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As imagens de corpos amontoados em sacos pretos expõem o colapso dos necrotérios e o drama de parentes que vasculham pátios e praças | Foto: Reprodução/Redes Sociais
Edição 305

Rios de sangue

O regime dos aiatolás cobre o Irã com um véu de silêncio e massacra quem exige o seu fim

O que está acontecendo no Irã deixou de ser um conjunto de protestos para se tornar uma contrarrevolução. Após 47 anos vivendo sob uma teocracia antiamericana, o anseio da população é retornar à monarquia pró-América do passado. Antes disso, no entanto, é preciso arrancar o país das profundas garras do regime islâmico. Não é uma tarefa rápida ou indolor, tampouco nova.

A atual onda de manifestações é, na verdade, a conjunção das lutas encampadas pelos protestos que sacodem o país, de tempos em tempos, há 27 anos. Em 1999, o estopim foi o assassinato de um estudante; em 2009, a fraude que levou à reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad; em 2017, o aumento do preço de alimentos e o corte de benefícios à população carente; em 2019, o aumento do preço da gasolina; e em 2022, a prisão e o assassinato da jovem Mahsa Amini pelas forças de repressão feminina.

Em todos eles, entre dezenas e centenas de manifestantes foram assassinados nas ruas, enquanto milhares foram presos e depois condenados à morte. Justamente nestes últimos dias, vários deles foram executados.

Desta vez, no entanto, o turbilhão poderá levar a um resultado diferente de todos os anteriores. De acordo com o artigo escrito pelos analistas Jack Goldstone e Karim Sadjadpour para o jornal The Atlantic, o Irã está agora sob a confluência de cinco fatores que, juntos, podem garantir a queda de um regime: crise fiscal, divisão das elites, coalizão de opositores diversos, narrativa de resistência convincente e ambiente internacional favorável.

Sofrimento de décadas

A situação de penúria, exclusão e sofrimento dos iranianos se arrasta há décadas sob um governo teocrático, punitivo e controlador, mais preocupado em destruir inimigos no exterior do que em atender às necessidades de seu povo. Bilhões de dólares foram usados para criar e manter uma rede de proxies, hoje desfigurada pela guerra no Oriente Médio. Outros bilhões foram investidos em um programa energético que se transformou em pó depois do ataque israelense e norte-americano às instalações nucleares iranianas em junho de 2025.

O resultado dessa política foi desastroso, ainda mais frente às sanções internacionais impostas há décadas. “Os 92 milhões de iranianos são provavelmente a maior população mundial a estar isolada por décadas do sistema financeiro global. Além da inflação, o país sofre com a corrupção endêmica, a má gestão e a fuga de cérebros. Os jovens estão desempregados ou subempregados; as gerações mais velhas descobriram que seus fundos de pensão estão insolventes. As sanções globais e a queda do preço do barril de petróleo forçaram Teerã a vender para a China a preços insustentáveis”, descreve o analista internacional Sadjadpour, membro sênior do Carnegie Endowment for International Peace.

É abominável a discrepância entre o padrão socioeconômico e os direitos civis de membros ligados ao regime e os de cidadãos comuns; o padrão moral que o governo afirma defender só é imposto a quem não participa dele. “Em grafites pelas cidades, a população demonstra seu repúdio. Enquanto a polícia supervisiona com violência o uso do hijab pelas mulheres, suas filhas e amantes são vistas no exterior caminhando sem eles. A falta de água é em parte atribuída à ‘máfia da água’, formada por empresários que desviam fontes para seus próprios projetos industriais, deixando vilarejos desprovidos”, descreve Sadjadpour. “Filhos de milhares de oficiais exibem no Instagram sua vida confortável em cidades do Ocidente. Manifestantes na cidade de Yasuj recentemente clamaram em um protesto: ‘Os filhos deles estão no Canadá. Os nossos filhos estão na prisão’.”

Sem algum tipo de intervenção externa, como a prometida pelo presidente Donald Trump, os iranianos terão longos meses de duríssimas batalhas pela frente.

A Guarda Revolucionária Iraniana, criada originalmente para proteger o regime, é formada por cerca de 150 mil membros. Eles são a única elite ainda coesa no Irã — além de contar com os benefícios exclusivos do regime (como supermercados subsidiados e câmbios favoráveis), são hoje muito mais um complexo industrial armado do que uma força de segurança governamental. Um empresário iraniano recentemente a descreveu como um “grupo de máfias concorrentes, cuja maior lealdade não é à nação, à religião ou à ideologia, mas ao enriquecimento pessoal”. É ela que evita o colapso do governo.

“A República Islâmica é, hoje, um regime zumbi. Sua legitimidade, ideologia, economia e liderança estão mortas ou morrendo. O que a mantém viva é sua força letal”, descreve Sadjadpour. É a isso que o mundo está assistindo praticamente calado, em especial no último final de semana.

Roteiro de terror

Os iranianos já sabiam o que estava por vir no momento em que notaram, no último dia 8, que as redes de internet começaram a ser desconectadas. Afinal, essa é, historicamente, a ação que precede a repressão sem limites comandada pelo regime nas ruas, com um nível de barbárie que o Ocidente mal consegue imaginar.

Com a falta de conexão com o mundo, uma vez que também as ligações internacionais foram bloqueadas, vídeos e mensagens de massacres protagonizados por todo o Irã começaram a ser veiculados a conta-gotas por meio de canais limitados. O regime conseguiu bloquear 99% da conexão pela Starlink usando tecnologia militar.

A alternativa encontrada foi aproximar-se das fronteiras para captar o sinal de países vizinhos. Também houve casos bem-sucedidos de conexão por meio de SIM cards internacionais. Outra estratégia, usada nos primeiros dias de protesto, foi fazer com que o próprio aparelho telefônico contendo gravações chegasse ao exterior por meio das milhares de pessoas que estão fugindo do país por terra. Hoje esse procedimento tornou-se impossível, pois há bloqueios policiais em ruas e estradas, nos quais telefones são vistoriados ou apreendidos.

Em uma mensagem de voz que ultrapassou as fronteiras, um homem relatou: “Milhares e milhares estão sendo mortos… Se nada acontecer nos próximos dias, todos serão massacrados. Sejam nossa voz! Por Deus, não estou exagerando. Eles matam as pessoas nas portas de suas casas… Estão recolhendo os satélites. Voltamos 100 anos no tempo”.

O rapper iraniano Meraj Tehrani gravou um vídeo quando já estava em solo turco, depois de escapar do massacre, e relatou as mesmas cenas. “Eles estão matando a todos. Estão matando crianças nas ruas. Só a ajuda estrangeira pode ajudar… Vocês não sabem o que está acontecendo — eu vi o inferno no Irã nos últimos dias.”

Outro vídeo mostra as imagens captadas por uma iraniana não identificada do hall de entrada do prédio em que vive. Três manifestantes buscaram ali refúgio durante um protesto. É noite, ela aguarda alguns segundos até que se torna possível ouvir a aproximação das forças policiais. Nesse momento, ela decide abrir a porta eletrônica — justamente quando pelo menos dez atiradores entram no local disparando a esmo, com fuzis.

Em uma entrevista a uma rede de TV, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, deu a versão governamental do véu de horrores que cobriu o país. “Consideramos os três dias, entre 8 e 10 de janeiro, como uma operação terrorista em grande escala e uma continuação da guerra imposta a nós por Israel e pelos Estados Unidos. Agora há calma e controle total, e espero que a sabedoria prevaleça e que não alcancemos um nível de tensão elevado que seria destrutivo para todos.”

Ele manipulou as informações do começo ao fim: os manifestantes continuam lutando bravamente enquanto olham para os céus, aguardando a ajuda prometida por Donald Trump.

Números tétricos

Sem cobertura da mídia e sem internet, tornou-se impossível acompanhar os números da tragédia enquanto ela se desenrolava — e também hoje. Algumas fontes, como a ONG de Direitos Humanos Hrana, veicularam uma estimativa inicial de 500 mortos. Em outro momento, o governo admitiu 2 mil vítimas (e depois desmentiu). Na terça-feira, o Iran International, jornal de oposição baseado em Londres e Washington, noticiou 12 mil mortes.

“Nossa estimativa foi baseada em um cálculo realizado a partir de relatórios de fontes oficiais como o Conselho de Segurança Nacional e a Guarda Revolucionária”, disse Ashkan Safaei Hakimi, pesquisador e correspondente do Iran International. “Eles estão de acordo com outros relatórios que recebemos de médicos, hospitais, necrotérios etc. No sábado, 10 de janeiro, um único hospital de Mashhad notificou a chegada de 2 mil corpos.”

Nas mídias sociais, especialmente o Instagram e o Telegram, vídeos gravados em diferentes cidades exibem corpos em sacos pretos e sem nenhuma identificação aglomerados pelas cidades. Com a lotação dos necrotérios há tempos esgotada, as vítimas do regime estão sendo colocadas em estacionamentos de hospitais, escolas, pátios e praças. São terríveis as imagens de parentes passando entre as fileiras de mortos em busca de seus familiares.

As imagens de corpos amontoados em sacos pretos expõem o colapso dos necrotérios e o drama de parentes que vasculham pátios e praças | Fonte: Reprodução/Redes Sociais

“Pelos corpos, quase todos baleados na cabeça e no peito, entende-se claramente que os agressores receberam a ordem de atirar para matar. A maioria das vítimas tem menos de 30 anos. Recebemos informações de que também crianças, e até mesmo bebês, foram assassinados — eles provavelmente estavam no colo de suas mães quando foram alvejados”, detalha Hakimi. Vídeos e fotos mostram manifestantes sendo enfrentados com metralhadoras e fuzis, muitas vezes perseguidos por policiais em motocicletas e jipes. Uma verdadeira caçada humana.

A repressão é conduzida pela Guarda Revolucionária e pelo grupo Basij, uma milícia voluntária responsável por apoio paramilitar, segurança interna, aplicação da lei e policiamento moral, notória por reprimir violentamente a dissidência e esmagar protestos com brutalidade. Mas não apenas eles: nas últimas semanas, foi noticiada a entrada no país de 800 combatentes de milícias iraquianas, além de soldados do grupo terrorista Hezbollah. O povo não enfrentou apenas a polícia, mas também hordas de terroristas.

O número de manifestantes presos é igualmente monstruoso: segundo dados “oficiais”, impossíveis de serem confirmados, soma quase 19 mil pessoas em menos de 20 dias de manifestações. O horror não se encerra com as péssimas condições carcerárias, uma vez que a pena de morte é comumente aplicada no Irã para “acusações relacionadas à segurança”. Em 2025, segundo o Relatório 2025 da Hrana, 2.063 pessoas foram executadas; duas delas tinham menos de 18 anos.

E o Brasil com isso?

Embora a tragédia pareça distante, seus desdobramentos atravessam fronteiras e chegam também ao Brasil. A queda do regime tem potencial para afetar o país especialmente em dois aspectos. Um deles diz respeito à estabilidade do Brics, ao qual o Irã aderiu como membro pleno em 2024. No caso da queda do regime dos aiatolás, esse arranjo entraria em suspensão e funcionaria como um teste de estresse para o bloco.

O segundo tema diz respeito ao impacto sobre as atividades do Hezbollah não somente em território brasileiro, mas globalmente. Até hoje, o Irã foi responsável por algo em torno de 60% a 70% do orçamento geral do Hezbollah.

“O restante é coberto de duas formas: por meio de doações de xiitas libaneses e sua diáspora global e de atividades criminosas lucrativas. Se o regime cair, o financiamento do Irã muito provavelmente cessará ou diminuirá muito”, explica Christian Vianna de Azevedo, Agente Especial da Polícia Federal há mais de 25 anos, e especializado nas áreas de Inteligência, Contraterrorismo e Enfrentamento ao Crime Organizado Transnacional. “Para compensar a perda, o Hezbollah deverá ampliar suas atividades criminosas em empreendimentos ilegais que já domina, como tráfico de drogas e de armas, lavagem de dinheiro, contrabando, entre outras atividades ilícitas.”

O tema é sério, merece atenção e atuação. Afinal, os fios que conectam o terrorismo islâmico pelo mundo continuarão existindo mesmo sem um aiatolá oficialmente no poder, carregando consigo a violência do fundamentalismo.

Ninguém pode prever o que acontecerá nos próximos dias. A única certeza é que, sem algum tipo de intervenção externa, como a prometida pelo presidente Donald Trump, os iranianos terão longos meses de duríssimas batalhas pela frente.

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4 comentários
  1. Paulo César da Conceição
    Paulo César da Conceição

    Torço para que Donald Trump parta pra cima destes malditos o quanto antes.
    Deus abençoe o povo Iraniano.

  2. Erasmo Silvestre da Silva
    Erasmo Silvestre da Silva

    Hoje está tudo muito claro a política em todo mundo, como uma parte da jumentolândia não consegue enxergar uma coisa tão evidente

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