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Daniel Noboa (presidente do Ecuador), Santiago Pena (presidente do Paraguai) e Rodrigo Paz (presidente do Ecuador), da esquerda para a direita | Foto: Júlia Xavier/Montagem Revista Oeste/Shutterstock
Edição 293

Direita retoma espaço na América do Sul

A derrota da esquerda na Bolívia e no Peru mostra que a população sul-americana está cansada de governos que só aumentaram a corrupção e a criminalidade 

Quando o terrorista Abimael Guzmán morreu, em 2021, aos 86 anos, na prisão de Lima, formou-se um debate sobre o destino de seu cadáver. Uma corrente de radicais fanáticos defendia que ele fosse entregue à viúva, número 2 do Sendero Luminoso, também presa. Outra incluía o escritor peruano Mario Vargas Llosa, que morreu em 2025. Ele relatou o episódio e, na época, defendia incinerar o corpo do bandido, para evitar que o mausoléu atraísse seguidores.

A saída de cena de Guzmán, de perfil maoísta, teve forte simbolismo. Enquanto esteve em ação, representou a ameaça da esquerda extremista na América do Sul em sua forma mais radical. Durante 12 anos de atentados e terror, deixou milhares de mortos no país. Sua influência indireta também alimentou candidaturas que sustentavam a ideia de que o socialismo e a presença do Estado trariam justiça social.

A chamada Onda Rosa foi a definição dada para a ascensão da esquerda sul-americana no início do século 21. O rosa foi escolhido para amenizar o vermelho, que caracteriza a esquerda, em uma tentativa de evitar a rejeição popular. 

Governos como os de Fernando Lugo, no Paraguai; Luiz Inácio Lula da Silva, no Brasil; os ditadores Hugo Chávez (1954-2013) e Nicolás Maduro, na Venezuela; Alejandro Toledo, no Peru; Cristina Kirchner, na Argentina; Evo Morales, na Bolívia; e Gustavo Petro, na Colômbia, entre outros, surgiram nesse contexto.

Maduro e Lula seguem aliados | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Nicolás Maduro e Lula da Silva | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Mas o cansaço causado por déficits públicos seguidos, aumento da criminalidade e, muitas vezes, tolerância a grupos terroristas e narcotraficantes, estimula mudanças neste cenário nada cor-de-rosa.

De 2005 a 2008, dos 12 países sul-americanos, dez eram governados por esquerdistas, um por presidente de direita e um de centro. Em apenas nove dias neste final de 2025, a desvantagem da direita diminuiu para dois países. No momento, o mapa político da região é formado por sete países governados pela esquerda e cinco pela direita.

Em 19 de outubro, Rodrigo Paz Pereira, do Partido Democrata Cristão (centro-direita), assumiu a presidência da Bolívia, encerrando duas décadas de governos do Movimento ao Socialismo (MAS), de esquerda. Dias antes, em 10 de outubro, o Congresso do Peru destituiu a esquerdista Dina Boluarte, sucedida por José Jerí, do Somos Peru (centro-direita).

“A vitória de Paz marca a Bolívia como a mais recente nação latino-americana a inclinar-se à direita, em um contexto em que eleitores da região demonstram cansaço com alta inflação, criminalidade, corrupção e reformas malsucedidas”, declarou a colunista Tasha Kheiriddin, no portal GZero.

Paz foi eleito com 54,5% dos votos, derrotando o ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga, também de direita, no segundo turno. O MAS perdeu o rumo e a credibilidade junto à população depois da ruptura entre o presidente Luís Arce e Evo Morales, alvo de mandado de prisão emitido por supostos crimes relacionados a tráfico de pessoas e estupro de vulnerável. Morales permanece em Chapare, Cochabamba, reduto cocalero considerado território hostil para forças policiais. Só por isso não está preso.

Sob os governos de Morales e Arce, o déficit boliviano subiu de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2006 para 95% em 2025, enquanto as reservas em moeda estrangeira caíram de US$ 13 bilhões em 2014 para menos de US$ 50 milhões, e a inflação subiu de 4% para os atuais 24% ao mês.

No Peru, Jerí busca iniciar a transição, depois de um período turbulento em que seis presidentes foram destituídos nos últimos nove anos. Outro ex-presidente, Alan García, se matou antes de ser preso, em 2019, sob acusação de receber suborno da Odebrecht, a mesma empreiteira da Operação Lava-Jato. García negava a acusação.

A Onda Rosa começou a arrefecer em 2010, com Juan Manuel Santos governando a Colômbia até 2018. Naquele ano, com a eleição de Sebastián Piñera (1949-2024), o Chile voltou a ter um governo de direita, mantido até 2022. 

Jair Bolsonaro, ao assumir a presidência do Brasil em 2019, foi mais um importante representante do setor de direita em ascensão. Depois, Javier Milei, eleito em novembro de 2023, reforçou essa tendência, capturando o cansaço da população argentina, segundo o economista Juan Carlos de Pablo, da Universidade de San Andrés.

“A Venezuela permanece como o último reduto da Onda Rosa original da América do Sul”, relata editorial do World Politics Review. “Mas a revolução bolivariana, iniciada pelo ex-presidente Hugo Chávez, transformou-se em um desastre econômico e humanitário sob seu sucessor, Nicolás Maduro.”

Narcotráfico e terror

Com Paz e Jerí assumindo Bolívia e Peru, a possibilidade de virada da direita começa a se consolidar. Ambos já adiantaram que deverão se alinhar aos Estados Unidos (EUA), em contraposição aos interesses de Rússia e China, que geralmente têm maior influência nos países governados pela esquerda. 

Na Argentina, depois de anos de kirchnerismo marcado por inflação crônica e corrupção, Milei tem realizado a mudança de rumo, pautado em uma proximidade com o governo de Donald Trump.

Presidente da Argentina, Javier Milei | Foto: Reprodução/Gage Skidmore/Flickr
O presidente da Argentina, Javier Milei | Foto: Reprodução/Gage Skidmore/Flickr

O Equador, comandado por Daniel Noboa, enfrenta protestos e pressões econômicas, mas introduziu uma agenda de centro-direita que prioriza investimentos, modernização do Estado e estabilidade. Isso em contraste com décadas de populismo que deixaram déficits persistentes, desde a gestão de Rafael Correa.

A população sul-americana, cada vez mais, tem considerado que as promessas da esquerda não se concretizaram. Dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) e dos próprios países mostram que, no Peru, o déficit fiscal subiu de 1,1% em 2005 para 2,2% do PIB em 2025. A criminalidade saltou de 1.502 homicídios por ano em 2005 para 1.690 nos primeiros nove meses de 2025. 

No Equador, sob o regime de Rafael Correa (2007-2017), a taxa de homicídios subiu de 5,8 por 100 mil habitantes em 2016 para quase 26 em 2022. No Paraguai, presidido pelo ex-bispo sindicalista Fernando Lugo, o déficit fiscal em 2008 era de 1,5% do PIB, com inflação de cerca de 8% e homicídios de mais de 9 por 100 mil habitantes. Na atual gestão de Santiago Peña, de direita, o crescimento do PIB chega a 4%, a inflação é de menos de 4% e a taxa de homicídios está em 5 por 100 mil.

Quase todos os regimes de esquerda tiveram presidentes presos ou denunciados por corrupção. No Peru, Alejandro Toledo, Ollanta Humala, Martín Vizcarra e Pedro Castillo estão presos na mesma penitenciária em Lima. 

Na Argentina, Cristina Kirchner foi condenada por administração fraudulenta durante seus governos entre 2007 e 2015. No Equador, Correa foi condenado à revelia em 2020 a oito anos de prisão por envolvimento no caso Sobornos 2012-2016, mas não cumpriu a pena, residindo fora do país. Morales se esconde na própria Bolívia.

“O tempo das revoluções ainda está vigente na América Latina? Só os insensatos podem achar que sim”, escreveu Vargas Llosa no El País.

Além de tudo isso, a Onda Rosa facilitou o crescimento do narcotráfico e do terror. O presidente Trump considera que Colômbia e Venezuela, comandadas por Gustavo Petro e Nicolás Maduro, caminham nessa trilha. 

O olhar do escritor

Entre setembro e outubro, milhares de soldados e marines dos EUA foram enviados a águas próximas à costa venezuelana. Cinco embarcações acusadas de transportar drogas foram bombardeadas, causando mais de 20 mortes. 

O governo Trump declarou em outubro que a Colômbia havia deixado de cooperar na guerra contra as drogas e retirou ajuda financeira. “Não queremos uma guerra no Caribe”, recuou Maduro, acusado por Trump de chefiar o Cartel de los Soles.

O venezuelano pode estar percebendo que seus dias no governo estão contados, nesta nova era, já antecipada por Llosa em 2021. Naquele artigo, ele defendeu o desenvolvimento real de países que seriamente progridem, aumentam seus níveis de vida, expandem suas indústrias e, com elas, os sistemas de educação e de saúde, os salários e os postos de trabalho. “Olhar o outro lado, por sua vez, deveria bastar para ver que as famosas ‘revoluções’ só trouxeram catástrofes semelhantes às que Abimael Guzmán produziu no Peru.”

Leia também “Colômbia sem paz”

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3 comentários
  1. DONIZETE LOURENCO
    DONIZETE LOURENCO

    O socialismo não é, nem nunca foi, um movimento de massas oprimidas, e sim de elitistas famintos por poder. Os pobres são apenas os fantoches do jogo. “Frederick G. Allen”.
    E a miséria se instala quando o dinheiro acaba.

  2. Ricardo de Goes Correia
    Ricardo de Goes Correia

    A legenda da foto está toda errada: Ecuador (espanhol) em vez de Equador, e o Rodrigo Paz é da Bolívia, não do Equador.

  3. SANIA MARA GUADANINI PEREIRA
    SANIA MARA GUADANINI PEREIRA

    A América do Sul está caminhando para a direita ➡️. Será que só o Brasil vai continuar na direção contrária? Vamos persistir no lado do atraso, da perseguição, da corrupção?

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