma forma de infringir a lei, uma vez que eles ocorrem quando as leis “não funcionam mais”. De acordo com essa versão alternativa da realidade, o colapso da lei antecede os protestos, em vez de se seguir a eles.

Vale notar que em épocas anteriores, saques, protestos e violência em massa não eram promovidos como um fim em si. Eram vistos como formas lamentáveis e inevitáveis de atingir uma finalidade positiva e nobre. Revolucionários democráticos não celebravam protestos violentos e com certeza não defendiam saques como uma maneira de comportamento político e social. Essa atitude em relação à pilhagem é muito diferente da visão expressada por Osterweil. Ela louva a depredação porque “ataca o cerne da propriedade, da branquitude e da polícia”. De acordo com seu relato, os saques “oferecem às pessoas uma sensação criativa de liberdade e prazer e ajuda e imaginar um mundo que poderia existir”. É por isso que ela acredita que “saques e protestos violentos são vivenciados como eventos alegres e libertadores”.

Formas de comportamento confinadas às universidades migraram para o resto da sociedade

O surgimento de uma nova filosofia que justifica esse tipo de protesto e os saques é um resultado direto da poderosa influência exercida pela política identitária no mundo anglo-americano. Nos Estados Unidos, até pouco tempo atrás, o uso de violência e de ameaças politicamente motivadas tendia ao confinamento dos câmpus universitários. O exercício da cultura de cancelamento sempre continha a implicação de que a força poderia ser usada contra o alvo cancelado. O que mudou é que, em meses recentes, formas de comportamento que estavam confinadas às universidades migraram para o resto da sociedade. No ambiente menos refinado da urbanidade norte-americana, a cultura do cancelamento adquiriu uma dinâmica muito mais sombria.

Felizmente, a celebração da pilhagem ainda é um esporte minoritário. No entanto, uma parcela significativa da mídia norte-americana tem sido cúmplice em minimizar a escala destrutiva dos protestos urbanos violentos. A recusa em reconhecer essa realidade foi exemplificada de maneira mais impressionante pela organização de mídia CNN. Em uma matéria que mostrava Kenosha tomada pelas manifestações e em chamas, o destaque dizia “protesto intenso, mas basicamente pacífico”. A relutância da CNN em reconhecer uma realidade totalmente destrutiva é um sintoma da relutância da mídia em mostrar os manifestantes sob uma luz negativa. É por isso que, na mídia norte-americana, a palavra protesto rapidamente está se tornando um eufemismo para protesto violento. Então, quando uma corte em Oakland, Califórnia, foi incendiada, a ABC News noticiou que uma “manifestação pacífica se intensificou”.

https://twitter.com/BackToTheWar/status/1302840662996516864

Ao ouvir a matéria da ABC, os alertas de George Orwell sobre abuso da linguagem vêm à mente. Quando uma mídia supostamente livre se recusa a pensar livremente e noticiar o que é evidente aos olhos de seus espectadores, você sabe que a liberdade está muito encrencada. Quando protestos violentos são ignorados e, em alguns casos, celebrados, o respeito pelo Estado de Direito está fatalmente comprometido. Agora entendo de verdade quando a garçonete me alertou sobre a possibilidade de uma guerra civil. Pessoas como ela sabem que seu modo de vida está sob ameaça quando o comércio para o qual trabalham pode se tornar um alvo legítimo para um “protesto intenso, mas basicamente pacífico”.

Leia também o artigo “O perigo do aumento da consciência racial”


Frank Furedi é professor emérito de Sociologia na Universidade de Kent, na Inglaterra. Colunista da Spiked, é autor de livros considerados clássicos sobre temas como medo, paranoia e guerra cultural, como How Fear Works (2018) e First World War — Still No End in Sight (2016). Seu último livro, Why Borders Matter: Why Humanity Must Relearn the Art of Drawing Boundaries, foi lançado em julho pela Routledge.

 

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