“If you’re going through hell, keep going.”
(“Se estiver atravessando o inferno, continue andando.”)
(Winston Churchill)
“Se essa rua, se essa rua fosse minha. Eu mandava, eu mandava…” tapetar. Não podendo ladrilhar ruas com pedrinhas de brilhante, em cidades portuguesas e brasileiras, o costume é ornamentá-las na festa de Corpus Christi com tapetes coloridos, cuja matéria-prima são produtos e resíduos agrícolas, para o maior dos Amores passar. Vitorioso.
Corpus Christi é feriado facultativo nacional. Essa festa móvel da Igreja celebra a presença de Cristo na Eucaristia publicamente. Aqui e no mundo, a hóstia consagrada, feita de trigo, deixa a tranquilidade de sacrários e cibórios, abandona a imobilidade das igrejas, a escuridão de capelas e catedrais. Exposta numa custódia ou ostensório, ela brilha, abrigada por um pálio, e caminha descuidadamente, dourando-se ao sol, sobre efêmeros tapetes coloridos, arte anônima destinada a durar um dia.
Graças aos produtos da agricultura, as ruas por onde passa a procissão de Corpus Christi são forradas com tapetes de colorido vivo e desenhos de inspiração religiosa. Eles são feitos com flores e pétalas, cascas e grãos de café, bagaço moído de cana-de-açúcar, palha e grãos de arroz, quirela de milho, farinhas, pó de café, serragem, mechas de algodão… Verdadeiras obras de arte, efêmeras como o perfume e a beleza das flores.



Os ‘agrotapetes’ crescem ano a ano. Ornar as ruas é democrático e ocorre, em geral, durante o dia e a noite anteriores à procissão. É obra coletiva e planejada. Mobiliza escolas, prefeituras, pastorais e comunidades. É de fazer parar o trânsito. Casas recebem adornos, vasos de flores nas fachadas, toalhas rendadas e colchas decoradas debruçadas nas janelas. Ruas se transformam em um altar a céu aberto. Poucos sabem quanto essa festa religiosa gera receitas, move a economia local, o comércio, a gastronomia e o mundo rural.
Só em São Paulo, Corpus Christi, neste 19 de junho, atraiu 3,2 milhões de pessoas em mais de 20 cidades. Representou R$ 5,9 bilhões no setor de turismo, segundo a Secretaria de Turismo e Viagens. Corpus Christi movimenta dezenas de bilhões de reais na economia do Brasil profundo.
A celebração em Curitiba é a maior do Brasil pelo número de participantes, pela beleza e extensão dos tapetes. Cidades históricas de Minas Gerais, do sul do Espírito Santo, de Fortaleza a Aracaju, localidades como Matão, Ibitinga, Santana do Parnaíba, Pirapora do Bom Jesus e tantas outras são conhecidas pela beleza de suas felpudas e rendadas obras, a ladrilhar ruas e corações. São tapetes mágicos, prontos para voar e elevar quem os percorre.
A solenidade do Corpo e Sangue de Cristo remonta ao século 13. Nasceu em 1247 na diocese de Liege, na Bélgica, inspirada em visões da freira agostiniana Juliana de Mont Cornillon, para realçar a presença real de Cristo no pão consagrado. A Festa de Corpus Christi terminou instituída pelo papa Urbano IV, na Bula Transiturus, em 11 de agosto de 1264. E propagou-se.
Na diocese de Colônia, na Alemanha, Corpus Christi já era celebrado antes de 1270. E segue mundo afora, de Budapeste a Toledo, de Guaranésia a Braga, da Alemanha a Timor Leste. Também é comemorado em igrejas anglicanas, luteranas e metodistas, de forma diferente da católica. E dá nome a renomada faculdade (Corpus Christi College) na Universidade de Oxford.


A Eucaristia foi instituída por Jesus na Quinta-Feira Santa. Daí celebrar-se Corpus Christi numa quinta-feira, após o domingo de Pentecostes ou do Espírito Santo. O ofício de Corpus Christi e o hino gregoriano Pange Língua Gloriosi foram compostos por São Tomás de Aquino, teólogo e filósofo italiano (1225-1274), doutor da Igreja, autor de tratados como Suma Teológica, Suma Contra Gentios, Comentários à Metafísica de Aristóteles etc.
Após São Tomás, a escolástica (aristotélica), liberada do platonismo (agostiniano), abriu uma nova era na filosofia e na teologia. Seu ensinamento serviu de base à Contrarreforma e influenciou a Igreja até o século 19. Imensa catedral do saber, a Suma Teológica revela São Tomás como um metafísico do ser. Sua reflexão sobre Corpus Christi foi exemplar. Sua obra reconciliou fé e razão, verdades racionais e reveladas, Atenas e Jerusalém.
Neste Ano da Graça de 2025, a festa ocorreu na véspera do solstício de inverno, 20 de junho. Nessa época, no Hemisfério Sul, o sol anda baixo na abóbada celeste. Ao meio-dia, pessoas, edifícios e postes projetam as sombras mais longas do ano, em direção ao sul. O sol penetra com seus raios dentro das casas e, em morros e colinas, ilumina mais as fachadas expostas ao norte. Nelas ocorrem menos geadas. São aquecidas durante o dia. Já as expostas ao sul nem recebem diretamente os raios solares. São mais frias.
No Sul e no Sudeste, os produtores ocuparam prioritariamente a face norte do relevo para plantar café, maçã, uva, grãos e implantar pastagens. Esse padrão de uso das terras é visível em imagens de satélite: as fachadas do Norte foram desmatadas de longa data e são excelentes à fotossíntese. As do Sul seguem recobertas com florestas. Plantações, como casas e edifícios, devem ser voltadas à face norte; caso contrário, ficam “desnorteadas”.
O período mágico das festas juninas está centrado no solstício de inverno. Nele, o campo invade a cidade (Revista Oeste, Edição 65). O rural é celebrado pelo urbano em festanças e arraiais. O solstício está associado ao fim do ano agrícola, às colheitas, ao desfrute do árduo trabalho no campo. É tempo de aferir, pesar, contar, vender e armazenar. Apesar de diferenças territoriais, até junho encerra-se o essencial das colheitas de soja, milho, arroz, feijão, laranja, amendoim, algodão e outras. Esperam-se mais de 330 milhões de toneladas de grãos e 35 milhões de toneladas de tubérculos.

Após o solstício de inverno, a luz retorna. Inexoravelmente. A duração dos dias aumenta. Simbolicamente, essa vitória da luz de Cristo como verdadeiro sol invicto — tão comemorada em Corpus Christi, nas festas e fogueiras juninas — convida todos a enfrentar o inverno e o inferno. Seja ele climático, político, social, seja pessoal. Nas piores tempestades, revelam-se os melhores capitães de navios. Nos piores e acérrimos combates, surgem as verdadeiras e excepcionais lideranças. E, graças à união de todos, a vitória.
Existem duas expressões latinas sobre a vitória, bem conhecidas: “v.v.v.” e “v.v.v.v.v.” (três vês e cinco vês). A primeira é do imperador Júlio César: “Vim, vi e venci” (“veni, vidi, vici“). Ele a utilizou em seu relatório ao Senado, após vitória fulminante contra o rei do Ponto, na Batalha de Zela (Ásia Menor). O laconismo dessa expressão militar passou a designar todo sucesso imediato e inegável. A segunda expressão, vi veri veniversum vivus vici, significa “pela força da verdade, eu, um mortal, conquistei toda a criação”. A frase surgiu na peça A História Trágica do Doutor Fausto, de Christopher Marlowe.
Cabe buscar caminhos para atravessar este inv(f)erno político e social imposto ao Brasil. Um poder político sem estratégia, planos ou propostas ao país vive de taticismos e apoiado em forças e negócios ocultos, e não resiste ao sol da verdade. É tempo de solstício e de imperiosas mudanças. Se Corpus Christi animou sair às ruas, a cada um de descobrir e honrar sua genealogia cósmica e terrestre. A Nação não pode ficar refém, à mercê de um consórcio de malfeitores. A aparente hegemonia dos celerados é frágil. Tem na base a distribuição de recursos públicos a aliados privados e madraços. E só. Para quem é do ramo: Haec igitur nox est. Esta é a noite. Exsultet. Exultemos.
Vitória evoca virtude e virilidade, homens e mulheres viris, de valor. No campo e nas cidades, é tempo de refletir e preparar o plantio, a mudança e a primavera. A agropecuária é exemplo de resistência e vitórias contra adversidades, mesmo sob ataques constantes, aqui e no exterior. Da parte do Estado, não há plano para ampliar a logística, melhorar a infraestrutura para a agricultura e evitar perda de bilhões no escoamento da safra. O Plano Safra foi escangalhado. Nunca se viveu tamanha insegurança jurídica e violação de direitos básicos de propriedade e cidadania. Sob o silêncio e a omissão ensurdecedores de boa parte da mídia, advocacia e episcopado. Novos decretos do governo federal atingem a agropecuária, aumentam impostos sobre investimentos e atividades produtivas essenciais à economia e geram inflação em itens da cesta básica como arroz, feijão, carne, leite e ovos.

Um líder rural já falecido, chamemo-lo Seo Menezes, muitos anos atrás, em meio a uma reunião tumultuada do setor sucroenergético, com muita gritaria, me perguntou ao ouvido: — Evaristo, você sabe qual é a diferença entre o soldado e o general? Desejoso de aprender com aquele sábio, nem tentei buscar qualquer resposta lógica. Logo repliquei com um não. Ele então me explicou: — A diferença é a seguinte: no meio da batalha, em pleno tiroteio, enquanto os dois, soldado e general, lutam e disparam para todos os lados contra o inimigo… o general continua pensando. Mais adiante, ele pediu a palavra, instaurou o silêncio e falou. A maioria concordou. Acabou a reunião.
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O problema no Brasil é que nosso “general” é um bandido bêbado que só pensa nele próprio!
Neste inferno político, econômico e social vivido no Brasil, o artigo do Dr. Evaristo traz esperança. As raízes cristãs, ocidentais e rurais do país são uma força enorme. Como ele mesmo indica, espelhado nos ciclos cósmicos, eles, os opressores de plantão, com direito a “segurança” vitalícia paga por nossos impostos, passarão. Não resistem ao sol da verdade. E sobre a verdadeira herança maldita da terra arrasada que este desgoverno deixará, importará plantar, cultivar e reconstruir.
Grande Mestre, Evaristo !
Mais um show de informações e demonstração de altíssimo conhecimento.
Parabéns !