“Alguém que grita e humilha o acusado a tal ponto
sempre sente prazer nisso. Esse prazer corresponde
a uma autoexaltação simultânea: quanto mais
baixo o outro, mais elevado ele se sente.”
(Andreas Steiner, Psicólogo)
Com a chegada de Hitler ao poder, em 1933, Roland Freisler tornou-se figura central no Ministério da Justiça nazista. Desprezava as leis existentes e não seguia o devido processo legal. Em sua infame corte, o réu já entrava sabendo que estava condenado. Não demorou muito para ficar conhecido como “Carrasco em Toga” ou “Juiz de Sangue”.
Em 27 de fevereiro de 1933, o prédio do Reichstag, sede do Parlamento Alemão, foi incendiado. Adolf Hitler, que havia sido empossado chanceler da Alemanha apenas um mês antes, viu aí um pretexto para aprovar o Decreto de Incêndio do Reichstag, que lhe concedeu amplos poderes sobre a máquina pública e a suspensão imediata das liberdades civis.
Cinco supostos conspiradores foram presos pelo incêndio e levados a julgamento, mas as provas apresentadas eram fracas e apenas um dos cinco foi considerado culpado e condenado à morte. Os demais acabaram sendo absolvidos. Hitler ficou furioso com o resultado e, em 24 de abril de 1934, decretou que o “Tribunal Popular” substituiria os tribunais de primeira instância em casos políticos, incluindo traição. Qualquer forma de oposição ao regime seria considerada traição. Somente nazistas leais ao führer poderiam ser juízes. Esse tribunal foi fundamental para garantir o domínio nazista sobre a Alemanha — e Hitler escolheu a dedo o seu juiz mais fiel e impiedoso para comandá-lo: Roland Freisler. Na época em que o Tribunal Popular foi criado, Freisler era o Secretário de Estado do Ministério da Justiça do Reich. Foi ele quem solicitou que o Tribunal Popular se tornasse o Supremo Tribunal da Alemanha Nazista e que adotasse os conceitos jurídicos nacional-socialistas.

Freisler não perdeu tempo e atuou diretamente na criação de leis repressivas e antissemitas, ajudando a legalizar a perseguição a judeus, comunistas e outras minorias. Alcançou notoriedade em 1942, quando assumiu a presidência do Volksgerichtshof — o Tribunal Popular, criado para julgar crimes políticos. Na prática, uma corte de fachada na qual a sentença já vinha decidida. Geralmente, a morte.
No dia 20 de julho de 1944, um movimento de resistência dentro da Alemanha — que se originou a partir da Operação Valquíria —, composto por civis e militares desiludidos com o regime nazista, tentou assassinar Adolf Hitler. Foi a mais significativa tentativa de derrubar o nazismo. O fracasso do golpe levou a mais uma violenta repressão, com milhares de pessoas presas e executadas, incluindo muitos dos conspiradores. “Freisler julgará isso”, disse Adolf Hitler, garantindo que os “golpistas” seriam sentenciados por seu juiz favorito.
Como presidente do Supremo Tribunal Popular, vestido com sua toga vermelha, Freisler mostrava seu lado mais sádico: presidia o julgamento aos gritos, humilhava e insultava os réus de 20 de julho diante da câmera. Adorava um palco. Entre os acusados estava Carl Friedrich Goerdeler, também advogado de profissão e ex-prefeito de Leipzig. Freisler o condenou à morte.
O psicólogo Andreas Steiner dedicou anos ao estudo da psicologia do Terceiro Reich — em particular de Freisler. Uma tarefa difícil, visto que pouco se sabe sobre o juiz. Ele analisou, entre outras coisas, as poucas gravações cinematográficas conhecidas de Roland Freisler, como o julgamento dos acusados do atentado de 20 de julho e um filme encomendado por Joseph Goebbels. Segundo Andreas Steiner: “Ele frequentemente sentava ereto, de modo que o acusado tinha que olhar para cima”. “A isso se soma uma expressão indiferente, com as pálpebras semicerradas, que transmite a mensagem: ‘Você não merece minha total atenção’. Elevação: quanto mais baixo o outro estiver, mais alto ele se sentirá.”

Em 2 de fevereiro de 1945, Goerdeler foi executado em Berlim. Apenas um dia depois, 3 de fevereiro, Freisler morreu atingido por destroços, durante um bombardeio aéreo dos aliados, enquanto conduzia um julgamento. O carrasco voluntário de Hitler condenou 2,6 mil pessoas à morte em sua breve passagem como juiz do III Reich.
Existe uma famosa frase de Georg Wilhelm Friedrich Hegel que diz: “O que a experiência e a história ensinam é isto: que os povos e os governos nunca aprenderam nada com a história”. Apesar do acúmulo de conhecimento e experiência ao longo do tempo, tanto os indivíduos quanto as entidades políticas tendem a repetir os erros do passado. A história ensina apenas a quem quer evoluir como ser humano.
Daniela Giorno é diretora de arte de Oeste e, a cada edição, seleciona uma imagem relevante na semana. São fotografias esteticamente interessantes, clássicas ou que simplesmente merecem ser vistas, revistas ou conhecidas.
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O Alexandre de Moraes do século passado. Parabéns Daniela pelo artigo.
Qualquer semelhança é mera coincidência…
Incrível como a história se repete. Com certeza os carrascos atuais estudaram a fundo o comportamento dos antigos carrascos e, com pequenas alterações, repetem o show de horrores e a maldade doentia daqueles que um dia ousaram se achar acima das leis.
Assim como a história mostra que a humanidade repete os mesmos erros, ela também mostra que esses psicopatas não duram muito e tem o fim que merecem.
O nazismo é uma ferida na história da humanidade orquestrada por um maníaco.
Felizmente não faz parte da legislação brasileira, mas para Alexandre de Moraes se equiparar a Freisler só falta começar a decretar penas de morte. Para quem já cometeu incontáveis arbitrariedades, mais uma será apenas mais um ato ilegal deste togado.
Obrigada pelo excelente artigo, suas palavras nesse dificil e delicado momento que o Brasil atravessa,não são coincidências.
Maravilhoso. Ser assinante desta revista é sempre um privilégio.
Troquem-se as personagens e o tempo, e estaremos no Brasil de 2019/2025….
Resgate da história perfeita para os dias de hoje, com certeza em breve teremos documentários baseados neste período supremo do Brasil.🙃
Hoje temos a reencarnação do mal. Pena que o original morreu em um bombardeio, e não por sentença judicial.
Excelente artigo, que, sem explicitar comparações, dá aos leitores informações suficientes para concluir, por si mesmos, sobre semelhanças que não são meras coincidências. Eu só acrescentaria que Freisler, soldado aprisionado pelos russos durante a Primeira Guerra Mundial, foi um dos alemães nessa condição que, durante a Revolução Bolchevique, aderiram ao comunismo, trocando-o pelo nazismo quando retornou a seu país.